HISTÓRICO AFETUOSO DA CASA DE CULTURA JORGE AMADO

Por Alderacy Pereira da Silva

Abertura da Casa de Cultura Jorge Amado, com a presença de Zélia Gattai e Jorge (há 15 anos).

Antecedentes do Museu Casa de Cultura Jorge Amado – O pai do escritor, coronel João Amado construiu, com 500 contos provenientes do prêmio da Loteria Federal, o palacete de 582m2 em Ilhéus, Bahia, e o inaugurou em 1926. Identificamos vários traços do estilo arquitetônico próprios das construções desse período nessa residência, destacando que é um dos mais bonitos patrimônios culturais da região grapiúna e um dos cartões postais do Brasil mais visitados. A família Amado residiu nesse lindo palacete até 1937. Depois de vendida, a casa pertenceu a um clube, por mais de catorze anos foi sede da Faculdade de Direito de Ilhéus e depois foi Secretaria da Fazenda do Estado. Em 1988, essa casa foi doada ao Município, pelo Estado, através da Lei 4.798, de 18 de agosto de 1988; e o prefeito decretou tombamento municipal da mesma (Decreto 026/93). Através da parceria firmada entre Prefeitura Municipal de Ilhéus e Petrobrás, foi possível revitalizar essa casa e entregar-lhe à comunidade ilheense como Casa de Cultura Jorge Amado, sendo-o entendida como museu vivo, dinâmico, para divulgação e estudo da obra de Jorge Amado e de outros escritores regionais, e ainda administraria programas de integração com a comunidade.

O nome de Jorge continua vendendo em Ilhéus.

Celebrando os 15 anos de história e funcionamento da Casa Jorge Amado como espaço cultural – Muitas vezes a palavra “cultura” é omitida quando nos referimos a esse local, certamente por ser óbvio a inter-relação já estabelecida. Reconhecendo o valor inigualável da força da escrita e da divulgação que a cidade alcançou por meio de Jorge Amado, por justiça, a Câmara Municipal de Ilhéus concedeu-lhe o título de cidadão ilheense; e em se tratando, em especial do palacete localizado na atual Rua Jorge Amado, 21, encontra-se inventariado na Lei de criação e delimitação do Centro Histórico de Ilhéus e na Lei de Tombamento de bens situados no município de Ilhéus (1989), que compreende o Quarteirão Jorge Amado, é um dos poucos bens tombados pela Prefeitura Municipal de Ilhéus; e foi reaberta no dia 27 de junho de 1997, com a presença do cidadão mais ilustre de Ilhéus, família Amado, intelectuais e autoridades, como Casa de Cultura Jorge Amado.

Depoimento do imortal, polivalente “menino grapiúna” e autor do romance “O país do carnaval”: “Esta Casa faz parte da paisagem de Ilhéus. É um sonho de filhos de Ilhéus, a quem, agora, é devolvida. Construída por meus pais, com intenção de deixar um patrimônio aos filhos, esta casa, com o passar do tempo, gerou e testemunhou acontecimentos que se integraram à realidade. Transformou-se, assim, em símbolo de Ilhéus. Não é a casa, apenas, é aquela casa, a casa onde as coisas puderam acontecer, onde foi possível que coisas acontecessem.”

Ilustração de Floriano Teixeira refente à infância de Jorge Amado. Foi utilizada nas primeiras edições do livro “O Menino Grapiúna”.

Maurício Pinheiro, em Concepção de uma ideia (In: Revista I, no. 93, junho, julho e agosto de 1997. Edição Especial) registrou: “Está sendo inaugurado a Casa de Cultura Jorge Amado, um conceito vivo e vibrante pessoal a todos os templos de cultura que não desejam nascer mortos. Distante da ideia mofada que os museus causam em nossa gente, a Casa de Cultura destina-se, antes de tudo a servir como espelho de nós mesmos. Lá encontraremos o próprio Jorge apresentando a casa e a cidade onde viveu, além de filmes de arte, eventuais saraus e palestras. A história do escritor e sua trajetória serão contadas no salão de Documentos Históricos, abrigando ainda, relíquias da família Amado.”
Nestes últimos 15 anos, a Casa Jorge Amado contou com gestoras extraordinárias, dentre elas, Carla Mendes, Lindaura Kruschewsky e Eugênia Célia Siqueira. Só conheço as duas últimas, mas pelos registros oficiais e notícias em jornais da região, posso testemunhar que elas, de fato, integram ao grupo de “mulheres de Jorge”. Foram cada uma em seu tempo, responsáveis pela qualidade de atendimento, boas instalações e parceria com os artistas e comunidade em geral. Nas palavras do crítico literário e ex-presidente da Fundação Cultural de Ilhéus (FUNDACI), “A Casa de Cultura Jorge Amado firmou-se como um dos maiores monumentos culturais e artísticos de Ilhéus”. Atualmente, integra-se ao Sistema de Museus, o que lhe confere um status mais apropriado e deve, se bem entendida essa definição, somar nas honrarias em especial, no centenário de nascimento do escritor baiano universal, que nunca esqueceu a influência da sua cidade de coração, testemunho isso em Declaração de Amor à Cidade de São Jorge de Ilhéus (centenário – junho de 1981) e em outro discurso afirmou: “Quero dizer que em nenhum momento desses acontecimentos que me tornaram conhecido deixei de me lembrar que foi aqui onde tudo começou. Foi em Ilhéus, na praça do Vesúvio. Não foi em outro lugar.”

A crítica e as sugestões – No contexto do centenário de nascimento do escritor, a relevância da arquitetura do palacete amado e a intenção de levantar o turismo local, aproveito a oportunidade para tecer simples sugestões, que com boa vontade e profissionalismo, podem ser implantadas: 1. Nomeação da diretora da Casa de Cultura Jorge Amado não seja um cargo meramente político partidário, mas que leve em conta no mínimo dois quesitos, já atendido pelas três anteriores, conheçam a obra e vida de Jorge Amado, e tenham noções de gestão de espaço cultural; 2. Criação de um belo e completo folder para ser entregue aos visitantes desse Museu, o que agregará valor a excursão; 3. Criação de uma atividade educativa que valorize as obras de Jorge Amado, inclusive estabelecer um espaço para leitura dos livros na própria casa; 4. Antes de propor um projeto de revitalização, a Casa necessita de uma arrumação, porque do jeito que ela se configura nos dias atuais, os visitantes não podem perceber a riqueza do palacete e dos bens – eles estão amontoados; 5. Criar um prêmio para elaboração de um livro que venha a resgatar a história, atuação e os bens da Casa de Cultura Jorge Amado; 6. Adequar o espaço para inclusão de pessoas especiais; 7. Contratação de profissionais que fale inglês e francês, pelo menos, inclusive para gestor da Casa; 8. Investir em acessibilidade da casa, para atender as novas demandas museológicas; 9. Dentro do centenário, seria muito importante buscar os tombamentos estadual e federal desta Casa, buscando fixar a imortalidade do autor e preservar a imagem deste lindo e cultural patrimônio ilheense, passando a ser encarado como patrimônios estadual e federal.

Família Amado, provavelmente no palacete situado na atual Rua Jorge Amado.

Onde está Jorge Amado? Se comecei falando que a Casa de Jorge Amado é sinônimo de cultura, finalizo indagando que tipo de cultura ela expõe? Agregar valor cultural é extremamente fácil, desde que o gestor a possua. Caso contrário, estamos alimentando preconceito em função do nosso famoso “jeitinho brasileiro”. Acredito que o cidadão ilheense precisa valorizar mais e mais o patrimônio cultural e valorizar o conhecimento como forma de ascensão profissional. O curso de Letras da UESC possui disciplina inédita que estuda a literatura da região do cacau, promove estudos e publica-os através do selo editorial Editus – Editora da UESC, ampliando a bibliografia e enriquecendo o valor cultural da Bahia. Assim sendo, nada mais do que o esperado que os estudantes desta Universidade tenham mais uma grande oportunidade para mostrar os ensinamentos e compartilhar com todos nós. A mestra em Cultura e Turismo, que estudou o Quarteirão Jorge Amado, Juliana Menezes destacou em sua dissertação um ponto merecedor de atenção: “A Casa de Jorge Amado é um dos poucos monumentos que recebe algum tipo de interpretação, mas a sua utilização ainda pode enriquecida com técnicas de interpretações que enfoquem também os romances do escritor, não só a sua vida. Poderiam ser apresentado pequenas cenas de um de seus livros.” (MENEZES, Juliana Santos. Da literatura ao turismo: o caso do Quarteirão Jorge Amado. Ilhéus(BA):UESC/UFBA, 2004, p.92)

Alderacy Pereira da Silva Júnior é jornalista e professor, visitante da Casa Jorge Amado de Ilhéus desde 2000, apaixonado pela literatura jorgeamadiana. Possui artigos publicados no Blog Eu Vejo Arte, no Jornal da UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz) e demais órgãos da imprensa grapiúna. Em Minas Gerais, nas cidades de Ouro Preto e Mariana teve atuação jornalística em destaque como assessor de imprensa e revisor de texto – jornais e revistas. Contato: [email protected]



6 responses to “HISTÓRICO AFETUOSO DA CASA DE CULTURA JORGE AMADO

  1. quem for na Casa de Cultura Jorge Amado. vá a parte de baixo, onde fica um bebedouro olhe para o chão e verá uma frase assim: CAJAM. Centro Acadêmico João Mangabeira. nome do Centro Acadêmico do curso de Direito da UESC. segundo fontes ali funcionou a antiga Faculdade de Direito de Ilhéus.um patrimônio histórico. dá próxima vez vou bater uma foto do chão.

  2. Meus parabéns ao Jornalista e Professor Alderacy. Nesta matéria Alderacy mostrou seu conhecimento, sua capacidade e toda sua sensibilidade. Ilhéus está de papabéns por ter um filho assim.
    Que Dera (como gosto de falar) seja reconhecido e possa fazer um grande trabalho pela população e pelo município. Que como professor êle deixe sua marca, pois educação é a arte de criar, de pensar, é a base de um país evoluído. E infelizmente a educação em nosso país está em baixa. Temos de ter mais carinho e valorizar êste profissional responsável pelo futuro da nossa nação.

  3. Como sempre, o texto bem tecido, emaranhado no rigor também da audácia. Adorei as sugestões. Quanto muitos dizem que está tudo bom, Alderacy diz no que podemos melhorar. Se depender exclusivamente da vontade política, não melhora. Precisamos da vontade de quem ama verdadeiramente a justiça, a verdade, o bem e o belo.

  4. Estou de viagem marcada para Salvador no final do mes e gostaria de conhecer a casa de Jorge Amado no Rio Vermelho. Poderiam fornecer dias e horários de visitação. Grato

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