DA MITOLOGIA: RÔMULOS, REMOS, BARBEIROS, SANGUESSUGAS… HEMATÓFAGOS…

jamal-padilha-11Por Mohammad Jamal

Coisas estranhas estão acontecendo e pontuando com alguma freqüência o meu dia-a-dia desde o início da semana passada. Um desconforto atávico e intermitente; uma inquietação que não consigo descobrir onde nasce; uma falta do “não sei o quê”; uma ausência existencial dum presencial desconhecido, quase mítico, me faz com mãos trêmulas, frias, suadas. Um vazio do vazio de que? Um Mara. Uma saudade anônima, apócrifa, impregnada duma alquimia kafquiana travestida numa realidade insondável, literalmente imperscrutável. Um vácuo.

Seriam avisos premonitórios supra-espirituais? Sensações de êxtase catártico? Pré-sintomas de depressão seguida de síndrome do pânico? Estaria eu no transcurso duma gravidez? Dizem que o homem às vezes é emprenhado duma gravidez psicológica, claro, não androgênica… Não Sei. Nunca fiquei grávido, senão de ideias e conceitos políticos-filosóficos contraditórios, de uma complexidade filosófica agressiva, que me faz buscar continuamente em Nietzsche todos os meus elementos antikantianos. O que sei, são de inquietações recorrentes do vácuo que me acometeu nessa semana tediosa e insipiente. Ócio intelectual…

Até lembrei-me da infância, ainda garotinho, quando mamãe muito carinhosa, me dizia. “… Filho, não olhe para o sol. Você poderá ficar cego, alem disso, as manchas solares penetrarão à sua alma através a retina o que fará sua alma triste, inconformada e obscura”. Mas eu, teimoso, insistia em olhar demorada e fixamente para o sol como um desafio à luminescência do universo e à minha própria incredulidade. De fato, quase fico cego. Passei seis meses sem enxergar nada. Depois, gradativamente comecei a ver pelo olho direito e só passado um ano, o olho esquerdo viu novamente a luz. Mãe sabe. O meu empirismo é torridamente insurgente e refratário; paguei pra ver e muitas vezes, paguei caro.

Já papai me dizia, muito sério ao tom irrecorrível das suas afirmações filosóficas:

_ Não olhe para as estrelas. Não desperdice seu tempo trepado no alto dessa jaqueira pensando que estarás mais perto para admirar o brilho enganoso desse céu estrelado. Só os idiotas, os loucos e os poetas se entregam e se embriagam na insipiência e inutilidade desse romantismo inócuo. O trabalho sob o sol é o que nos importa, porquanto nos permite plantar e colher os frutos da nossa lavoura e saciar a fome das nossas entranhas.

E continuava.

_ Lembra-se de Arquimedes? Ele não nos permite abandonar a ideia do uso utilitarista do tempo, enquanto nos impele a prática de pensamentos e ideias construtivistas que nos permitam viver mais e melhor, tanto física quanto mentalmente. É o empuxo e a repulsão. É o trabalho físico e intelectual que deve impregnar as ações do homem para o bem comum. Se eu te surpreender novamente no alto desta jaqueira admirando as estrelas, Eureka: Vou colocá-lo de castigo trancado no escuro do silo de arroz por uma semana. Cartesiano; papai despojava a natureza de toda a sua profundidade metafísica.

Sentei-me ante o teclado e cheguei ate a abrir o Word pra tentar escrever uma crônica. Desisti… A tal saudade obnubilava minha inspiração. Abri o Internet Explorer pra matar o tempo enquanto caçava notícias sobre nossa cidade, sobre as atividades políticas e administrativas dos nossos gestores e legisladores municipais e as mesmices do cotidiano desesperançado de Ilhéus. Uma pasmaceira! Nada, um silêncio sepulcral opinativo e editorial domina minha mente. Na mídia jornalística, aqui e ali alguém reclama sobre varrição… Falta de lâmpada no poste da rua, núvens muriçocas; as centenas de milhares de crateras e buracos às ruas. Com a falência do SUS, o povo doente chora nas filas sem ter a quem recorrer; as escolas em ruínas e as crianças nutridas à rocas; tudo isso e muito mais, sob o silêncio preguiçoso da elite palaciana. Vez em quando parecenos-ouvir vindos lá de cima, acordes de alaude executando uma ária patética, muito lenta para ser bailada.

Linha lenta ondulada dorme am águas

Linha lenta afastada sonha pontes

Sílaba em lava

Lentas águas recolhem fibras translúcidas do ar

E tecem a mordaça que detém o grito nas muralhas do horizonte

Lentas água

(Versus do poema “O sol e a água” do livto “As Árias e as Horas” de Jairo Lima)

Somente “ELES”, sob a luz dos abajures e candelabros, cantam e dançam como sílfides ao doce ritmo do farniente; essa ária em allegro ma non presto que embala o ócio, filho nascituro da mama preguiça laboral.

Ufa! Graças a Deus dei-me conta dessa ansiedade atávica que me corría os ânimos. É que a nossa Ilhéus, a exemplo da mitologia que envolve a fundação de Roma, assemelha-se àquela loba nutriz que fez prosperar na lendária antiguidade seus construtores. Ainda hoje, a nossa esquálida Ilhéus dá de mamar à sua ninhada de adotados, seus ávidos Rômulos e Remos insaciáveis! Mama Ilhéus… Seios fartos… Tão maternalmente bondosa… Pena que à nossa custa!



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *