AS ELEIÇÕES, O CAPITAL E O TRABALHO

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor Sérgio Ricardo Ribeiro Lima

As desigualdades regionais entre o Nordeste e o Sudeste não são novas; aliás, são seculares.

A capacidade de acumulação de capital criada pela atividade cafeeira no Sudeste do país que, em decorrência da crise de 1929, levou o novo Estado Brasileiro a direcionar tais recursos para a industrialização, promoveu, ao mesmo tempo, o nascimento, a evolução e a consolidação do capitalismo no Brasil, especificamente, no Sudeste (São Paulo).

A burguesia cafeeira aos poucos “cedeu” lugar e poder à burguesia industrial. A força de trabalho escrava é substituída pelo trabalho assalariado. Enquanto isso, o declínio da produção de açúcar no Nordeste levou à prostração da economia e da sociedade nordestinas, ficando confinada durante muito tempo a uma economia de subsistência, como mostrou Celso Furtado.

A região Nordeste, devido à sua estrutura latifundiária, vai formando um exército industrial de reserva (desempregados involuntários) que não encontrava atividade em que se ocupar, nem terra nem recursos para produzir.

À medida que o Sudeste se industrializava e sua sociedade passava a ter um modo de vida urbano, o Nordeste permanecia mais agrícola, rural e atrasado (não industrializado). A essa época, do final do século XIX até metade do século XX, o Nordeste entrará – em relação ao Sudeste – numa relação funcional-capitalista. O Nordeste passaria a um tipo de “desenvolvimento” desigual e combinado. Ou seja, passaria a servir – como vocação agrícola, diziam alguns estudiosos – de fornecedor de alimentos, matérias-primas e força de trabalho para o Sudeste, ao mesmo tempo em que, naquela relação, tornou-se mercado consumidor de produtos manufaturados-industrializados do Sudeste.

Nessa relação de trocas, nesse intercâmbio desigual, haveria transferência de riqueza – transferência de trabalho, mais-valia e, assim, de lucro do Nordeste para o Sudeste. Isto não nega nem vai contra a formação de lucros e acumulação de capital decorrentes de outras formas de relações comerciais, a exemplo das exportações.

Essa transferência se dava de algumas formas: a) através, como já falamos, do intercâmbio desigual de trocas (produtos agrícolas por produtos manufaturados-industrializados); b) migração de trabalhadores/camponeses nordestinos – expulsos das terras – para trabalhar como assalariados no Sudeste; c) e/ou através da transferência de mais-valia do NE para o SE, a partir da exploração da força de trabalho dos nordestinos empregados nas filiais de indústrias do Sudeste, mais recentemente.

Embora o Nordeste tenha se industrializado – como imaginava Celso Furtado -, tenha crescido economicamente, as desigualdades regionais continuavam. Elas não eram apenas econômicas, mas fundamentalmente sociais, políticas, culturais e morais.

O Nordeste industrializado da atualidade continua sendo o Nordeste do trabalho. O Sudeste é o paraíso do capital. Há uma relação de mão-dupla: o trabalho, em nome da sobrevivência, vai ao Sudeste para servir ao capital, e este, por sua vez, vem ao Nordeste para explorar o trabalhador nordestino, como força de trabalho abundante e barata, extorquindo mais-valia e transferindo para o Sudeste na forma de lucro.

Esse ainda é o Nordeste atual, mesmo industrializado. Apenas mudou a natureza e a o grau da desigualdade.

As pesquisas eleitorais e o resultado das eleições foram, no meu ver, a demonstração desses dois lados contraditórios e complementares dessa unidade que é o Brasil. A candidata do PT, vencedora, representou a encarnação do trabalho, da pobreza, enquanto o candidato do PSDB, a encarnação do capital (comercial, industrial, agronegócio, bancário), da elite burguesa (e daqueles que se personificam burgueses ou anseiam fazer parte dela sem o sê-lo, apenas cooptados).

A candidata do PT representou o fortalecimento do Estado através das políticas sociais e de defesa relativa do trabalho; o candidato do PSDB, pela história do partido na presidência nos anos 1990 e início de 2000, que privilegiou o mercado – na época das políticas neoliberais/globalização -, através das privatizações dos bens públicos.

As diferenças políticas, sociais, econômicas e culturais sintetizam-se naquela única que, por um lado, caracteriza o trabalho e, por outro lado, caracteriza o capital; o pobre e atrasado e o rico e opulento.

Não há desenvolvimento sem subdesenvolvimento. Não há pobreza em si; a existência desta tem como contraponto a sua face inversa, a riqueza. Não há capitalista sem trabalhador, assim como não há assalariado sem patrão. Pelo menos nesse sistema que vivemos.

As críticas, insultos e preconceitos nas redes sociais após a eleição vão para além das desigualdades econômicas: encarnam os preconceitos sociais, culturais e morais.

Esta interpretação histórica não tem nenhuma intenção de esgotar em si a natureza das desigualdades regionais. É apenas uma interpretação. Todas as idéias expostas aqui são única e exclusivamente de responsabilidade do autor

Sérgio Ricardo Ribeiro Lima é Professor de Economia da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). 



One response to “AS ELEIÇÕES, O CAPITAL E O TRABALHO

  1. Parabéns professor pelo bom texto; visão, clareza e simplicidade argumentativa. Pra mim que vivenciei todos os governos a partir da abertura política ele resumiu-se a um belo desenho…
    Hábraços

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