UMA DECLARAÇÃO DE AMOR DE JORGE AMADO À CIDADE DE SÃO JORGE DOS ILHÉUS

Por Gustavo Felicíssimo

Tenho muitos motivos para dizer que adoro a cidade de Ilhéus, terra onde trabalho e estudo, onde reside a maioria dos meus bons amigos e pela qual sou encantado desde que a visitei pela primeira vez, no já distante ano de 1995. Terra que viu nascer o meu primeiro livro, Silêncios, terra onde pretendo criar minha filha e viver até o último dos meus dias.

Por habitar tão fortemente o meu cotidiano e imaginário, acabei por escrever diversos poemas ambientados e motivados por circunstâncias vividas em Ilhéus, afinal, todo escritor é um pouco (ou muito) o reflexo do meio em que se encontra. Alguns deles eu gostaria de publicar aqui, hoje, no dia do seu aniversário, mas vejo meu intento inibido por uma descoberta recente, um texto de Jorge Amado, publicado na revista Exu, de Salvador, e dito pelo próprio escritor em praça pública, quando das comemorações do centenário da cidade.

O texto, ao qual fiz pequenas adequações ortográficas, é, sem dúvida, conhecido por algumas pessoas, mas não pela maioria da população ilheense. Por sua poesia e riqueza, beleza e nuances, algumas até que podem suscitar debate, é que entendo que ele merece e precisa ser lido por mais e mais pessoas.

Declaração de amor à cidade de São Jorge de Ilhéus

Jorge Amado

Cidade do meu amor, Rainha do Sul, reduto de índios, capitania, porta do cacau aberta ao mundo, porta de entrada ao universo grapiúna, São Jorge dos Ilhéus; pioneira, mãe de cidades, vilas, povoados, eu te saúdo em nome de tuas irmãs mais moças – Itabuna, Itajuípe, Belmonte, Uruçuca, Canavieiras, Ubaitaba, Caravelas, Una, Coaraci – em nome de todo o território e de todo o povo grapiúna, em tua data gloriosa, na festa de teu centenário.

Ditaste a lei e comandaste os homens na saga do cacau – sobre o sangue derramado construíste riqueza e civilização. Venho te ofertar meu amor de toda a vida, desde que cheguei infante à fímbria de teu mar, às praias do Pontal, vindo das terras ricas de Itabuna, das roças recém-plantadas, de Ferradas onde fui parido. Me acalentaste em teu seio pujante, de tua seiva me alimentei de destemor, de malícia e graça, de paixão pela aventura. Me ensinaste o acontecimento e a poesia, me deste a medida da vida e da morte, me deste a chave da adivinha, a que abre as portas da realidade e da magia.

Me fizeste homem e escritor, te devo a decisão, o conhecimento e o ofício, para que um dia eu viesse te reescrever, povoar tuas ruas, e arauto de tua grandeza, levasse teu nome ao longínquo e ao recôndito, aos confins.

Neste teu dia de proclamação e reconhecimento, quero saudar a todos e a cada um; saudar os coronéis, os que aceitaram o desafio e assumiram a luta, vararam a selva, derrubaram a mata virgem e plantaram as roças: coronel Manuel Misael da Silva Tavares, começou tropeiro tangendo burros, terminou rei do cacau; coronel Pedro Catalão, parecia um europeu de tão civilizado; coronel Basílio de Oliveira e Sinhô Badaró, os invencíveis guerreiros; coronel Antônio Pessoa e sua intendência; coronel Ramiro Ildefonso de Araújo Castro em seu palacete; coronel José Ninck, negro e destemido; coronel João Amado de Faria, meu pai; o coronel Aguiar com quem ele conversava em frente à nossa casa é o pai de Adonias Filho; saudar Brasilino José dos Santos, meu compadre Brás, a cara marcada da bexiga, o riso aberto no rosto de caboclo; ele traçou os caminhos, violou a floresta, plantou os alicerces de Pirangi, fundador da cidade.

Saudar os principais responsáveis por tua grandeza: os alugados e os jagunços, vindos do sertão e de Sergipe, os que adubaram a terra com seu sangue generosos e a prepararam para o plantio e a colheita do cacau; saudar os que lutaram pelo progresso, por teu novo porto substituindo a pequena enseada de perigos e naufrágios – teu porto por onde saem para os quatro cantos do mundo as amêndoas do cacau, tua cor, teu sabor e teu perfume. Saudar João Mangabeira, recém formado bacharel em Direito, menino de dezenove anos, desembarcando em Ilhéus para aprender e ensinar – plantou a cultura em meio aos cacauais.

Quero rever as meninas em flor, as namoradas na janela e no portão, quero reencontrar as raparigas dos cabarés e dos castelos, românticas e puras; quero jogar dados no bar do cais com os ingleses da Estrada de Ferro, brindar por teu futuro – com eles aprendemos o valor e o gosto da bebida; quero sentar novamente ao lado dos jogadores de pôquer, num quarto do Hotel Coelho, dos profissionais vindos para o novo eldorado ganhar o dinheiro fácil dos coronéis do cacau com a trinca Itabuna e um renque de blefes – meu tio Álvaro Amado, coronel do cacau, exibia o jogo, recolhia as fichas, sorria modesto: “mal sei distinguir o valor das cartas”.

Quero ouvir a voz erudita de João Evangelista de Oliveira, discutindo gramática e romances franceses; ler o artigo castiço de Nelson Schaun; a página exemplar de mestre Epaminondas Berbert de Castro; o verso de Fernando (Joaquim Pereira) Caldas*; escutar o riso de Helvécio Marques – eles empunharam a cultura como uma arma, tão importante quanto o rifle e o clavinote. Quero andar outra vez no Ford-de-bigodes de Demostinho, varar a estrada de lama e buracos para penetrar nas festas de Itabuna, namorar em Água Branca e em Banco da Vitória – Demosthenes Berbert de Castro, o patriota por excelência, o herói da construção do porto, o infatigável cidadão.

Quero abraçar Raimundo Sá Barreto, a imbatível lealdade a serviço de tua tradição e de teu progresso, quero perambular vagabundo pelas ruas, com o poeta Sosígenes Costa, vindo dos mares de Belmonte para ser teu predileto, aquele que te engrandeceu e nos deu o dom maior da poesia eterna. Quero ir buscar Otávio Moura na redação do jornal para partirmos ao encontro das mulheres mais famosas nos becos mais esconsos. Quero assistir o navio sueco vencer a barra estreita e ameaçadora e ancorar na manhã de minha infância, trazendo o sonho das virgens, a sedução da falsa loira de Estocolmo.

Quero brindar em tua honra com os ficcionistas grapiúnas, os que narram tuas histórias e inventam tua humanidade, conservam viva tua memória: Adonias Filho, James Amado, Jorge Medauar, Hélio Pólvora, Sônia Coutinho, Emo Duarte, Elvira Foepel, Cyro de Mattos, Marcos Santarita, Clodomir Xavier de Oliveira, meus irmãos de ofício e de labuta. Quero te saudar com os poemas mais belos de Telmo Padilha e Florisvaldo Mattos.

Quero improvisar uma canção, pronunciar um discurso, conceber um verso que seja igual à aurora, tenha a beleza única das roças de cacau, dos frutos sazonados, para dizer de tua face múltipla, rural e marítima, bravia e terna, de tua altivez atlântica, de tua graça cativante, de tua juventude centenária, de tua grandeza, cidade ilustre e fundamental, chão de valentes.

Sou teu filho, cresci em tuas ruas, contigo aprendi a liberdade e o futuro, a luta contra a opressão e a miséria, contigo aprendi o amor – minha cidade de Ilhéus, minha pátria bem-amada!

* Primeiro poeta grapiúna a publicar um livro de poesia.

Gustavo Felicíssimo é Escritor e edita o blog Sopa de Poesia: www.sopadepoesia.blogspot.com.



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