TELEANÁLISE: POBREZA ELEITORAL OBRIGATÓRIA

Por Malu Fontes.

Se há um elemento que parece ter se tornado obrigatório a todo e qualquer candidato, a qualquer mandato, é a condição de pobre. Muito pobre. Quanto mais, melhor. Basta uma edição do Horário Eleitoral para que fique claríssimo para o eleitor que a principal virtude de todos esses homens e todas essas mulheres, todos cheios de boas intenções, que lhe pedem o voto não é outra senão a pobreza extrema, vinda não do berço, pois pobre não tem berço, mas de todas as gerações anteriores. Ninguém escapa da síndrome. Seja nos debates, seja nas peças de campanha, ela, a pobreza, está lá, como o principal traço biográfico de candidatos ao governo federal, estadual, ao Senado, à Câmara Federal ou à Assembléia Legislativa. E este é um traço das candidaturas que, em maior ou menor grau, se verifica em todos os estados brasileiros.

O páreo para disputar o trono do vencedor do posto de pobreza máxima é duro. No caso da Bahia, um candidato ao governo do estado diz que sua santa mãezinha só pôde comprar a tão sonhada casa própria, e com muito sacrifício, após os setenta anos. Um candidato ao Senado diz que é filho de retirantes da seca e um terceiro chega ao cúmulo de até pronunciar o próprio nome errado, substituindo o L pelo R, para, assim, reproduzir à perfeição a pobreza e o analfabetismo da mãe, pobre e lavadeira, quando invocava a necessidade do filho estudar para ser gente. Sim, a síndrome da pobreza desejável tem disso, faz com que os pobres de verdade, embora tenham vivido sob essa condição num passado para lá de remoto, quando misturados ao discurso coletivo do elogio vulgarizado da pobreza, também se tornem aparentes canastrões num set de TV.

SEBASTIÃO SALGADO – Já houve um tempo em que o sonho de toda liderança política era erradicar a pobreza, pois parece ser consenso que ser pobre não é coisa lá muito boa ou agradável para ser erigida ao posto de condição de vida invejável. Mas, num passado recente, provavelmente sob inspiração da biografia ímpar do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, ser pobre não só tornou-se algo elogiável como passou a ser o objeto de desejo de toda e qualquer liderança política. O elogio renitente à pobreza não está apenas nos atos de fala dos candidatos a cargos eletivos. Está, sobretudo, na escolha dos elencos populares usados por estes e por todos que já estão no poder, para elaborar peças de TV que mais parecem portfólios animados de Sebastião Salgado.

Quanto mais desdentados e sem capacidade de se expressar, mais bem vindos são os pobres às campanhas no horário eleitoral. Até mesmo homens bem sucedidos e sisudos, há muito adaptados aos corredores das boas universidades paulistanas esquecem a vida atual de conforto e reivindicam ser chamados de Zé e contam com voz embargada que, quando rapazotes, tinham como sonho, acreditem, fazer um curso de mecânico no SENAI (qualquer semelhança com Lula terá sido, obviamente, mera coincidência) ou montar uma quitanda, num tempo em que não havia supermercados. Em que momento a vida desses jovens com tanto talento para a pobreza deu errado e eles ingressaram em uma vida bege burguesa da qual precisam, coitados, se envergonhar? Ah, isso eles não contam, pois em campanha eleitoral tudo o que associar-se a algo que se distancie da pobreza absoluta tornou-se mal visto, um tabu, e deve ser evitado a qualquer custo.

POVO DO GUETO – Um outro candidato ao Senado pela Bahia intenciona levar o eleitor às lágrimas quando diz que, de tão humilde, precisou sair de casa aos 14 anos, para lutar pela sobrevivência. Por lutar pela sobrevivência, depreende-se do próprio discurso do candidato, embora a muito custo, pois detalhes felizes todos querem esconder, nada menos que sair de uma cidade minúscula do interior para ir para outra, mais desenvolvida, para estudar, na casa de parentes. Coisa que, sabe-se, não é para o bico de um menino pobre qualquer.

A síndrome da pobreza está tão entranhada no discurso eleitoral que alguns candidatos parecem desejar automutilar-se por não terem nascido negros. Não são candidatos ao governo da Bahia, mas ao governo do ‘povo do gueto’, povo este, traduzido como os moradores negros do bairro da Liberdade, em Salvador. Cada um tem o Netinho de Paula (aquele do Dia de Princesa na TV) que pode. O fato, no entanto, é que, além do discurso ‘vote em mim que eu seu pobre’ (não se deve estranhar se, nas próximas campanhas, aparecer algum pobre dizendo que, por isso, poderia estar matando, estar roubando, mas, não, está candidatando-se e pedindo votos) já ter cansado de há muito e causar quase que um efeito inverso no eleitor escaldado, todos esses pobretões de estirpe vêem, ano após ano, seu avanço patrimonial decolando em ritmo geométrico.

FIGURANTES – Um aspecto, no entanto, chama mais atenção do que o uso e a exploração das imagens e dos discursos da pobreza por parte de todos os candidatos. A maioria deles vêm de sucessivos mandatos ou, quando mais novos na vida política, pertencem a oligarquias ou grupos que já experimentam ou experimentaram o poder durante anos. E, mesmo assim, esses candidatos não se envergonham de muito pouco, quase nada ou nada terem feito para reduzir o nível de pobreza das populações cujos interesses dizem defender. Não só não se envergonham de contribuir para a manutenção desse estado de coisas que se vê nas ruas, nas páginas, nas telas, como apostam todas as fichas na cegueira coletiva do eleitorado para, usando a miséria, continuar no poder, alimentando-se eleitoralmente desse exército de Brancaleone misturado com o elenco de figurantes de Canudos e de Vidas Secas que exibem todos os signos da pobreza na TV. Diferentemente do que diz o candidato Tiririca, para quem pior não fica, tanto fica que é para isso que muita gente se traveste de pobre para pedir votos.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado originalmente em 29 de agosto de 2010, no jornal A Tarde, Salvador/BA; [email protected]



2 responses to “TELEANÁLISE: POBREZA ELEITORAL OBRIGATÓRIA

  1. Tem razão Malu, esta esperteza dos políticos em mostrarem as suas raízes pobres – somente no período eleitoral – tem um único motivo: tornarem-se simpáticos à classe dos menos favorecidos, pois na verdade, são eles, maioria absoluta no País; portanto um manancial imenso de eleitores! Além disso, representam a classe menos informada e instruída; condições perfeitas para a formação desta “Incredible Armata Brancaleone”, um exercito com votos para eleger qualquer candidato.

  2. Infelizmente não é de hoje que a política virou uma profissão.

    Aliás, quando ela não foi no Brasil?

    Quando tivemos uma classe de pessoas comprometidas com mudanças efetivas na sociedade?

    Acho que isso não é nem questão de ideologia política, porque essas já estão falidas há bastante tempo.

    Falta na gente consciência crítica e seriedade.

    Quando a gente vai parar de votar naquele primo que está se candidatando, porque se ele ganhar, pode beneficiar a gente?

    Quando a gente vai descobrir que política não é brincadeira e que o Estado não é extensão da família, portanto não deve ser usado em benefício próprio?

    Quando?

    E quem fala mal dos corruptos que estão no poder também são corruptos, e para mostrar isso, só falta uma oportunidade.

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