“BRASIL NÃO RECONHECE JORGE AMADO”

Reportagem do Terra Magazine, por Cláudio Leal.

A família do escritor Jorge Amado desmente os boatos de que esteja à venda a casa do Rio Vermelho, onde o romancista baiano viveu a partir dos anos 60, em Salvador (BA). “Essa notícia não tem nenhum fundo de verdade. A casa é nossa, cuidamos dela, nunca nos deram um tostão para preservar”, reage Paloma Amado, filha de Jorge e Zélia Gattai. Em conversa com Terra Magazine, ela afirma que não pretende “entrar em polêmica” sobre o assunto, mas rebate uma nota publicada pela revista “IstoÉ”.

Inicialmente, houve a ideia de que a casa se transformasse num memorial ou museu, como relatou a escritora Zélia Gattai no livro “Memorial do Amor” (2004). “Por que não aproveitá-la para um museu?”, sugeriu Jorge Amado. Para escrever suas obras, ele dividia-se entre a casa da rua Alagoinhas, 33, em Salvador, e um apartamento no bairro do Marais, em Paris. “Por que ficaria eu sozinha nessa casa? Por que não manter abertas as portas para os admiradores de Jorge Amado, aqueles que aparecem diariamente, ansiosos de conhecer o ambiente onde o escritor viveu durante tantos anos, inspirou-se e escreveu seus romances?”, cogitou Zélia.

Comprada com os dólares da venda dos direitos autorais de “Gabriela, cravo e canela” à Metro Goldwin Mayer (MGM), a residência baiana era frequentada por artistas e intelectuais – de Vinicius de Moraes e José Saramago ao poeta cubano Nicolás Guillén, Roman Polanski e Jack Nicholson. Agora, ela virou um enigma da cultura brasileira. O destino do acervo de um dos escritores brasileiros mais reconhecidos no exterior permanece incerto, sem apoio do Estado e do empresariado nacional. “Estamos cuidando com recursos próprios”, diz o filho do casal de escritores, João Jorge Amado.

Em 2008, as obras de arte – parte delas guardadas num apartamento no Rio de Janeiro, vendido recentemente – foram a leilão na Soraia Cals Escritório de Arte. Havia quadros e desenhos de Carybé, Carlos Scliar, Djanira, Floriano Teixeira, Segall, Volpi, Anita Malfatti, Flávio de Carvalho, Pancetti, Antonio Bandeira, Diego Rivera e Picasso, entre outros artistas plásticos.

“Brasil não reconhece Jorge Amado”

Apesar de evitar a polêmica sobre o rumo do acervo do pai, Paloma esclarece que batalhou durante três anos por recursos para a conservação da casa do Rio Vermelho e a abertura de um memorial. “Minha mãe era a única contrária ao tombamento”, afirma Paloma, indignada com uma frase atribuída a Zélia Gattai, de que temia a venda de todo o espólio pelos herdeiros. “Tentam difamar a gente por uma coisa que não existe. Se mamãe lesse essa nota que me leram!…”, lamenta. Ela ainda se recorda de um conselho: “Não pense que o fato de ser minha filha vai ajudar. Se tem quem goste, tem quem não goste de mim”.

O tombamento era uma medida recomendável para a captação de recursos estatais, mas a ideia terminou abandonada pela família, depois ter sido submetida ao Conselho Estadual de Cultura da Bahia. Com a venda das obras de arte, iniciaram uma reforma na casa, que conta com gradis do pintor Carybé. As cinzas de Jorge e Zélia foram espargidas embaixo de uma mangueira, no quintal.

Recém-radicada no Rio de Janeiro (“a Bahia sem meus pais é muito triste”), Paloma revela um espanto:

– Onde eu passo, a obra de meu pai é aplaudida. Estive na Universidade do México e houve uma aclamação. Ele foi homenageado pela Feira do Livro de Santo Domingo. Uma coisa bonita. Só não vejo isso no Brasil. Não reconhecem.

A fundação criada pelo pai, no Pelourinho, também enfrentou tormentas financeiras. Em março de 2007, o governo da Bahia cortou o repasse mensal de R$68 mil para a Fundação Casa de Jorge Amado. A entidade preserva cerca de 250 mil documentos do autor de “Cacau”, “Capitães da Areia”, “Gabriela” e “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”. Indignado, o romancista João Ubaldo Ribeiro protestou contra a medida e contribuiu para o recuo do governo baiano:

– Vou esculhambar, vou continuar a bater, e chamar o povo baiano aos brios! Não nasce um Jorge Amado a toda hora! E ficam aí uns beletristas de segunda categoria fazendo críticas aos romances dele. Esquecem que Jorge Amado foi um grande romancista, lido e traduzido em todo o mundo! – criticou Ubaldo.

À época, em entrevista a Terra Magazine, o governador Jaques Wagner (PT) justificou os cortes e garantiu a retomada do financiamento:

– Por determinação da Procuradoria Geral, o Estado não pode financiar em 100% a fundação. No máximo, 80%. São coisas que teria que modificar e quero antecipar: João Ubaldo está falando agora, mas estas modificações já estavam sendo feitas e conversadas com a fundação. Falta acertar detalhes… Ela tem um nível de fundação adequado e o repasse será mantindo – assegurou Wagner.

“Empresários só queriam explorar imagem”

Nos últimos anos, a editora Companhia das Letras tem relançado as obras completas de Jorge Amado, no que talvez seja a única ação pela permanência do “doutor em romance”, como o definiu Mário de Andrade, em comentário sobre “Mar Morto”. Os livros “Capitães da Areia”, “Quincas Berro D’água” e “Os velhos marinheiros” foram adaptados para o cinema e devem estrear até 2011.

Quanto ao memorial, nenhum passo. Paloma Amado cita os exemplos da casa do sociólogo Gilberto Freyre, em Pernambuco, e das três moradias do poeta Pablo Neruda, no Chile, “recuperadas pela Telefonica da Espanha”. No Brasil, indiferença pelo romancista baiano.

– Ninguém se interessou. Os empresários vinham com um contratinho pronto para se tornarem donos do nome de Jorge Amado. Queriam explorar a imagem. Não aceitamos isso – diz a filha.

Último ato. Quando o projeto do memorial ganhou o selo da Lei Rouanet, no tempo em que Gilberto Gil ainda ocupava o Ministério da Cultura, “a Petrobras disse que não dava mais dinheiro”. Segundo Paloma, após os reparos, a casa tem sido cuidada pelo neto do escritor, João Jorge Filho.

Com milhões de leitores e cúmplices de sua obra, Jorge Amado não consegue mobilizar financiadores.



One response to ““BRASIL NÃO RECONHECE JORGE AMADO”

  1. RECONHECER VALORES HUMANOS, SOCIAIS E POLÍTICOS NÃO É DIFÍCIL
    EIS AQUI MAIS UM CASO INTERESSANTE.

    ***********************

    Porque a distribuição dos royalties do pre-sal para 27 Estados da Únião?

    Resposta:
    É um direito de todos Estados Federados em simples equação.

    Vejamos:
    A formação do capital da Petrobras esta alicerçada em recursos públicos financeiros gerados pela sociedade e povo trabalhador contribuintes de 27 Estados e recolhidos aos cofres da Únião desde sua fundação no ano de 1953 pelo gaúcho e presidente da República Getúlio Vargas.

    Diante desse tripé acionário não resta dúvida, que todo resultado do desempenho de produção da Petrobras tenha também igual parâmetro na distribuição dos royalties proporcional a participação de cada um dos 27 Estados federados, por ser um direito de todos que contribuiram na criação e manutenção das atividades da Petrobras.

    Egocentristas do Rio de Janeiro, Espirito Santo e outros choram sem razão quando querem excluir o direito dos demais Estados também donos da Petrobras, como se fossem os únicos titulares do direito, um absurdo.

    A população que festeja essa orquestrada enganação foi manipulada pelo governador e prefeito do Rio em dizer que é só seu ”O Petroleo É Nosso”

    É frontal e inadmissível o desrespeito com toda população brasileira que lutou pela existência da Petrobras como coisa nossa ”’O Petroleo É Nosso”’ sem ”’x”’ do lesa pátria fhc, isso sim foi covardia, que quase se concretizou.

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