ESPECIALISTA QUESTIONA VIABILIDADE ECONÔMICA DO PORTO SUL

Roger Moody avalia que a tendência de baixa do preço do minério de ferro  e a grande oferta desse produto no mercado internacional tornam a inviável a construção do Porto Sul.
Moody avalia que a baixa do preço do ferro e a grande oferta desse produto no mercado tornam inviável a construção do Porto Sul.

O britânico Roger Moody é um estudioso dos impactos ambientais e socioeconômicos dos negócios da mineração. Nesse ano, Moody visitou Caetité e Ilhéus, com intuito de avaliar o projeto Pedra de Ferro/Porto Sul, da Bahia Mineração, empresa do grupo ENRC. O especialista iniciou uma série de publicações sobre os empreendimentos. Publicamos os dois primeiros artigos (acesse aqui e aqui). Ele divulgou ontem (21) o terceiro capítulo do estudo.

O primeiro artigo retoma o histórico de fracassos da dona da BAMIN no mercado internacional, com destaque para sua expulsão da Bolsa de Valores de Londres, em 2013. O segundo aponta as dificuldades que a empresa do Cazaquistão enfrenta para encontrar investidores para o projeto Pedra de Ferro/Porto Sul. Endividada e investigada por suspeita de fraudes, ela não inspira confiança.

O terceiro capítulo demonstra como a grande oferta internacional de minério de ferro ameaça a viabilidade econômica do Porto Sul. As três maiores exportadoras do mundo, entre elas a Vale, adotaram a mesma tática para lidar com a baixa cotação: produzir mais e diminuir, com o preço baixo, o espaço das empresas menores no mercado. Enquanto isso, a China, que compra 70% do ferro transportado por embarcações, adota políticas de controle do crescimento econômico e planeja a redução de importações desse commodity. Diante dessa conjuntura desfavorável, a BAMIN ainda precisa considerar o alto custo do processamento do seu produto (inferior ao oferecido em larga escala pelos concorrentes).

“Por razões econômicas, mesmo se a atual produção da BAMIN, de cerca de 300 mil toneladas anuais da mina de Caetité, rapidamente aumentasse para um milhão de toneladas, isso dificilmente geraria capital suficiente para a ENRC usar toda a infraestrutura prevista na proposta original do projeto Pedra de Ferro e, em particular, a construção de um novo porto, o Porto Sul – ainda que fosse compartilhado com outros usuários”, conclui Roger Moody. Leia abaixo a íntegra do terceiro capítulo.

Por Roger Moody/Publicado na London Mining Network e traduzido por Ismail Abéde

Capítulo 3

A BAMIN está procurando clientes em um irremediável mundo com excesso de oferta

Nosso capítulo de abertura registrou que em novembro de 2012, a ENRC começou a fazer embarques experimentais de 300.000 toneladas por ano (tpa) de minério de ferro de sua mina da BAMIN em Caetité, a fim de confirmar algumas das “principais premissas operacionais para a fase do potencial DSO [ Minério de Embarque Direto] e atualizar o seu estudo de viabilidade do projeto “.

Seis meses depois, em 26 de maio de 2013, o governo brasileiro concedeu à BAMIN licença de exploração de mineração, desde que começasse a trabalhar nas reservas de minério no prazo de seis meses; caso contrário isso seria interpretado como se a empresa tivesse formalmente abandonado a mina

Até então, a ENRC ainda estava revendo uma “programação diferente do projeto, incluindo um cenário com uma fase para receita antecipada de minério de embarque direto nos próximos três anos, utilizando a infraestrutura ferroviária e portuária existente” [Steel First, 17 de maio de 2013].

Pouco mais de um ano depois, em Junho de 2014, foi dada à BAMIN uma licença de operação, válida por três anos, que lhe permitia produzir até um milhão de toneladas por ano de minério da mina Caetité, e para transportar este de trem usando a Ferrovia Centro-Atlântica, da Vale (FCA), “até o complexo do porto de Tubarão, no Estado de Espírito Santo, sudeste do país” [Steel Primeira 18 de junho de 2014].

Pouco antes disso, a Nostromo Research perguntou à sede da ENRC / BAMIN em Salvador qual era a quantidade de minério que já estava sendo enviada a partir da mina e quem estava comprando. Nenhuma resposta foi recebida.

No entanto, em uma viagem de campo para Caetité, realizada por dois pesquisadores brasileiros e este autor, no final de maio de 2014, foram observados caminhões com excesso de carga saindo da mina todos os dias. Seguindo eles, encontramos suas cargas sendo transferidas para um ponto de armazenamento, e em seguida, para os vagões ferroviários no terminal ferroviário da FCA, na cidade de Licínio de Almeida. A partir daí, de acordo com funcionários da estação, este minério foi enviado por trem a um porto no estado do Espírito Santo.

Nós calculamos que os clientes pudessem de fato estar recebendo cerca de 300.000 toneladas por ano da mina, como previsto pela BAMIN no final de 2012, embora esta quantidade não leve em conta qualquer quantidade de minério que pode estar sendo armazenada no próprio Estado de Espírito Santo.

Quem está comprando minério da BAMIN?

A ENRC é muito sigilosa sobre seus clientes atuais. Isso não é surpreendente, dadas as acusações de má gestão e corrupção que começaram a girar em torno dela no início de 2013, e que de maneira nenhuma se encerraram.

A empresa parece não ter publicado dados sobre contratos desde 2012; É provável que um contrato esteja sendo cumprido, mas em grande parte a partir de suas minas no Cazaquistão, e outras vendas podem estar sendo concluídas de formas isoladas.

O principal cliente de minério de ferro da ENRC durante 2011/12 foi o grande MMK (Magnitogorsk Iron and Steel Works OJSC). Este russo, fabricante de aço, comprou 50% da produção global de minério de ferro da ENRC sob um acordo que a empresa cazaque anunciou que iria durar “até 2017, pelo menos,” [Steel First, 21 de junho de 2011].

No seu relatório anual de 2012, a ENRC confirmou que durante o exercício anterior, ela havia vendido a maior parte de seu minério de ferro na forma de pelotas “predominantemente para MMK e para os produtores de aço na região noroeste da China”. Os valores apresentados foram: 9,9 milhões de toneladas para a Rússia, 5,5 milhões de toneladas para a China e os restantes um milhão de toneladas sendo vendidos no Cazaquistão [Relatório Anual ENRC 2012].

A empresa acrescentou que, “devido aos volumes contratuais mais baixos de minério de ferro fornecido à MMK”, ela fez acordo com uma segunda fundição de aço da Rússia, a JSC Chelyabinsk Metallurgical Plant (MECHEL), “para o fornecimento de concentrado de minério de ferro, com preços baseados em acordos mensais”. Além disso, ela disse que: “Os preços contratuais com os principais clientes chineses do grupo são determinados em base trimestral” [ENRC Relatório Anual 2012 ibid].

Seus principais compradores são provavelmente ainda aqueles localizados na Rússia, com as vendas menores que estão sendo feitas para as fundições de aço da China e do Cazaquistão

Não é possível verificar se a própria BAMIN fornece a qualquer um destes. E é improvável que a BAMIN seja atualmente – ou que algum dia será- fornecedora de quantidade significativa de minério beneficiado para qualquer das fundições brasileiras, especialmente à luz do papel predominante da Vale satisfazendo o mercado interno, com um menor custo envolvido no processamento do minério.

A Vale anunciou recentemente uma grande expansão (de cerca de 90 milhões de toneladas) de suas reservas de minério de ferro de Carajás, tendo assegurado US$ 2,8 bilhões de empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento do Brasil, BNDES [Mining.com 15 de abril de 2014]

Transformando ferro em aço

Converter o ferro, de seu estado natural, para o metal aceitável para fabricantes de aço, necessita de um número significativo de processos que variam em complexidade, dependendo do tipo de minério e para qual finalidade os compradores precisam usá-lo.

Uma vez que o minério foi retirado da terra, é triturado, moído e “beneficiado”, a fim de aumentar significativamente o seu teor original de ferro (Fe). Isso pode envolver a separação magnética e flotação – que exigem grandes quantidades de água retiradas da área circundante… É lógico que entregar um produto para o mercado com teor de 62% fe, provenientes de matérias-primas classificadas com apenas 32% fe ou menos, deixa uma grande quantidade de resíduos para trás, despejados na mina ou em local perto dela.

O minério refinado é transportado na forma de pedaços, esferas ou granulado fino, e pode ser processado ainda mais em um porto antes de ser enviado para o exterior. (Um outro capítulo deste trabalho irá analisar atentamente as implicações dessas tecnologias em relação ao projeto Pedra de Ferro/Porto Sul).

Não é, de nenhuma maneira, uma tarefa simples, e pode ser impactada negativamente por inúmeros acontecimentos imprevisíveis. Estes podem incluir não só uma queda brusca na demanda de mercado ou preço, mas também as tempestades e inundações, um colapso nas minas, disputas trabalhistas e greves, e – não menos importante – o crescimento da resistência das pessoas a um ou mais aspectos da operação.

As perspectivas da BAMIN de finalmente ter sucesso em elevar e carregar para fora aproximadamente 20-25 milhões de toneladas por ano de minério de ferro entre Caetité e a Costa Atlântica são incertas, para dizer o mínimo.

Por razões econômicas por si só, mesmo se a atual produção da BAMIN, de cerca de 300 mil toneladas anuais da mina de Caetité, rapidamente aumentasse para um milhão de toneladas, isso dificilmente geraria capital suficiente para a ENRC usar toda a infraestrutura prevista na proposta original do projeto Pedra de Ferro e, em particular, a construção de um novo porto, o Porto Sul – ainda que fosse compartilhado com outros usuários.

Portanto, é um projeto “acéfalo” como um todo e está condenado, a menos que a BAMIN / ENRC consigam assinar contratos seguros e de grande porte com (ainda não identificados) clientes. Onde, então, a ENRC poderia procurar esses clientes?

O mito da crescente demanda global

Desnecessário dizer que os dois países mais populosos do mundo, China e Índia, embarcaram em um caminho de “desenvolvimento” econômico neoliberal sem precedentes na história, fortemente focado em satisfazer as necessidades pretendidas por uma classe média que cresce de modo veloz.

Subjacente a essa intenção, está um aumento maciço no uso de aço – para a construção de blocos de apartamentos, escritórios, centros de saúde, escolas, bem como todos os tipos de infraestrutura. Como a revista Forbes publicou em maio deste ano:

” A urbanização crescente e a industrialização em grandes mercados como a China e a Índia devem sustentar a demanda por minério de ferro … Como dito por um relatório da McKinsey, a população urbana da China deverá aumentar em cerca de 350 milhões em 2025 e a Índia deverá adicionar 215 milhões à sua população urbana até 2025. Estas tendências na urbanização e industrialização são esperadas para aumentar a demanda por minério de ferro nos próximos anos “[revista Forbes, 19 de maio de 2014].

De acordo com o “statista”, o portal de estatísticas global, a China em 2012 não foi apenas, de longe, o maior importador de minério de ferro transportado por via marítima (que representa cerca de 70% do global, seguido pelo Japão, Europa Ocidental, Coréia do Sul e outros países asiáticos), como permanecerá também assim por pelo menos mais três anos [demanda de minério de ferro transoceânico de 2012 e 2017, statista, acessado em agosto de 2014].

Compreensivelmente, essas projeções otimistas são música para muitos ouvidos – e não menos para aqueles ouvidos ligados às cabeças dos executivos de mineração que aproveitam qualquer oportunidade para alardear essa música.

Mas, se colocarmos essa cacofonia de lado, e prestarmos atenção a alguns analistas mais otimistas e mais bem informados, descobriremos que o “boom” do minério de ferro não é apenas uma ilusão, mas também pode nunca se materializar.

À primeira vista, seus argumentos parecem desnecessariamente alarmistas, se não completamente contraintuitivos.

Os três principais exportadores mundiais de minério de ferro – Vale, Rio Tinto e BHP Billiton – recentemente elevaram a produção de minério de grau superior para níveis sem precedentes. Por que iriam fazer isso, a menos que fossem satisfazer uma necessidade real?

Nenhuma dessas empresas parecem duvidar de que irão encontrar compradores para suas produções a longo prazo. Mas, pelo menos para o presente, as suas preocupações prioritárias são para aumentar os lucros para si, para aumentar o retorno de dividendos para seus acionistas e para alcançar uma posição dominante no mercado global. Esta estratégia de autosserviço não respeita em nada o princípio fundamental de combinar a demanda real do consumidor com a oferta

Na verdade, grande parte do minério que foi comercializado nos últimos meses acabou em estoques, comprados por empresas siderúrgicas, aproveitando os seus preços em queda. Uma grande parte dele está ocioso em navios ancorados ao largo da costa chinesa – na medida em que, em Maio de 2014, o Business Spectator relatou que estoques de minério de ferro nos portos da China atingiram nada menos do que “um recorde de 113,3 milhões de toneladas” [Business Spectator, 29 de maio de 2014]. (Isso é cerca de cinco vezes a quantidade que a BAMIN planeja entregar por ano, com intensidade máxima, a partir de sua mina de Caetité).

Em suma, um mercado já com excesso de oferta está agora inundado com o material. Os preços que estão sendo pagos por ele caíram vertiginosamente. Consequentemente, várias mineradoras de menor qualidade, e com minério de baixo teor (e não só os da China) foram colocadas contra a parede. David Humphreys (por oito anos, o economista-chefe da Rio Tinto) observou em agosto deste ano: “Com os preços do minério de ferro abaixo de US$ 100 por tonelada, uma grande parte da produção em pequena escala do setor privado da China está debaixo d’água … 80 milhões toneladas por ano (mais de 20% do total) poderiam encerrar (as atividades) este ano “[Mining Journal agosto 29, 2014].

Mas esse desgaste não preocupa de forma nenhuma os três grandes produtores de minério de ferro; pelo contrário, eles estão mais do que prontos para entrarem em cena suplantando os fornecedores que falharem.

Ser espectador e especular

Stephen Bartholomeusz, um decano do altamente respeitado Business Spectator da Austrália, tem sido consistente e confiável em suas previsões de mercado em relação ao ano passado. Em 02 de setembro de 2014, ele trouxe uma conclusão preocupante:

“O preço do minério de ferro continua a afundar sob o peso de duas influências reforçantes, e parece provável que nenhuma delas irá diminuir tão cedo”.

“A queda original no preço há dois anos foi devido ao enfraquecimento da demanda da China devido às suas autoridades estarem lutando contra uma economia e setores financeiros super aquecidos”.

“Essa taxa de desaceleração do crescimento da China, que responde por dois terços da demanda de minério de ferro transportado por via marítima, continuou e continuará…”.

“Não há nenhuma razão para acreditar que a China vai recuperar a taxa de dois dígitos de crescimento com as autoridades determinando a busca do crescimento mais estável e de maior qualidade, por isso o lado da demanda na equação do minério de ferro não deve mudar drasticamente em futuro próximo”.

“Como sabemos a partir de relatórios de produção dos principais produtores de minério de ferro”, a sua oferta tem aumentado dramaticamente, e continuará a aumentar dramaticamente enquanto eles visarem volumes mais elevados e menores custos para compensar a queda de preços.

“Os últimos resultados semestrais da Rio Tinto e resultados anuais da BHP Billiton mostram que a estratégia está funcionando … A BHP está visando expandir sua produção ainda mais, a partir de 225 milhões de toneladas por ano para 290 milhões de toneladas, enquanto a Rio Tinto quer elevar sua produção de cerca de 290 milhões de toneladas por ano para 360 milhões de toneladas. A Vale do Brasil está seguindo uma estratégia semelhante.”

Em 2 de setembro de 2014, o preço de uma tonelada de minério de ferro caiu para US$ 80,10.

De acordo com Bartholomeusz:

– “Pode muito bem ir mais para baixo ao longo do próximo ano ou mais, assim que os volumes adicionais entrarem no mercado. A Rio Tinto, a BHP e a Vale não vão estar muito preocupadas, uma vez que as suas bases de custos já estão no extremo inferior da curva de custo do setor e ainda estão reduzindo. Todas as outras, no entanto, vão ficar preocupadas”.

“Os produtores de minério de ferro domésticos da China têm ainda maiores custos e qualidades mais baixas e estariam sob forte pressão das condições atuais”.

Bartholomeusz argumentou que a Vale, a Rio Tinto e a BHP Billiton não estavam apenas tentando reafirmar a superioridade do mercado, mas também tentando atrelar seus clientes a uma dependência recém-negociada:

“Enquanto isso, algumas teorias conspiratórias que foram construídas baseadas nessa política de produção muito maior pelos” três grandes “produtores trans marítimos – há uma visão de que eles querem conduzir os seus concorrentes para fora do mercado, conduzindo os preços para baixo a fim de recuperar o controle do oligopólio sobre o mercado e os seus preços – o que seria uma consequência e não uma motivação. O aumento de volume é a única forma de combater a queda dos preços”.

No entanto, ele concluiu:

“… O grau em que [o mercado] está com super oferta (e, por conseguinte, a pressão contínua para a queda dos preços) só deve aumentar. A pressão sobre os pequenos produtores só pode tornar-se mais aguda, enquanto a Rio, a BHP e a Vale devem continuar a aumentar a sua produção, apesar da demanda mais baixa “[Business Spectator 02 de setembro de 2014].

Apenas três meses antes, o Financial Times fez análise semelhante: “Pela primeira vez em uma década, a oferta de minério de ferro parece destinada a superar a demanda durante um longo período. As preocupações dos investidores sobre a política econômica chinesa de resfriamento e uma repressão por Pequim no financiamento de commodities estão contribuindo para a “vitalidade” do mercado.”

“Os preços caíram 30 % desde o início do ano, para cerca de US$ 95 a tonelada, o que levou as grandes mineradoras e analistas a prever uma reestruturação da indústria de minério de ferro global”.

“Como parte dessa reestruturação, a própria China está cortando a sua produção doméstica de minério de ferro – que é de aproximadamente 350 milhões de toneladas por ano a partir de um grande número de pequenas minas” [Financial Times 04 de junho de 2014].

Uma “alta” seguirá a “baixa”?

É claro que a teoria de “altos e baixos” afirma que a instabilidade do mercado acabará por “se resolver”. Ofertas de comodities aumentam, os preços vão para baixo, os produtores mais fracos saem de cena, e um arranjo mais sensível emerge, em que os compradores assinam contratos com os produtores que refletem uma relação mais equitativa entre eles. Isso já aconteceu em duas ocasiões no mercado de minério de ferro ao longo da última década. Por que não deveria acontecer de novo?

A razão pela qual isso não irá ocorrer é que as prioridades mais abrangentes de Pequim no campo socioeconômico e antipoluição estão visivelmente subindo para uma marcha mais alta, e o regime está implementando o “arrefecimento” do crescimento doméstico em uma escala nunca vista antes”.

Fechar centenas de minas chinesas é relativamente fácil – pode ser feito literalmente durante a noite por ordem do governo (embora outras operações pareçam brotar novamente próximo ao local, apenas para enfrentar tentativas similares para extingui-las).

E o regime chinês tem de lidar com um grande problema social de como proporcionar trabalho para centenas de milhares de trabalhadores que estão sendo colocados para fora de seus postos de trabalho. Como o Business Spectator disse em maio deste ano:

“Algumas minas da China estão localizadas e integradas com siderúrgicas [então] elas não vão ser fechadas, e … pode haver pressões sociais para manter a produção subeconômica.

“Podem ser alguns anos cada vez mais desagradáveis e destrutivos para todos no setor, porque as grandes mineradoras ainda estarão trazendo novas toneladas – e muitas delas – para dentro do mercado até o final desta década”.

“É o grande e contínuo aumento da produção que vem ocorrendo desde 2012 e as mudanças nas políticas econômicas da China (e suas configurações) que sugerem que, desta vez, parece pouco provável que se repita a história de um rápido retorno dos preços.” [Business Spectator 21 de maio de 2014].

Nenhum touro na loja chinesa

Menção de outro fator importante também deve ser feita, em grande parte ignorado pelo resto do mundo, que contribuiu significativamente para a recente demanda aparentemente insaciável da China por minério de ferro, mas que foi simplesmente projetada para se transformar em lucro.

Até recentemente, uma quantidade significativa de ferro e cobre foi utilizada por bancos chineses como garantia para outras transações comerciais. Estes empréstimos foram utilizados principalmente para sustentar o enorme excesso da farra de construção do país, resultando em milhares de apartamentos e prédios de escritórios vazios e indesejados.

Este uso ilegal de “cartas de crédito” [Financial Times 15-16 de março de 2014], sem dúvida, contribuiu para o mercado ilusório destes dois metais, ocasionando uma falsa demanda de 40% dentro da China [mining.com 10 de junho 2014]

Tardiamente, o governo, então, entrou em cena para acabar com este “jogo de minério de ferro” e o preço despencou rapidamente, enquanto os bancos se esforçavam para descarregar seus estoques de minério de ferro [de Business Spectator 14 de junho de 2014].

A mining.com apontou que recuperar o controle fiscal não era o único objetivo do regime ao fazer este movimento: “O minério de ferro foi atingido, porque além da repressão ao crédito, a China também tem como alvo o excesso de capacidade crônica da indústria do aço e do impacto ao meio ambiente como parte de sua “guerra contra a poluição” [mining.com 08 de junho de 2014].

Limites para o crescimento

Algumas pessoas, sem dúvida, continuarão comprometidas com a tese de “modernização”, que prevê a utilização sem precedentes de minerais e metais, especialmente por parte dos Estados que se esforçam para igualarem-se com economias muito mais refinadas da América do Norte, Japão e Europa Ocidental.

É claro que é ingênuo e imprudente acreditar que a fabricação de aço, vai qualquer dia em breve, deixar de ser uma chave – talvez a chave – para formar blocos no cenário de desenvolvimento que está sendo propagado por alguns países da Ásia.

Isto é especialmente verdadeiro no caso desses países – Brasil, Rússia e África do Sul, que se juntaram com a China e a Índia para formar o bloco econômico BRICS e que, em março deste ano, lançou o seu próprio banco de desenvolvimento, semelhante ao BNDES do Brasil . .

Seria temerário pensar que a China, de repente, pudesse romper com o BRICS e dramaticamente reduzir a sua taxa de industrialização. Por outro lado, o país já é o líder mundial na promoção de fontes renováveis de energia, e isso terá um impacto sobre a quantidade e o tipo de matérias-primas que importa, incluindo ferro para fabricação de aço.

Enquanto isso, as empresas chinesas continuam à procura de aquisições de minérios no exterior.

Por exemplo, apenas em julho passado, a maior fabricante de aço da China, a Resources Baosteel, juntamente com um operador ferroviário australiano, Aurizon Holdings, fez uma oferta obrigatória de US$ 7 bilhões pela empresa australiana Aquila Resources Ltd, cuja locação da mina de minério de ferro de Pilbara, na Austrália Ocidental, poderá produzir e exportar 33 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, quando atingida a capacidade máxima [Reuters 09 de julho de 2014].

No entanto, é razoável supor que o forrageamento da China no exterior está agora diminuindo, deixando suas siderúrgicas se basearem apenas em grandes, estabelecidas e confiáveis produtoras de minério de alta qualidade – em especial as três grandes mencionadas anteriormente.

A dança em círculo indiana

A Índia é a “segunda maior nação do mundo em desenvolvimento” e sua população poderá em breve rivalizar, ou mesmo ultrapassar, a de seu vizinho do norte. A maneira pela qual os sucessivos governos (central e estadual) gerenciam a sua própria herança flagrante de poluição industrial e deslocamento de comunidades está em contraste marcante com a adotada recentemente pela China.

De fato, com a eleição de Narendra Modi do partido político de direita BJP, em maio
deste ano, é muito provável que a mineração indiscriminada de muitos materiais aumentará rapidamente, juntamente com as importações.

No entanto, há uma possível exceção a este cenário, decorrentes das conclusões a que chegou a recente comissão do governo. E é baseada na extravagante mineração e exportação de minério de ferro da Índia.

Até recentemente, a produção nacional da Índia desta matéria-prima era suficiente para alimentar a maioria das suas próprias necessidades – na verdade, para justificar a exportação de quantidades significativas. Praticamente todas essas exportações foram destinadas para a China, e os principais portos utilizados estavam situados no “estado de férias” de Goa, apenas uma curta distância de viagem das próprias minas.

Inúmeras denúncias foram feitas ao longo de vários anos, de que a mineração tinha gerado exploração desenfreada e violação de salvaguardas ambientais; e que as empresas tinham forjado inúmeros contratos corruptos, bem como se empenhado em exportações ilegais entre 2008 e 2011.

O governo finalmente entrou em cena para montar um inquérito judicial. Depois de mais de três anos e meio de investigação, a Comissão Shah apresentou o seu relatório final para o governo central, em Julho de 2014, e as suas conclusões foram amplamente aceitas. Até então, todas as minas de minério de ferro em Goa tinham sido fechadas, e muitas outras, no estado de Karnataka.

Embora algumas operações já tenham recebido permissão para reabrirem, vão necessitar de um longo tempo antes de se tornarem produtivas, enquanto a produção de minério de ferro da Índia, provavelmente, nunca mais chegará perto seus números anteriores.

Na verdade, a previsão para as exportações de minério de ferro da Índia durante 2014 é de apenas 22 milhões de toneladas – muito longe do total de 120 milhões de toneladas em 2009 [mining.com 19 de maio de 2014]. Como o site da mining.com apontou: “A indústria de minério de ferro da Índia entrou em colapso em meio a um governo reprimido por corrupção e mineradoras do subcontinente abandonando o mercado de exportação, [deixando] agora dominado pelo minério transoceânico da Austrália, África do Sul e Brasil “[mining.com ibid].

É muito cedo para escrever uma certidão de óbito para o setor de minério de ferro indiano, mas, por vários anos, o país predominantemente irá depender das importações.

Empresas siderúrgicas indianas estão agora ocupadas em tentar “limpar” a maior parte desse excedente global, a que já me referi, e que é largamente explorada pelas três grandes empresas.

Assim, se um aparelhamento muito menor e muito menos ativo, como a BAMIN, acredita que poderá facilmente atender a demanda indiana, seria melhor repensar… É precisamente porque há muito material lá fora, procurando agora por clientes, e o que ela pode oferecer vai parecer insignificante.

A menos, claro, que ela possa fazer negócios que bateriam os preços de outros fornecedores.

Isso poderia ser possível se BAMIN já entregasse 15-20 milhões de toneladas por ano de minério de alto teor e baixo custo, tendo acesso totalmente seguro para toda a infraestrutura necessária para tornar o projeto Pedra de Ferro uma realidade e – crucialmente – tendo também resolvido todas as suas dívidas (ver capítulo II).

Mas a empresa não está nem perto deste ponto. Enquanto isso, outras fornecedoras maiores estão roubando uma liderança enorme.*

Com apenas um único estilingue, o Golias pode ter desferido o golpe fatal sobre o pequeno Davi da Bahia…

* As previsões sobre o futuro da demanda global por ferro também devem explicar o aumento potencial das taxas de reciclagem de “metais globais, a reutilização dos metais, ou a substituição de aço por outros metais – principalmente alumínio. Essas estratégias estão lentamente ganhando terreno, mas não estão sendo examinadas aqui. Obviamente, elas contam com a disponibilidade dos governos e órgãos sociais – não só na China – para implementá-las.



2 responses to “ESPECIALISTA QUESTIONA VIABILIDADE ECONÔMICA DO PORTO SUL

  1. Caro GUSMAO, acredito até em estórias tipo MULA SEM CABEÇA ,na minha impressão, o DAVI da BAHIA foi usado para CASH fraudulentos. A saída, é principalmente MORALIZAR a nova cartilha e desenvolver uma REDE ADVANCED de SIDERÚRGICAS made IN BRAZIL. Parabéns pela qualidade do artigo. CORAGEM . . .

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