O EMPREGO E A URNA

europeusPor Saul Leblon / publicado na CartaMaior.

Berço do Renascimento e das ideias libertárias, a Europa se transformou em um enorme depósito de desempregados.

Vinte e seis milhões de trabalhadores foram cuspidos do mercado de trabalho pelo arrocho neoliberal que se arrasta por seis anos.

Vinte e cinco por cento dos eleitores do continente responderam à desordem dando seus votos às ideias xenófobas, de extrema direita, eurocéticas e fascistas nas eleições deste domingo, na renovação do parlamento  europeu.

O conservadorismo brasileiro faz olhar de paisagem.

A mídia trata o terremoto como um sismo em terras distantes.

Um assunto estranho a sua pauta.

Não é.

Os interesses que modularam o funeral do Estado Social europeu nas últimas décadas, e jogaram a pá de cal  nesta crise,  estão mais do que nunca atuantes na disputa presidencial em curso no Brasil.

O palanque conservador nomeia o arrocho fiscal, de consequências sabidas, como a principal alavanca corretiva para os gargalos da economia brasileira.

Trata-se de recuar o Estado para o mercado agir e a sociedade prosperar.

É a ‘contração expansiva’.

Bordão do discurso ortodoxo, ela resultou no estado de sítio econômico imposto à Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda etc.

A semeadura foi colhida nas urnas de domingo.

A  extrema direita capturou um em cada quatro votos depositados nas urnas.

Seu lema remete à legenda  dos salvadores da pátria dos anos 30.

Suásticas de ilustrativa rigidez prometiam então substituir a desordem econômica  alarmante por uma ordem policial atuante.

Nenhuma outra dimensão da luta política condensa de forma tão significativa o conflito de interesses subjacente às eleições brasileiras de 2014 quanto a pergunta:

– Que futuro os candidatos reservam ao  emprego no país? (leia a arguta análise de Wanderley Guilherme dos Santos; nesta pág) .

A economia brasileira terá que  criar 6,7 milhões de vagas nos próximos cinco anos. Pouco mais de 1,2 milhão por ano,  para responder ao aumento da população economicamente ativa.

O cálculo é da Organização Internacional do Trabalho, a OIT.

No ciclo de governos do PT (de 2003 a 2013), o Brasil criou cerca de 15,8 milhões de empregos.

Os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso deixaram  um saldo  de apenas  800 mil vagas na economia.

Assim: um corte de milhão de vagas no primeiro mandato e um acréscimo de 1,8 milhão de empregos nos quatro anos seguintes.

A  criação média de empregos no Brasil sob a presidência do PSDB, portanto,  foi de 100 mil postos por ano.

No ciclo de governos progressistas (2003/2013)  foi de 1,5 milhão/ano.

Ao mês, o PT gerou mais vagas do que cada ano de mandato tucano.

As condições econômicas foram distintas, pode-se argumentar.

Sem dúvida.

Assim como é forçoso recordar:  desde 2007/2008 o mundo mergulhou na maior crise do capitalismo dos últimos 80 anos.

O que teria sido do país se os sábios banqueiros do PSDB estivessem no comando da economia então?

Não estavam e  11 milhões de empregos foram criados no período: quase 1,6 milhão de vagas por ano.

Ignorar a lógica econômica que condicionou o resultado das eleições europeias é perturbador.

Os mercados festejaram.

As bolsas europeias subiram com força na segunda-feira e nesta terça, enquanto os números consolidados dimensionavam os talhos no futuro da democracia.

A Frente Nacional (FN), de extrema direita, passará a dispor de 24 cadeiras parlamentares, tendo alcançado cerca de 25% dos votos na França – 18 pontos acima do último pleito.

Na Inglaterra, o direitista Partido da Independência se tornou a  bancada mais forte, ultrapassando o Partido Trabalhista de David Cameron (leia a análise de Marcelo Justo, de Londres; nesta pág.)

Na Áustria, o Partido da Liberdade (FPÖ) conquistou 20,5% dos votos em todo o país.

Nos  países escandinavos, as propostas da extrema direita abriram espaços inéditos  no Parlamento de Estrasburgo, no qual 140 dos 751 assentos serão ocupados por deputados para os quais o ideário chauvinista e antissemita não é estranho.

O coletivo dos professores banqueiros do PSDB –e seu ativo retransmissor midiático– está longe de endossar o nacionalismo de  uma Europa machucada pelo alto preço da subordinação a uma moeda manejada em benefício de Berlim,  Bruxelas e da alta finança.

Mas as ideias econômicas que alimentam seus candidatos formam costelas do mesmo espinhaço a partir do qual ganharam vida própria os Le Pen, o Aurora Dourada, os Nigel Farage e assemelhados.

A saber:

a) o país vive uma pressão inflacionária decorrente do excesso de demanda;

b) este deriva do abusivo aumento do poder de compra dos trabalhadores, puxado pelo reajuste real de 60% do salário mínimo nos governos Lula/Dilma;

c) a renda das famílias cresce ininterruptamente há mais de 4 anos ;

d) sustenta o insustentável: a expansão da demanda interna –atendida, em mais de 20%, no caso de manufaturados, pelas importações;

e) a solução para o estresse macroeconômico, somatizado em alta de preços, passa por um tratamento de choque: alta dos juros, arrocho fiscal do Estado, desemprego e  achatamento salarial.

A mídia cuida de dar a esse receituário um sentido de urgência, travestido na narrativa diuturna de um país aos cacos.

Ingredientes objetivos evocados no confronto político de uma época muitas vezes são idênticos dos dois lados da disputa.

O que distingue as margens do rio é menos a sua composição e mais a natureza determinante que se atribui a cada um dos  elementos.

Resistir passa por identificar politicamente os fatores que podem diferenciar a qualidade social da transição para um novo ciclo.

Hoje, por exemplo:

– a inflação reflete pressões conjunturais de safra, mas também outras que vieram para ficar, decorrentes de uma mudança estrutural na economia;

– o setor de serviços (telefonia, saúde, energia, bancos etc.), que teve gordas fatias capturadas pelo capital estrangeiro (leia neste blog ‘Um tabu que sangra o Brasil’)  elevou sua participação no PIB, de 63% para 68,5% nos últimos oito anos;

– a inflação dos serviços tem crescido acima de 8% ao mês (dois ou três pontos acima da média);

– combate-se isso com mais oferta, fiscalização e, sobretudo, regras de reinvestimento;

– nenhuma ‘abertura comercial’ do tipo ‘deixai o mercado agir por conta própria’ vai resolver: serviços são de difícil importação;

– tampouco a alta dos juros supera o impasse; na verdade, apenas agravará seu outro polo : o enfraquecimento do setor industrial;

– o recuo da industrialização vem de longe: em 1985 o setor fabril produzia 27% da riqueza agregada ao PIB brasileiro; em 1996  a fatia retrocederia oito pontos e mais quatro  agora, situando-se em 14%;

– a desindustrialização pesada do ciclo tucano foi impulsionada justamente pela panaceia  livre mercadista que se pretende reeditar:  privatizações, câmbio desfavorável, juro alto e abertura comercial suicida.

Os governos do PT agiram sobre essa lógica parcialmente. E de forma  lenta.

Manteve-se até 2008 a dupla turbina do juro alto e câmbio valorizado.

A política econômica dos últimos anos, no entanto, introduziu um redefinidor potente na equação.

Ele dificulta sobremaneira a aplicação da vacina ortodoxa novamente.

Os programas sociais, o salário recomposto e a forte geração de emprego  elevaram o mercado de massa à inédita condição de ator principal do enredo econômico brasileiro.

A centralidade desse novo protagonista vincula o ajuste preconizado pelo conservadorismo  a uma taxa de desemprego de teor inflamável equivalente à produzida pela troika na UE.

Tampouco, porém, a nova escala social cabe no figurino  da infraestrutura e da logística existente.

Estudos de organismos do Banco Mundial, citados pelo jornal Valor esta semana, indicam que o estoque de infraestrutura existente no país equivale a 16% do PIB.

A média nos países desenvolvidos é de 71% do PIB.

O novo mercado de massa reúne  53% da população, que nos últimos 12 anos elevou, por exemplo, em 182% o número de passageiros nos aviões e fez crescer em 182,5% o trânsito nas rodovias.

Como superar esse descompasso no menor prazo de tempo possível é a pergunta que grita na equação política brasileira, sendo cada vez mais audível nas ruas.

O conservadorismo quer resolver o impasse cortando o mal pela raiz.

Devolvendo a pasta de dente ao tubo do desemprego e do arrocho saneador.

Foi a solução endossada pela socialdemocracia  europeia com as consequências contabilizadas no último domingo.

Cabe ao campo progressista brasileiro aprofundar a lógica oposta,  abraçada pela esquerda que emerge das cinzas da rendição socialdemocrata.

Ou seja, dar ao novo protagonista social o espaço democrático necessário para renovar a  correlação de forças do  desenvolvimento brasileiro.

A eleição de outubro deve servir a esse credenciamento.

O resto é arrocho.



4 responses to “O EMPREGO E A URNA

  1. Boa matéria esta aqui acima (elucidativa, tecnicamente correta, bem explanada, precisa, interessante e atual, entre outros predicados), mas o sr. Saul Leblon, esqueceu-se de nos dizer que: a ABSTENÇÃO nas eleições do último Domingo para o Parlamento Europeu, foi de mais de 65% dos Eleitores. Os 25% dos Eleitores que votaram nos Partidos Neo-Fascistas, Nazistas e/ou de Extrema Direita, estão incluídos nos 35% dos votantes (o que quer dizer que, o cidadão europeu comum, está se “marimbando” para os assuntos da Política Europeia, visto terem sido, de há muitos anos a esta parte, enganados e vilipendiados pelos agentes políticos europeus (os pobres trabalhadores por conta de outrem, é que têm pago as várias crises (econômicas e outras) de à 25 anos a esta parte e não a Burguesia, como deveria ser (o perdão das dívidas a Banqueiros, Seguradoras, Financiadoras, Governantes, Parlamentares, Administradores de Empresas Públicas, Privadas e Privatizadas, etc.)).
    Portanto e não só por isto, aliado ao número exorbitante de desempregados (mais de 26 milhões de trabalhadores em toda a Europa) é que devemos pensar bem no que podemos fazer para atenuar a “crise que se aproxima, a passos largos, em toda a América Latina” e, ao mesmo tempo, estar muito preocupados e preparados com o que poderá vir a acontecer no Brasil, especificamente, caso esses milhões de trabalhadores desempregados europeus pensassem em emigrar para o nosso País.
    Minha conclusão com o que aqui aponto: A Europa passaria a ser “governada” novamente pelas mãos dos Partidos Liberais, Fascistas e Neo-Fascistas, de Direita, Xenófobos, Racistas, Lacaios do Imperialismo Internacional e outros que tais e toda a Classe Trabalhadora Europeia, viria trabalhar para a América Latina e Países Africanos e em procura de outro e melhor modo de vida, mais de acordo com os seus conhecimentos profissionais, de cultura geral, de línguas estrangeiras e de modo de viver. Estaria o Brasil preparado para receber tantos milhões destes novos trabalhadores?

  2. POR PIOR QUE SEJA O CAPITALISMO/NEO LIBERALISMO, AINDA ASSIM TEMOS ARMAS PARA LUTAR E PROTESTAR POR DIAS MELHORES, SERÁ QUE NAS DITADURAS COMUNISTAS ISSO É POSSÍVEL?

    Eu poderia mostrar dados assustadores de Cuba, Venezuela ou Coreia do Norte, mas vou mostrar dados da China, considerada a maior e mais bem desenvolvida sociedade comunista do planeta, até hoje, ninguém se perguntou porque um par de tênis atravessa dois oceanos passa em várias alfandegas e chega aqui ou em outro país qualquer custando 1/5 dos fabricados nos países de destino, será serviço escravo? a matéria abaixo nos mostra o que realmente acontece por lá com a total conivência de todo mundo, foi assim com o HITLER/NAZISMO, foi assim com os massacres cometidos por STALIN em todo LESTE EUROPEU, foi assim com os massacres cometidos por MAO TSE TUNG, exterminando pela FOME, aldeias chinesas inteiras, e fazem o mesmo nos dias atuais.

    “O LADO OBSCURO DO MILAGRE CHINÊS”

    O “milagre” chinês tem um lado sombrio. A coluna vertebral de seu salto econômico são os mais de 200 milhões de migrantes que abandonaram o campo para buscar trabalho na cidade.

    Esses migrantes constituem um terço da população economicamente ativa (de 15 a 65 anos de idade) e não têm acesso à saúde ou à educação. Para eles, o “milagre” chinês é uma utopia ou um pesadelo.

    Como é possível considerar milagroso um modelo que explora um terço de sua população economicamente ativa?

    ======================================================================

    QUEM QUISER SE INTEIRAR UM POUQUINHO MAIS, SOBRE A ESTARRECEDORA SITUAÇÃO DA MÃO DE OBRA ESCRAVA CHINESA, TRADUZA PARA O PORTUGUÊS A OBRA DA JORNALISTA INVESTIGATIVA CHINESA, EXILADA É CLARO, Hsiao Hung-pai, AUTORA DE Scattered Sands eChinese Whispers, DOIS ESTUDOS-CHAVE SOBRE O FENÔMENO DA MIGRAÇÃO CHINESA.

    http://ipco.org.br/ipco/noticias/o-lado-obscuro-do-%E2%80%9Cmilagre%E2%80%9D-chines#.U4eXy3ZljgE

  3. Meus caros e minhas caras, não percam seu precioso tempo debatendo matérias publicadas por “CARTA MAIOR – UM PORTAL DA ESQUERDA BRASILEIRA E LATINO AMERICANA”.

  4. QUE TAL DEBATER O QUE É DIREITA, ESQUERDA E CENTRO NA POLÍTICA DE HOJE?

    P/Antonio Fallavena

    Um oportuno comentário de Caio Efrom abre as portas para retomarmos, aqui mesmo na Tribuna da Internet, um debate sério e profícuo sobre definições e práticas do que seja “direita, centro, esquerda” e outros rótulos.

    Não fiquemos surpresos quando surgirem as definições “criadas” por alguns que pensam deter conhecimentos sobre o tema. Vamos abrir esta caixa “fétida da política nacional”. Veremos que alguns partidos sumirão, como que por encanto, instantaneamente. Outros lembrariam o famoso “leite Glória”- aquele que desmanchava sem bater. Infelizmente, conhecimento não é vendido como figurinhas da Copa.

    Gostaria muito que meu país tivesse um povo que cuidasse do nacionalismo, da ética e soubesse escolher melhor seus dirigentes. Alguma dúvida de que todos os partidos cheiram mal? Alguma dúvida de que os últimos governos – pelo menos nos últimos 30 anos, cometeram erros e aprofundaram a corrupção no País?
    POLÍTICOS SEM CARÁTER

    Jamais defendi ou defenderei políticos sem caráter, patifes, cafajestes ou corruptos. As acusações que pairam sobre os dois governos petistas, por exemplo, não foram desmentidas. Os malfeitos de Lula/Dilma continuam debaixo dos tapetes. Até podem continuar lá.
    Pergunto – por que os dois, que são acusados, insultados, vaiados e em cujas honras são lançadas dúvidas, seriíssimas dúvidas, não processam seus acusadores? No fundo, falta caráter aos dois. Lula mente faz muito tempo. Dilma não precisa mentir – ela acredita no que diz!

    A política foi criada para ajudar o povo a administrar suas coisas e ser feliz. Transformou-se em lixo pelo conjunto dos políticos e da sociedade. Quero e espero assistir a todos serem julgados e os inocentes, preservados.

    Se alguém quer pôr a mão no fogo pelos políticos, não sou eu!

    http://tribunadaimprensa.com.br/?p=85759

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