GRANDE HAITI

Por Magno Lavigne.

As imagens do terremoto no Haiti nos deixam aterrados, angustiados e com grande sensação de impotência. De imediato precisamos de algo que nos faça atravessar as horas do horror que nos chegam pela TV. Pensar sobre este lugar convulsionado pela devastação promovida pelo terremoto e que expôs para o mundo as precárias condições estruturais do país, como o lugar da ação pela independência e pela liberdade talvez seja uma forma de contribuir com este momento.

Eis um país que enfrenta uma tragédia, um Estado que conhece a miséria como nós conhecemos. Ali está um povo negro como o nosso. Olhamos para aquelas faces e elas são próximas a nós.

Os haitianos nos são próximos: em sua negritude; na experiência histórica de ter sobrevivido ao abjeto tráfico de escravos e à colonização na América sob o jugo da escravidão; no legado de marcas profundas deixadas especialmente nas relações de trabalho pelas relações escravistas; no sofrimento de ter vivido sob ditaduras; e na incomensurável luta pela conquista da cidadania. E ainda aproximam-se de nós na contemporaneidade pelas relações que o Brasil estabeleceu com este país latino-americano ao integrar a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti.

Rememorar a história dessa relação é uma necessidade que para nós significa conhecer mais sobre nós mesmos e sobre aqueles que nos aparecem em imagens cruas e de forma tão vitimizada. Significa também ampliar expectativas que nos façam refletir sobre as potencialidades desse povo cuja “reconstrução” já é anunciada pelos diversos Estados.

O passado dos haitianos é especialmente marcante na história, após terem levado a cabo a única Revolução promovida por escravos nas Américas e que transformou, em 1804, a próspera colônia francesa de São Domingos, na primeira República negra das Américas, o Haiti.

O nascimento deste pequeno Estado atingiu enormes proporções, seu exemplo causou impacto nas cidades negras escravocratas de todas as Américas.

No Brasil, tornou-se desde então: do lado das elites motivo de grande tensão para os senhores de escravos que se utilizaram de diversas estratégias para que esta experiência não se reproduzisse, na medida em que uma revolução de escravos reforçava os sentimentos de revolta dos negros brasileiros e representava um modelo de questionamento ao regime escravista. E de outro lado, (para nós o mais importante), um referencial de liberdade para os trabalhadores negros escravizados do Brasil.

O Haiti tem sua história marcada fortemente pela expansão marítima e pela disputa dos europeus no mundo atlântico. Está situado no Caribe onde divide a ilha com a República Dominicana.

Esta ilha, foi o primeiro território atingido por Cristóvão Colombo em 1492, denominada Hispaniola, ficou inicialmente sob o domínio espanhol. Em 1697, a terça parte da ilha do lado ocidental foi cedida à França. Um século depois, toda a ilha Hispaniola passou ao controle francês.

São Domingos/Haiti era colônia francesa ou poderíamos dizer a “galinha dos ovos de ouro” da França por volta da eclosão da Revolução Francesa em 1789, grande exportadora de café e açúcar e contava com o trabalho de cerca de 450.000 escravos. Em 1791 os escravos se revoltaram e após muitas lutas contra: brancos nativos; soldados franceses; invasão espanhola; expedição britânica e expedição francesa das quais saíram finalmente vencedores em 1804, expulsando dessa parte da ilha os franceses. A República Dominicana, cuja capital é hoje Santo Domingo somente alcançou definitivamente sua independência em 1865.

Merecem destaque e maior conhecimento a atuação de lideranças negras especialmente, Toussaint L’Overture e Jean Jacques Dessalines, além do próprio processo complexo e riquíssimo dessa revolução que resultou na independência do país e na abolição da escravidão.

A repercussão da revolução haitiana deixou diversos vestígios entre nós. Quanto à sua circulação entre os escravos Luiz Mott no artigo “A Revolução dos negros do Haiti e o Brasil” encontrou um documento que registrou que em 1805, o Ouvidor do Crime do Rio de Janeiro “mandara arrancar dos peitos de alguns cabras ou crioulos forros o retrato de Dessalines, imperador dos negros da Ilha de São Domingos”. Alertava ainda que estes cabras ou crioulos eram empregados nas tropas da milícia da cidade e manejavam a artilharia, o que aumentava, a potencialidade do perigo.

Em Sergipe em 1824, há denúncias de que teria se realizado um jantar onde foram feitos elogios ao Rei do Haiti e a “São Domingos, o grande São Domingos”.

Foram também identificadas pelos historiadores, muitas falas de senhores de escravos que até por volta de 1850, tremeram diante da possibilidade do Haiti se repetir por aqui, já que tínhamos um enorme contingente de negros.

Em diversos momentos da primeira metade dos anos 1800 os senhores de escravos e representantes políticos do estado monárquico travaram intensos debates sobre a continuidade e/ou extinção do tráfico Atlântico de escravos africanos e da própria escravidão.

Os escravos negros africanos, os escravos nascidos no Brasil (designados crioulos), os libertos e negros nascidos livres, eram naquele contexto identificados pelas elites como um malefício, problema para o qual discutiam a solução;

Membros das camadas senhoriais revelavam seus temores e reivindicavam medidas que impedissem a haitianização do Brasil. Este medo recebeu o nome de haitianismo e segundo os historiadores foi um dos fortes motivos para o fim do tráfico Atlântico de escravos para o Brasil em 1850 e para o emprego de estratégias e políticas aplicadas para a extinção da escravidão. Em 1821 João Severiano Maciel da Costa, magistrado e político no Império, em sua “Memória sobre a necessidade de abolir a introdução de escravos no Brasil, sobre o modo e condições com que esta abolição se deve fazer e sobre os meios de remediar a falta de braços que ela pode ocasionar” indagava: “Se felizes circunstâncias têm até agora afastado das nossas raias a empestada atmosfera que derramou idéias contagiosas de liberdade e quimérica igualdade nas cabeças dos africanos das colônias francesas (estaremos nós inteira e eficazmente preservados?)

Também o estadista José Bonifácio pleiteando o fim do tráfico de escravos utilizou o haitianismo como argumento: “Se o mal está feito não o aumentemos, senhores, multiplicando cada vez mais o número de nossos inimigos domésticos, desses vis escravos que nada têm a perder, antes de tudo que esperar de alguma revolução, como a de São Domingos”.

No Brasil, a despeito das inúmeras revoltas e diversas maneiras de lutar pela liberdade e inserção social, os negros não reproduziram o Haiti, mas foram por ele incentivados em suas lutas.

Indagamos face ao que nos evidencia a história: estaríamos diante do embargo de todos os países escravistas da America contra o Haiti?

Então os europeus, diante da possibilidade do insolente povo negro se libertar teriam inviabilizado a estrutura econômica da ilha antes próspera?

Magno Lavigne

UGT – Secretaria da Diversidade Humana



2 responses to “GRANDE HAITI

  1. É muito triste vermos o que o povo haitiano está passando, devemos ser solidários, mas nunca ter pena, porque somente Deus sabe o que faz. Seráq que não estão colhendo os frutos de ser um país que fez pacto com o diabo para se tornar independente, pois todos nós sabemos que seu povo é adorador da macumba e praticante da magia negra o ¨WUDU¨. Acho também que devemos olhar pelos Haitis cravados nas periferias de cada grande cidade brasileira.

  2. Fico sem palavras diante de tamanha besteira escrita por “anjo”, isso sim é um crime, achar que ser da macumba e ser WUDU, tenha ver com o terromoto. esse pensamento é totalmente preconceituoso e racista. é voce anjo rever a sua fala e ler e estudar mais um pouco sobre; as leis da fisica e sobre o o deus que voce fala também faz com a humanidade.

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