O ESTUPRO DE INÊS. QUE HORROR!

jamal-padilha (1)Por Mohammad Jamal

Falar sobre as malfeitorias políticas já não dá mais audiência, ibope, leitura, público. Notícias estampadas sob o cunho apelativo em manchetes chamativas ou sensacionalistas já não despertam interesse algum nos leitores. Há um processo contínuo de erosão moral cronificado sobre as condutas das figuras públicas na política.

Antigamente morria-se de rir das piadas e esquetes teatralizados em caráter cômico pastelão ou tórridos de ironias e críticas ferinas aos atos e condutas das aberrantes personagens do métier político!  Imagino que o humorismo temático daquela época supunha-se singularmente ficcional; pode ser. Mas a corporificação do ficcionismo que se imaginava hipoteticamente preso e estacionário sob o abstracionismo humorístico do tema, de fato, evoluiu e transmutou-se para um concretismo existencial, realisticamente amargo e irrecorrível. A realidade superou em muito a ficção. Quem poderia imaginar as constatações atuais?

Há poucos anos, à moça liberada que fazia sexo antes do casamento ou fora desse, denominavam-na puta. E àquele que roubava; que tomava por empréstimo e não devolvia; que prometia e não cumpria com os compromissos assumidos, que desviava fundos públicos, era o chamado ladrão, literalmente! Mas os “filosofismos” das morais políticas os renomeou indulgentemente! Os delinquentes daquela época são hoje condescendentemente imputados como simples e corriqueiros inadimplentes, mercê da nova reinterpretação semântica do adjetivo “ladrão” que, na atualidade, é plenamente tolerável, lavável e reutilizável por muitos, com a ajuda implícita do texto da Constituição Brasileira de 1988 em seu artigo 5.°, inciso LVII: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Por isso é que fomos forçados a aprender, enquanto eleitores a reprimimos a ânsia do vômito quando somos obrigados a votar “nos mesmos”. Melhor não dar na pinta o entojo repulsivo.

Quanto às inter-relações dos poderes democráticos junto à massa, Estado e povo, predomina uma neorrealidade ambivalente e desavergonhadamente escancarada. Povo e Governo vivem em mundos distintamente antagônicos, apartados que estamos das elites por arames farpados e muros altos de faces duplas. Enquanto povo, somos a antítese do vip figurão político. Somos parceiros solidários de nós mesmos, nos guetos do isolamento a que nos confinaram as elites do democratismo brasileiro.

Como na moeda sonante, há dois lados: no lado de dentro, o lado “deles”, simbolicamente as ruas são seguras; acarpetadas para o trânsito de carruagens douradas na forma de carros luxuosos importados, motoristas de libré e parrudos seguranças pessoais armados; jatinhos executivos e viagens em primeira classe dão o toque VIP à “autoridade”. Cartões corporativos dão acesso a bebedouros seletivos que vertem champanhe; vinhos caros… Água mineral Perrier. Jornais, revistas, sites e bancos sempre de portas escancaradas para recebê-los; mulheres e Adônis, prontos para servi-los ao tempo e a qualquer hora. Do lado de lá, há urnas para coleta de envelopes de sugestões e possíveis reclamações com tapinhas nas costas; elas são a antítese das desconfortáveis Delegacias Circunscricionais de polícia de cá, onde ralamos para um B.O. Além disso, lá não há juízes, promotores, Ministério Público… Tribunais que perturbem seus doces farnientes. Um céu de mimos e privilégios… Até o SUS ao qual nos suprimiram peremptoriamente o acesso; do lado de lá atende “eles” nos Sírio e Libanês; Albert Einstein… Clínica Bambina, tudo free, com se diz lá em Serra Talhada: “De grátis”! A contrapartida do lado de cá, nosso lado, nem é preciso falar; seria redundantemente comiserativo e tedioso repetir o que todos nós, povo, vivenciamos no dia-a-dia. No lado de cá, nosso lado, SUS é SUS mesmo, um SUSto apenas! E não adianta gritar, engula silenciosamente a dor senão piora!

Recentemente, com a implantação do neo-absolutismo na gestão municipal e a subsequente falência coletiva de todos os serviços públicos básicos outrora acessíveis ao povo; não nos surpreenderia se nos deparássemos com a promulgação de um decreto impositivo e radical verticalizado sobre o povo. Relembram daquele promulgado em Antares – (Incidente em Antares), de Érico Veríssimo? Incidente em Antares é, antes de tudo, um livro corajoso. Aborda a temática política de maneira aberta e direta em plena ditadura militar dos anos 1960-1970. Estou exemplificando figurativamente, a possibilidade de sermos surpreendidos por um decreto monocrático restritivo nos seguintes termos: “… No uso das atribuições legais, decreto: Art. 1º – Fica terminantemente proibido adoecer ou acidentar-se em área territorial deste Município. Parágrafo Único – Concomitantemente à proibição terminativa de óbitos de qualquer natureza, a saber: por assassinato; acidentes; doença; morte natural por falência múltiplas dos órgãos; natimortos e outros, sob as penas deste Decreto… Etc.”.  

Vou até relembrar a história passada há uns poucos anos lá na serra, em Urubici-PR, para exemplificar a ascensão meteórica que envolve as personagens do maravilhoso mundo político.  Aldus Huxley, (Admirável Mundo Novo), foi quem sabiamente disse: “A democracia permite que criaturas abomináveis conquistem o poder.” Mas voltemos à nossa personagem exemplar, o Raimundo, que era Guarda-Livros – contabilista, “notário” de antigamente – e alfaiate nas horas vagas. Ele morava num quartinho alugado na “avenida” de D. Pureza, uma tolerante e bondosa senhoria. Raimundo não tinha onde cair vivo, porque morto, cairia em qualquer lugar, numa “naice”, na maior, pra quem quiser reclamar pra defunto! Pois é; com a emancipação da Vila para o status de cidade, Raimundo, “uma reserva moral à época”, foi lançado vereador; e foi eleito! Desde essa data – não vou cansá-los com detalhes – Mundinho, como era conhecido, evoluiu na política à semelhança de outras “carreiras” meteóricas, coisa que já nos acostumamos testemunhar! Imaginem onde ele está ágora? R: Em Brasília gente! Tem mansão à beira do Lago Paranoá com lancha, mordomo, churrasqueiro e as porras! Fazendas de gado em Goiás, prédios em Sampa, Uma construtora, corretora de valores, empreiteira… E lá vai ele em seu iate com destino às Bahamas! O mercado político é, de fato, o “Admirável Mundo Novo” descrito pelo Aldus ou não? Ah! A democracia… É linda, mas muito parecida com “Engraçadinha”, a ordinária “Lolita” de Nelson Rodrigues. Tão putinha e ordinária de dar dó!

Não façam mofa com o povo; povo às vezes rompe as barreiras do imprevisível. “Povo é uma raça de gente insaciável; não se contenta com nada. Sempre reclamando! Se a gente dá o pé, ele quer as mãos.”. É verdade; eu já ouvi esse prólogo de presunçosa arrogância umas cinco vezes. Numa delas, resolutamente puto da vida, acrescentei nossa opção em alto e bom tom: “Na verdade, entendam-nos: preferimos as vulvas e os retos, mãos não. Claro, desde lavados e sanitariamente seguros.” Fui retirado à força do ambiente! Pelo visto, eles não estão dispostos a atender o pleito implícito em nossa raivosa subliminaridade linguística. Políticos são seletivamente cegos, surdos, prolixamente falantes… Esquecidos e amnésicos, mas extemporaneamente Vips!

Ah! Quanto ao estupro de Inês; nada demais além de gemidos e sussurros. Ela ate nos assegurou: “Foi um lindo clímax!”. Por aqui, nessa cidade singular, dizem que até as putas tem orgasmo! Imagina? Ainda bem que tudo é ficção! Ou não?



2 responses to “O ESTUPRO DE INÊS. QUE HORROR!

  1. Uau, que texto! Até parece um trecho de uma obra de ficção estilo Harry Potter ou Senhor dos Anéis com uma roupagem moderna e muita imaginação e um extremo senso de humor, se não fosse pelo simples fato de ser tão vergonhosamente verdadeiro. Estamos literalmente vivenciando o ditado popular que diz que em terra de cego quem tem um olho é rei, com a ressalva de que neste caso o rei(políticos) tem olho de vidro doado por nós cegos(eleitores) que somos democraticamente forçados a votar nestes arrombadores FDPs.

  2. Eu também achei excelente, bravo! Habituei-me a ler o Sr. Mohammad e suas pérolas em forma de crônicas com denso conteúdo literário. De fato, não adianta criticar formalmente as ratazanas “extemporaneamente vips”; a mofa estilística, o tom irônico, ferino, o humor sarcástico e inteligente, denota sua cultura e intelectualidade. Um ótimo articulista, dentre os poucos que passam a quilômetros do lepo, lepo e beijinho no ombro, lugar comum na mídia cotidiana.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *