TELEANÁLISE: NÓS QUE AMÁVAMOS TANTO A REVOLUÇÃO

Por Malu Fontes.

malu fontesNo ano e no período em que o mundo e suas emissoras de TV comemoram ininterruptamente com programas especiais os 40 anos do Festival de Woodstock e os 20 anos da queda do Muro de Berlim, a televisão brasileira foi forçada a abrir amplo espaço em sua grade, no telejornalismo e fora dele, para falar de uma reação medieval. Sim, em meio às duas festas ancoradas na idéia de liberdade e expressão dos direitos individuais, à troca de balas entre navios norte e sul-coreanos, às imagens da marcha de Jesus no Rio com Madona e ao apagão causado em 18 estados, nas capitais mais ricas do país e no Paraguai pela primeira pane plena na Usina de Itaipu, o fato é que o vestido curto pink da estudante de turismo Geisy Arruda foi o tema mais abordado na TV e na imprensa brasileira nos últimos dias.

Após, por meio de um anúncio publicado em grandes jornais de São Paulo no último final de semana, a Universidade Bandeirante, anunciar que a moça estava sendo expulsa em nome da moral e dos bons costumes, por ter ido à aula com um vestido curto, o país inteiro começou a bater o pé achando que a palhaçada de republiqueta de bananas já estava indo longe demais. A asneira foi tão federal, que pela primeira vez na história, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Ministério da Educação chegaram a um consenso. Desde quando o Brasil tem Polícia do Comportamento? Desde quando universidades dessas que se multiplicam a cada esquina e disputam a tapa os filhos das classes médias baixas esperam que suas alunas freqüentem as aulas vestidas de tailleur de tweed?

TARADO – Não há linha de raciocínio capaz de explicar a quem quer que seja que, em um mundo que celebra todas as liberdades advindas da contracultura que tem Woodstock como marco, e que, mais ainda, em um país como o Brasil, cujas autoridades nunca tiveram vergonha de transformar a bunda feminina em cartão postal, às portas de 2010, uma universitária seja expulsa de uma faculdade por ter ido à aula com um vestido curto. A coisa fica ainda mais torta e avessada quando, no percurso do caso, a expulsão se dá não exatamente porque a moça usou o tal vestido, mas porque, ao fazê-lo, os coleguinhas defensores da moral e dos tais bons costumes (ganha um doce quem definir o que isso ainda significa hoje) a lincharam verbalmente e quase literalmente, não fosse a Polícia ter sido chamada para escoltá-la após ser providenciado um jaleco branco de professores para cobrir-lhe as vergonhas, ou seja, as pernas.

Nem decote o vestido tinha. A contrário, era de mangas morcego compridas. E vale lembrar que, de casa até a universidade, Geisy foi de ônibus, andou pela rua e não foi importunada por nenhum tarado. Alguns dias após ter sido ofendida com todo o repertório capaz de traduzir e reduzir ao subsolo do limbo do substantivo puta a vítima é que foi punida. O máximo que se pode dizer de uma mulher que vai assim ou assado para a faculdade é que ela é inadequada, vulgar ou tem mau gosto. Mas onde tá escrito que essas coisas são passíveis de punição. E se houver na Uniban uma espécie de ‘polícia interna do gosto’, com poderes para punir Geisy por ser tida como assemelhada a uma puta, o primeiro outro a ser punido deveria ser o advogado da universidade, com aquele penteado gomalinado, no pior estilo alcinha de boquete com que apareceu na TV para anunciar a expulsão.

CHEQUE – Ao fim e ao cabo, como dizem os embolorados, o que fica é a estranheza de assistir programas tão fofos e cheios de textos criativos narrando a importância daquelas imagens de tanta gente despenteada e seminua de Woodstock para as liberdades usufruídas hoje, do absurdo que era para as liberdades individuais um muro separando Berlim em duas e, ao mesmo tempo ver, no Brasil, os filhos das gerações que se emocionaram com cenas dos dois episódios querendo linchar uma mulher de 22 anos pelo comprimento de seu vestido. Quem dera, como na canção, ainda fôssemos os mesmos e vivêssemos como nossos pais. Os tais pais equivalentes ao nós da expressão ‘nós, que amávamos tanto a revolução’, aqueles que tiraram a roupa para falar de liberdade, produziram uma geração de descendentes inomináveis. E como a moeda que aciona o circo é tão vulgar quanto os eventos que ele produz, a tendência agora é que meio os inomináveis corram para compensar Geisy do prejuízo moral proporcionando-lhe um cheque de uma revista masculina que os policiais do comportamento vão, literalmente, pagar para ver.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 15 de Novembro de 2009. [email protected]



One response to “TELEANÁLISE: NÓS QUE AMÁVAMOS TANTO A REVOLUÇÃO

  1. Aff, dnovo esse assunto?! tem problemas mais serio a ser tratado. Vamos ficar fazendo markenting dessa menina fala sério. O jornalismo hj tá assim a mesma noticia toda hora satura!

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