TELEANÁLISE: UM PAÍS COM MEDO

Por Malu Fontes.

Ancorados em uma ampla pesquisa do IBGE, os telejornais da semana apresentaram aos telespectadores um diagnóstico assustador: o sentimento de medo é uma pandemia nas cidades brasileiras. Quase metade da população com idade superior a de 10 anos, 47,2%, o equivalente a cerca de 77 milhões de pessoas, admite sentir medo de andar nas ruas, nos bairros e nas cidades onde moram. A própria casa é o lugar onde os brasileiros dizem sentir-se mais seguros, sendo que, para experimentar a segurança doméstica 78% da população usa algum mecanismo de segurança e proteção, que vai desde cadeados, grades, muros altos, redes elétricas, cães de guarda, até os mais sofisticados sistemas eletrônicos.

O tamanho do medo causado pela violência urbana brasileira nos indivíduos de todas as idades é uma boa medida do quanto as boas estatísticas governamentais, comemoradas em falas políticas e frequentemente transformadas em manchetes da mídia impressa, on line e televisiva, não se revertem em sensação de bem estar social dos brasileiros em suas rotinas cotidianas. Uma demonstração de que enquanto as estatísticas oficiais dizem uma coisa e a população sente outra é o fato de que, em algumas das cidades onde o grau de medo individual declarado é bastante alto, por exemplo, as estatísticas oficiais dos registros de violência indicam quedas bastante significativas, e verdadeiras, dos índices de criminalidade. Este é o caso do Rio e São Paulo, por exemplo, onde os índices de homicídios foram drasticamente reduzidos nos dois últimos anos, enquanto a sensação de medo cresceu. Como bem insistem em enfatizar os especialistas em segurança pública, a redução da criminalidade não é sinônimo de sensação de segurança experimentada pela sociedade.

Esta é a primeira pesquisa do IBGE especificamente sobre a vitimização da população brasileira diante da violência por roubo, assalto e agressão física. O estudo avaliou ainda como os cidadãos, face à violência que sofrem, sentem-se diante das instituições públicas que deveriam protegê-los, como a Polícia e a Justiça. Também nesse quesito os números não poderiam ser piores. A maioria das vítimas da violência acaba não registrando sequer uma queixa policial, fazendo um boletim de ocorrência. As razões para o não registro do crime são de causar vergonha a quem se quer civilizado: falta de confiança na Polícia, medo de vingança do agressor e descrença na Justiça.

RIBANCEIRA – Para a construção destes dados, vários elementos interferem, desde o ato de violência concreto vivido pelo entrevistado, ao imaginário associado a partir do consumo de informações dos meios de comunicação. Quando a questão é a sensação de medo, cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo levam desvantagem, diante do nível e grau de publicização dados pelas emissoras de TV, por exemplo, aos confrontos entre a marginalidade e a Polícia, o que nem sempre significa alto índice de violência sofrida pela média dos cidadãos comuns. Neste aspecto, ou seja, na midiatização da violência, enquanto o senso comum pensa no Rio e em São Paulo como cidades epicentros de violência, há muito as duas maiores cidades brasileiras vêm reduzindo significativamente seus índices de homicídio, em termos per captos e absolutos, tendo sido ultrapassadas, há muito tempo, por outras capitais cujo cenário de violência real está longe de ser narrado em cores reais na imprensa brasileira. Em termos de homicídios, é bom que se diga que Salvador, Maceió, Recife, Belém e Vitória são muito mais violentas que São Paulo e Rio.

O índice de Salvador, hoje, segundo o Ministério da Saúde, é de 57,2 mortes por homicídio para cada cem mil habitantes. Esse índice eleva a terceira capital do país ao nada honroso posto de quarta capital mais violenta do Brasil, ficando atrás apenas de Maceió, a líder em homicídios (101,6 por 100 mil hab), Recife (61,2) e Vitória, com 58,9/100mil habitantes. Em entrevista à Band esta semana, o ex-secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente, afirmou que em um mesmo período em que o número absoluto de homicídios em Salvador cresceu 90%, em São Paulo, com uma população quase quatro vezes maior, caiu 39%. Em número de mortos, em 2009, por exemplo, Salvador registrou 2.200 homicídios e São Paulo, 1.200. Se comparadas as populações das duas cidades, Salvador está muito mal na fita, fato agravado, simbolicamente, ainda mais pela pouca ou nenhuma boa vontade da Secretaria de Segurança Pública em disponibilizar os dados reais da violência na capital e no Estado, o que sempre dá uma ideia de que a tônica é esconder da opinião pública a extensão real da ribanceira.

SONOLENTA E LERDA – A quase totalidade de dados sobre a criminalidade em Salvador, hoje é obtida ou por esforço próprio dos veículos de comunicação, que muitas vezes destacam alguns de seus jornalistas para, durante meses, ficar fazendo uma espécie de auditoria das mortes, buscando-as na própria imprensa e até nos registros de sepultamento, ou graças a levantamentos feitos por órgãos públicos nacionais. Se há algo com o que o secretário César Nunes parece não levar o menor jeito é para a transparência de índices de criminalidade diante da imprensa. Como se fosse pouco, a Bahia apresenta um dos mais baixos níveis de investimento per capto em segurança pública/policiamento e debruça-se sonolenta e lerda sobre milhares de inquéritos que levam a apuração de crimes para lugar nenhum, ou seja, para o não esclarecimento e consequentemente a impunidade. Mas como é verão, o Carnaval já está na esquina e a Bahia precisa estar bem na fita para ser vendida, quem se importa com a violência, senão a população, trancada dentro de casa, com suas barreirinhas de proteção, compradas a crédito, contribuindo para o crescimento da economia?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA



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