VOLTA À UTI

Por Israel Nunes

israel nunes

Na minha convalescença, o horizonte não parece translúcido. Delírio ou encefalopatia, às vezes penso que devo voltar ao leito do doente e erguer-me um pouco mais tarde, para ver o que vai ocorrer depois que a banda passar.

Pode ser um delírio de convalescença. Ou só mais uma progressão da doença hepática crônica, a encefalopatia. 

Para mirar um pouco o mundo exterior, num intervalo entre hemorragias digestivas (sabe-se lá quando será a próxima, ou a última) abro os blogs regionais e alguns sites de notícias.

Houve, parece-me, nesses dias em que atravessava as noites na UTI e colocava para fora algum tanto de sangue, um recrudescimento do discurso da ordem no Brasil.

Renan Calheiros, Presidente do Congresso Nacional, pretende enquadrar os “Black Blocks” como terroristas, depois da morte do cinegrafista. A mídia parece ter gostado da ideia.

Logo enquadrarão os “rolezinhos” como atentados também. “Por que não?”, alguns se perguntam.

O fundo de explicação sociológica, econômica, cultural, antropológica, científica mesmo, é abandonado. Não se questiona, em nenhum momento, por eventuais causas desses movimentos sociais, sejam eles em sua faceta mais violenta, como os “Black blocks”, seja em seu rosto mais irreverente, juvenil e desafiador, como os “rolezinhos”.

A explicação predominante é a de que se tratam de vândalos, bagunceiros, criminosos e, por fim, terroristas. E o fazem por puro instinto maléfico. A solução: cadeia.

Sem querer reproduzir um discurso classista, quando algum jovem da classe média alta brasileira aparece na mídia ateando fogo em mendigos, dirigindo embriagado e atropelando inocentes, fumando um “baseadinho” ou envolvido em uma briguinha de boate, a explicação mais comum é a de que fez uma bobagem, uma imaturidade, uma besteira na juventude, um delito culposo, uma brincadeira de mau gosto, enfim. A solução: afastá-lo das “más companhias” e uma reprimenda paterna.

Inevitavelmente, o discurso da ordem está a serviço de quem pode emiti-lo, daqueles que estão “autorizados” a falar, nas palavras de Foucault (A Ordem do discurso). E ele opera no plano prático e no simbólico.

No plano prático, movimenta os aparelhos repressores do Estado a agirem contra aqueles a quem está dirigido. Cria novas ilicitudes, agrava as já existentes, produz detenções, encarceramento e autoriza o uso da força militar e eventual violência.

No plano simbólico, o discurso da ordem legitima as condutas anteriores, molda as bases da aceitação social da violência estatal, oclui as deficiências do Estado Brasileiro no provimento dos serviços essenciais à sociedade e reproduz uma representação do mundo em que o bom cidadão é passivo e a sua única oportunidade de se manifestar deve ocorrer pelos instrumentos tradicionais existentes, como nas eleições.

Mas essa é apenas a superfície. No limite, o discurso da ordem produz um dejeto imperceptível: espalha na sociedade a descrença nos valores democráticos.

Em nome da manutenção da ordem, os direitos fundamentais são suspensos, como o direito de reunião e de associação. As garantias processuais e penais também o são, multiplicando-se as prisões cautelares, as razões de “ordem pública” e enlastecendo esse conceito indeterminado, para que se possam decretar prisões preventivas em diversas situações.

Em nome da ordem, já se manifestam diversos saudosismos (vide redes sociais, como facebook) pedindo o retorno dos militares ao poder como emplastro e tábua de salvação contra todos os males.

Na minha convalescença, o horizonte não parece translúcido. Delírio ou encefalopatia, às vezes penso que devo voltar ao leito do doente e erguer-me um pouco mais tarde, para ver o que vai ocorrer depois que a banda passar.

Por sorte, a hemoglobina ainda muito baixa, me sinto cansado após escrever esse texto, mesmo aqui deitado. Vou precisar descansar o resto do dia inteiro e evitar ler as notícias por um tempo.

A todos que me desejaram melhoras, obrigado. Em breve espero estar de volta com a natural disposição.



3 responses to “VOLTA À UTI

  1. Prezado colega Israel Nunes, estou torcendo para que recupere logo a sua saúde e retorne ao aconchego do seu lar e aos seus afazeres intelectuais e profissionais. Li atentamente seu inteligente artigo que retrata a grande verdade. A translucidez de muitas pessoas no Brasil é lastimável! Essa diafaneidade de muita gente (até mesmo quem carrega títulos de mestres e doutores)no nosso país, vem desde os graus inferiores, em que (os estudantes não conhecem a outra face da moeda) não se debate com eles questões relativas ao subterrâneo das péssimas ações “políticas” que deixaram o Brasil na situação em que está nos dias de hoje. Será que estamos curtindo uma democracia branca, mesmo em exercício da institucionalização do estado democratico de direito, a exemplo do direito constitucional à liberdade de expressão? Lembro-me do ilustre escritor Haxley, quando disse: “a ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao CONSUMO E AO DIVERTIMENTO, os escravos terão amor à sua escravidão”. Nobre amigo, não faz lembrar o Brasil? Um abraço e muita saúde…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *