NÃO TURBINAR PARA DE FATO AVANÇAR

jose_eli_paulo_fridman_300vertPor José Eli da Veiga / Publicado na edição 87 da revista Página 22.

É preciso torcer para que os governantes que em 2015 assumirão a histórica responsabilidade pela “arrumação da casa” não cometam o erro de pretender turbinar o crescimento econômico. Se priorizarem reformas que melhorem a qualidade das instituições, com certeza a economia brasileira logo tenderá acrescer uns 3% ao ano, excelente taxa a ser mantida por longo prazo.

O crescimento econômico é meio, e não fim. tem capacidade muito variável de fazer que as sociedades atinjam os objetivos almejados. Duas singelas ideias que infelizmente ainda não imbuíram o pensamento dos estadistas que conduzem a fisiológica coalizão governamental, nem das oposições liberais que mais os combatem. Prisioneiros da obsessão pelo crescimento como fim em si mesmo, quase todos os políticos brasileiros comungam a ingênua suposição de que aumentos do PIB mantenham relação automática, constante, permanente, e até eterna, com o desenvolvimento.

Porém, o Brasil não deve invejar China, Índia, Coreia do Sul ou Chile. No limite,seria até o contrário, pois os benefícios do crescimento vêm sendo mais bem aproveitados por aqui.

Nos três últimos decênios, a capacidade de transformar crescimento em desenvolvimento foi bem mais superior no Brasil do que em todos os países citados. Quatro vezes a do Chile, por exemplo, pois aqui houve o mesmo aumento relativo de IDH com um quinto de sua taxa média de crescimento per capita. Até poderia parecer mentira, mas entre 1980 e 2012 o IDH do Brasil passou de 0,522 para 0,730, com apenas um oitavo do desempenho médio da economia sul-coreana e um décimo do da chinesa.

Também é bom lembrar que não éapenas nessa transmutação de crescimento em desenvolvimento que o Brasil vence a parada. Mais ainda no tocante à sua sustentabilidade ambiental. O País tem se mostrado superior aos quatro, malgrado a ininterrupta degradação de seus ecossistemas, a propensão de suas elites em desvalorizar o amanhã, e a infinidade de tristes conflitos ambientais que pipocam diariamente. Apesar disso tudo, o Brasil ainda está muitas léguas à frente da Índia, da Coréia do Sul e da China em qualquer Provão de sustentabilidade.

Quanto às desigualdades de renda, riqueza, etnia, gênero, região etc., as mensurações são tão frágeis que não permitem comparações razoáveis. Pode-se até lembrar que o desempenho econômico chileno se revelou incapaz de reduzir as desigualdades de renda justamente quando o Brasil começou a vislumbrar resultados muito positivos. Mas é um grave equívoco supor que a desigualdade de renda seja bom testemunho do conjunto das principais desigualdades. Basta pensar nas mulheres chinesas, nas castas indianas, e nas populações negra, cabocla e indígena do Brasil. 

Claro, nenhum desses argumentos deve incentivar qualquer laivo de resignação com a derrapagem econômica do governo Dilma. Mas todos são fundamentais para tentar impedir que eventual afobação em romper com “pibinhos” encubra a crucial questão da qualidade do crescimento. Instituições de qualidade transformam modesto crescimento em muito desenvolvimento, lição que felizmente vem sendo confirmada, expandida e fortalecida pela pesquisa econômica de fronteira.*

O crescimento dos países emergentes e periféricos tem sido essencialmente episódico: surtos de crescimento acelerado, seguidos de ainda mais destacados períodos de estagnação. Em contraste, o alto nível da renda dos países mais avançados não resultou de surtos de crescimento acelerado, mas sim da persistência do crescimento moderado. A força da estabilidade associada ao poder das taxas compostas é que faz as sociedades contemporâneas realmente avançarem.

O problema não está, portanto, na ausência de crescimento acelerado, mas na falta de consistência do crescimento. Os países avançados não são ricos porque cresceram rapidamente, mas porque fizeram isso a taxas modestas durante longos períodos.

É muito mais importante trabalhar com persistência para solucionar os problemas, tendo como objetivo a qualidade das instituições, um Estado a serviço da sociedade e não a sociedade a serviço do Estado, do que obsessivamente turbinar o crescimento. Qualidade de vida e qualidade das instituições devem ser os objetivos. Crescimento acima da média mundial pode até ser consequência, mas só com a ajuda de excepcionais circunstâncias.

José Eli da Veiga é professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP e autor de A Desgovernança Mundial da Sustentabilidade (Ed. 34: 2013). www.zeeli.pro.br

* O que foi dito até este ponto é uma atualização de passagens do artigo “Devagar e sempre”, publicado em 21 de março de 2006 no Valor Econômico. Os parágrafos seguintes sintetizam o ensaio bem mais profundo de André Lara Resende, publicado no caderno de fim de semana do mesmo jornal em 17 de abril deste ano, coincidentemente com o mesmo título.



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