OS RINS

tristanPor Tristan AlZu

Leio no cartaz fixado no ambulatório que meus rins envelhecem comigo e que sou responsável por eles. Devo pois, de acordo com aquelas letras graúdas, consultar rápido a um médico. Da palavra laboratório, em letras gigantescas fixada na parede do prédio, despencaram as letras l e a e agora se lia abor tório. Protegido no carro sob o ar condicionado ligado, aguardava a vez para ser investigado por uma colonoscopia. Mentalmente, vítima da Gestalt, juntei abor tório numa só palavra e fui levado a pensar que esse corpo era tudo que me restava. A fila de cartazes conclamando a me lembrar as outras partes do corpo não cessavam de aparecer nos corredores do hospital. O proctologista se encarregaria de introduzir um cabo, munido de câmara e alicate nas minhas entranhas, asseadas por um purgante que ilumina intestinos, na obtenção do seu diagnóstico.

Clemência Isaura, uma amiga e naquele instante cuidadora, pega o celular e faz o registro clássico no qual estou de costas vestido com o famoso avental aberto atrás, dos pacientes desfilando suas bundas, cus e intestinos a serem diagnosticados.

Foi inevitável lembrar Philippe Roth e do magistral Fantasma sai de Cena, sua história sobre as tempestades vividas pelo corpo e pela alma quando o homem se aproxima do fim. A incontinência urinária obrigando o velho escritor recolher-se do mundo, abandonar as piscinas pelo temor de que a linha amarela da urina denunciasse a sua nojenta fragilidade.

O livro A Saúde Perfeita – crítica de uma nova utopia – do francês Lucien Sfez, navega e remete para as ‘incertezas’ envolvidas nas percepções socias, legais e éticas sobre o destino da biologia e seu atrevimento em encarar o maior dos mistérios da divindade: a vida. Assim como roubou o fogo, o homem tomou dos deuses a tecnologia da produção da vida. O sequenciamento do DNA, que permitiu a produção da primeira levedura por um laboratório, é outro desses marcos que avançam sobre o território outrora exclusivo da divindade. Pensava distraído sobre essas coisas enquanto tentava lembrar as outras palavras com suas letras despencadas. Mas o médico, com um cuidado exemplar, encontrara afinal uma veia por onde enviar a droga mágica que me faria apagar, dormir anestesiado enquanto ele, com igual maestria introduziria no meu frágil corpo aquele impressionante equipamento pronto para cortar e recolher a indesejada coisa que brotou como resultado de anos de uma vida dedicada ao tabagismo, aos vinhos, a carnes vermelhas e a outros inimigos maravilhosos.

A via crucis que percorremos pelos labirintos dos hospitais, clínicas e laboratórios obedecem à lógica da suprema solidão e acentua o ridículo da condição humana. Mais que trágica é ridícula e desprezível a situação do doente impotente diante da natureza serializada da medicina hospitalar. Minha senha era a 3, como na espera do banco ou dos atendimentos por ordem de chegada. Entrar na fila é o prenúncio do campo de concentração. A ordem logo se manifesta e o segurança, sempre um grandalhão desqualificado, garante que os números sejam obedecidos. Senha 3, grita a voz metálica da mulher que olha para mim com o mesmo prazer que olha o número três. 

Amaldiçoo a Coca-Cola e aos bois e vacas que comi ao longo da vida. Amaldiçoo a preguiça que não me fez suar os excessos das cervejas e vinhos bebidos com tanta alegria. Mas amaldiçoo, sobretudo, a natureza por conspirar contra os prazeres do corpo. Nem penso em Deus, nem na teologia nem na dietética e suas recomendações de moderação e ódio à vida.

Aguardo com ansiedade e grande alegria o dia em que a ciência afinal vá destruir as malditas gorduras acumuladas e deletar para sempre os subprodutos indesejáveis da alegria de viver. E sei que isso se tornará uma realidade em breve tempo, destronando a religião e o bom mocismo dos puristas viciados em adrenalina. 

Graças à pílula ou à vasectomia já desfrutamos dos nossos corpos sem a culpa ou o medo de que vamos aumentar ainda mais o tamanho obsceno da humanidade. O mesmo deve acontecer logo com o prazer de comer e a digestão. O aparelho digestivo tem que ser substituido ou esquecido para que possamos gozar sem medo de morrer entupidos de manteiga.

E assim, quando chegar esse glorioso dia, vou te envolver em finas tiras de filé mignon e untar com ervas finas, produzidas pelos monjes budistas que flertam com com a física quântica e a filosofia ocidental, e saborear a alegria de lamber e beijar teu corpo inteiro, com todo meu desejo, sem nenhuma culpa ou temor!



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