MUJICA FALA SOBRE ABORTO, MACONHA E TORTURA

José Mujica. Imagem: TV Araj.
José Mujica. Imagem: TV Araj.

O presidente do Uruguai, José Alberto Mujica Cordano, 79 anos, está na reta final do seu mandato. A legislação do país não permite reeleição consecutiva. A Frente Ampla, coalizão de esquerda a que pertence “Pepe Mujica”, deve permanecer no comando da presidência com a volta de Tabaré Vázques na eleição desse domingo, 30.

Desde 2005, quando a Frente Ampla assumiu o poder, o número de uruguaios pobres caiu 28%. Nos últimos dois anos, sob o comando de Mujica, o Uruguai descriminalizou o aborto e legalizou a produção e o consumo de maconha.

Mujica concedeu entrevista à Folha de S. Paulo. Na conversa com a repórter Sylvia Colombo, o presidente explica que o governo uruguaio “não gosta de maconha” nem defende o aborto. Legalizar o consumo da planta foi a maneira que o Estado encontrou para desestabilizar o narcotráfico e superar o fracasso do modelo repressivo de combate às drogas.

Ao contrário do que o discurso conservador argumenta, explica Mujica, a legalização do aborto é um gesto em defesa da vida. Milhares de mulheres morrem todos os anos em clínicas clandestinas. O Uruguai realizou 6.676 abortos seguros no primeiro ano de vigor da nova lei (2012-2013): nenhuma paciente morreu.

Na entrevista, Mujica também fala do seu modo de vida simples e da relação que estabelece com as “coisas que não podemos esquecer”, como as lembranças da tortura. O ex-guerrilheiro tupamaro foi preso e torturado pela ditadura uruguaia. Leia.

Folha – Como avalia a implementação da lei da maconha no Uruguai?

José “Pepe” Mujica – Nós não gostamos da maconha nem de nenhum vício. Mas pior que a maconha é o narcotráfico. O que está acontecendo é que, pela via repressiva, o narcotráfico está se matando de rir. Cada vez se trafica mais, se gasta mais dinheiro em polícia, em colocar gente nas prisões. Estamos cultivando uma esplêndida derrota.

Todos os governos da América Latina, desde esse ponto de vista, parecemos estados falidos. Cada vez armamos aparatos maiores para reprimir, cada vez temos mais gente presa, e cada vez há mais tráfico de drogas!

Nós queremos achar um outro caminho. Se você quer mudar, não pode seguir fazendo a mesma coisa, tem que buscar outra maneira. Eu não sei por que o mundo não vê o que está acontecendo, parece que colocamos uma venda sobre os olhos, como se a droga fosse uma coisa feia que não se pode mencionar.

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FUNCIONÁRIOS ELEITOS

Imagem do filme "Modern Times", dirigido e protagonizado por Chaplin.
Imagem do filme “Tempos modernos”, dirigido e protagonizado por Chaplin.

Por Thiago Dias

Acabei de descobri essa expressão maravilhosa: funcionários eleitos. Vi em um excelente material didático sobre políticas públicas.

Funcionários eleitos dividem-se em duas categorias: membros do Executivo e do Legislativo, diz o texto. Para a linguagem da administração, os agentes políticos (quem diria?) também respondem ao departamento de recursos humanos.

Funcionários eleitos – não paro de repetir. A expressão reflete o esforço do discurso positivista para representar a sociedade como organismo: as funções do corpo social. Não só. Além de biológica, a metáfora é maquínica (biomecânica?), pois o funcionário funciona como peça de um encadeamento complexo de desígnios e respostas (quase sempre protocolares).

Que ousadia! O vocabulário da administração reduz os pomposos agentes políticos a meros funcionários eleitos. Daqui a pouco chamaremos executivos e parlamentares de material humano. Será que as divindades do Judiciário escapam à sociologia funcionalista?

Desolado após a surpresa, lembro: os funcionários eleitos sempre agem como patrões.

Thiago Dias é repórter do Blog do Gusmão.