O VEREADOR WALDIR PIRES

Por Joaci Góes

É improvável que surja, ao longo das eleições municipais do ano corrente, em todo o país, algum fato capaz de rivalizar com o interesse popular despertado pela candidatura de Waldir Pires a vereador de Salvador. A novidade consiste na surpreendente disposição de alguém, no apogeu da maturidade, com um dos mais ricos currículos, construído a partir da segunda metade do último século, concorrer a um posto normalmente encarado como marco inicial da carreira política.

É natural e previsível, portanto, que a instigante decisão de Waldir Pires continue a ser objeto, em lares e bares, de inúmeras suposições que buscam desvendar a motivação básica que lastreia sua heterodoxa e até certo ponto inédita iniciativa, em nossa história, na medida em que não se conhece precedente de alguém com o seu peso que haja se habilitado a posto tão modesto, comparativamente às dimensões do seu prestigioso nome. Otávio Mangabeira, o mais ilustre dos edis soteropolitanos, chegou à vereança aos 26 anos, não valendo como precedente.

É verdade que, em várias capitais do Brasil, políticos de peso como César Maia, no Rio, Arthur Virgílio, em Manaus, e Felix Mendonça, em Salvador, anunciam a disposição de concorrer à edilidade. Nenhum deles, porém, exerceu tantos cargos como os que conferem a Waldir Pires tão marcante singularidade biográfica na vida política nacional, inclusive uma acirrada disputa pela indicação do seu nome como candidato a presidente da República.

É verdade, também, que a Câmara de Salvador é revestida do prestígio de ser a mais antiga das casas parlamentares do Brasil, não sendo difícil prever o quanto a presença ali de Waldir Pires poderá contribuir para a elevação de sua credibilidade. Não são poucos entre os mais qualificados observadores da cena política brasileira os que pensam que Waldir teria sido eleito se tivesse concorrido, em lugar de Ulysses Guimarães, nas eleições de 1989.

Descartem-se, de plano, algumas especulações. Necessidade financeira não é. Dono de uma das mais longas carreiras políticas, Waldir, certamente, conta com a renda de uma aposentadoria que atende plenamente as exigências da vida modesta de que nunca se afastou, nem mesmo quando exerceu elevadas funções na vida pública, de que é prova o padrão espartano que adotou em sua passagem pelo governo da Bahia. A busca de notoriedade, tampouco. Aclamado por onde passe, chovem convites, de toda parte, para proferir palestras e receber homenagens.

O mais provável é que Waldir Pires se enquadre no categórico imperativo kantiano segundo o qual “o homem jamais se libertará da paixão política ou religiosa”. No seu caso, por formação pessoal, autoelaborada, desde a mais tenra juventude, a política corre em suas veias, é da essência do seu ser. Um verdadeiro Karma.

É verdade que, pela tradição dos povos, o Senado seja o abrigo derradeiro dos que acumularam experiência e sabedoria, a serviço da comunidade. Em três diferentes momentos, porém, esse merecido prêmio lhe foi negado. No primeiro, em 1982, o perverso sistema eleitoral da vinculação dos votos, concebido pela ditadura para assegurar maioria no Congresso, impediu sua eleição, como a de Roberto Santos, para governador.

No segundo, em 2002, sua eleição foi roubada, a bico de pena, pelo guante das forças malvadas que dominavam o estado. Na terceira e mais recente ocasião, em 2010, o seu partido, o PT, o preteriu, em favor de políticos mais jovens, deixando inconformada a grande legião dos seus seguidores.

A pregação da política com P maiúsculo é a marca que torna o fascinante e oracular discurso de Waldir Pires o mais aplaudido do Brasil. Há quem sustente, por isso, que se parlamentarista fosse o nosso sistema, ninguém rivalizaria com ele no exercício da presidência da República.

Se essas premissas forem verdadeiras, não será Waldir que estará sendo julgado nas próximas eleições municipais. Será a maturidade política do povo de Salvador que estará se habilitando ao julgamento pela história. Será um episódio único de identidade entre qualidade e quantidade, a ser aferida pelo número de sufrágios que receber.

Texto publicado originalmente na coluna Ponto de Vista, do jornal Tribuna da Bahia, na edição desta quinta-feira, 08.



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