NÃO SE ENTREGUE AO PÓ DE ARROZ, CRISTÓVÃO!

Cristóvão Borges, técnico do Bahia.
Cristóvão Borges, técnico do Bahia.

Por Thiago Dias

Notícias dessa tarde (29): Abel Braga, técnico do Fluminense, foi demitido; Cristóvão Borges, do Bahia, é especulado para ocupar a vaga. Há mais do que futebol no jogo dos significados que essas notícias suscitam.

Cristóvão Borges é negro e lançou-se como técnico no Vasco. O clube carioca tem em sua história o grande mérito de acolher, abertamente, jogadores negros no seu elenco. Foi um posicionamento político de inclusão.

A torcida do Fluminense tem o pó de arroz como seu símbolo. O motivo histórico às vezes é tratado como curiosidade excêntrica, mas foi um episódio racista. O negro Carlos Alberto se pintou de branco para jogar pelo clube de Laranjeiras, mas a farsa se desfez com o suor do jogador. A massa racista que acompanhava o espetáculo riu e gritou: “pó de arroz, pó de arroz“.

No Brasil, o jogador de futebol negro garantiu seu espaço. No entanto, isso ainda não foi alcançado pelos treinadores. O cargo de técnico pressupõe exercício de poder. O racismo velado brasileiro resiste à presença de negros no comando. A revista Placar deu uma de suas capas recentes ao tema (racismo no futebol brasileiro). A edição traz uma entrevista contundente do técnico Lula Pereira. Ele já ouviu a seguinte explicação de empresários: “o pessoal do clube gostou do seu perfil, mas, me desculpe, você é preto”.

Quando Andrade se sagrou como o primeiro técnico negro campeão brasileiro, no comando do Flamengo, em 2009, ele tinha assumido o cargo como interino. Sete meses depois foi demitido, com o alto desempenho de 70% dos pontos conquistados.

Atualmente, Andrade e Lula Pereira estão desempregados e Cristóvão Borges é o único técnico negro nas séries A e B do Brasileirão.

É muito significativo que Cristóvão Borges tenha despontado como treinador no Vasco, ainda que pelo acaso infeliz de Ricardo Gomes. O sentido aumenta com o seu sucesso recente no Bahia – o time mais popular da cidade mais negra fora do continente africano.

Cristóvão vive ótima fase no Bahia. Ele é responsável direto pela evolução do time, o racismo não consegue esconder isso. O clube baiano passa por um momento de transformações estruturais (com a intervenção pública). A permanência do treinador ajudará a reestruturação organizacional, mantendo o bom desempenho em campo.

O Fluminense, certamente, terá uma proposta salarial tentadora, se for verdadeira sua intenção de contratá-lo. Mas o Bahia precisa de você, Cristóvão, não se entregue ao pó de arroz! 



4 responses to “NÃO SE ENTREGUE AO PÓ DE ARROZ, CRISTÓVÃO!

  1. Gostaria de informar, ao Sr. Thiago que ele está enganado em relação ao assunto sobre racismo no Fluminense, prova disto é só ver o atual elenco tricolor, e o passado o clube era comandado por pessoas insensatas em um período que a escravidão ainda existia e que o tempo e as lutas em proo da liberdade foram vencidas e não precisamos fazer comparações quando se trata da historia negativa.Quanto ao Cristovão é um excelente profissional, e saberá trilhar sua vida profissional seja qual for o clube que ele decidir dirigi-lo.
    Grato.

  2. Borá Baheaaa, minha porra. Na verdade faz muito tempo que os dois principais times do estado da Bahia não se viam tão bem como esse ano, a volta do futebol Baiano a elite devolve a mística do BÁ-VI. Bom tesxto Lilera.

  3. Concordo com o senhor, Reginaldo. O elenco do Fluminense tem jogadores negros, como praticamente todos os elencos brasileiros. Mas eu quis alertar para os sentidos que estavam encobertos nessas notícias. O racismo, infelizmente, persiste no Brasil. O fato de não haver espaço para técnicos negros nos clubes brasileiros é um aspecto do problema nacional.
    Penso também que, o senhor está enganado ao afirmar que “as lutas em prol da liberdade foram vencidas e não precisamos fazer comparações quando se trata da história negativa”.
    O senhor está enganado porque as lutas pelas liberdades (negra, gay, religiosa e dos povos nativos) ainda não foram vencidas.Mas o senhor está enganado, principalmente, por pensar que a “história negativa” não deve ser lembrada para fazer comparações. Não existe razão mais valiosa na história que seu poder de iluminar o presente. E isso vale ainda mais quando refletimos sobre os erros do passado para não repeti-los agora.
    Ademais, o pó de arroz foi um episódio da história do Fluminense, evocado aqui pelo sentido que ele poderia desencobrir. Também considero o Cristóvão um excelente treinador e concordo que ele saberá trilhar sua carreira em qualquer clube.
    Por fim,agradeço a atenção que você dedicou à leitura do texto. Agradeço mais ainda sua disposição ao comentário, fundamental para que o sentido do próprio texto vigore.

  4. Tiago, meu nobre, texto muito bem elaborado. Essa é a realidade no futebol brasileiro. Temos técnicos negros, campeões, mas que não são valorizados. Enquanto os treinadores brancos, principalmente os sulistas, ganham fortunas.
    O jornal Correio fez uma série muito interessante sobre esse assunto chamada “Me Desculpe, você é preto.” Se ainda não leu, dê uma olhadinha que com certeza vai enriquecer ainda mais seus conceitos.

    Parabéns e sucesso.

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