CARTA DE AMOR: O ROMANCE DE LAUDELINO MENDONÇA E “MENININHA”

Imagem do livro "Pontal: o passado e o presente", de José Rezende Mendonça.
Imagem do livro “Pontal: o passado e o presente”, de José Rezende Mendonça.

Por José Henrique Abobreira

Vindo de Sergipe, o navio da Bahiana apitou na entrada da barra do Pontal protegida pelas cabeças do búfalo bifronte. De um lado, o Morro de Pernambuco; do outro, o Alto de São Sebastião ou Morro do Unhão, cantado pelo poeta belmontense e filho adotivo de Ilhéus, Sosígenes Costa. 

Os olhos do viajante já avistavam os casebres dos pescadores do Pontal alinhados naquela curva sinuosa da baía. Essa mesma paisagem seria depois objeto da narrativa de dois outros gigantes da literatura grapiúna, Jorge Amado (em Terras do Sem Fim) e Adonias Filho (em Luanda Beira Bahia). Mal imaginava ele, o viajante, que aquele seria o seu pouso e a construção de uma nova etapa grandiosa de sua existência. E que ali conheceria seu grande amor, a mulher que lhe daria uma prole grandiosa e ajudaria a construir um império econômico, graças ao trabalho profícuo dos dois desde quando se conheceram.

Laudelino Mendonça, saído das bandas de Sergipe, saltou do navio no cais da foz do Rio Cachoeira. Seus olhos quedaram, maravilhados, ante aquela barafunda de gente, como formigas, na azáfama da faina portuária do ir e vir de estivadores, no embarque do cacau nos navios. Viera, não fugindo da seca braba, como a maioria dos retirantes sergipanos viria em busca de uma vida melhor mediante um emprego nas roças de cacau, e quem sabe, ter um pedacinho de chão que fosse seu para plantar a árvore do fruto de ouro. Viera a Ilhéus por outro motivo: a sua genitora, devido aos 17 anos de Laudelino, temia que ele fosse convocado para a guerra que o Brasil travava nos campos de batalha da Europa, pois outro filho fora enviado para o combate no velho mundo.

Ao perceber aquele fervilhar de trabalhadores no cais, Laudelino teve um forte pressentimento: ali estava a possibilidade de enriquecer. Trabalho para um sertanejo como ele não era novidade.

O sangue de mascate, de comerciante acostumado nas lides do comércio, fez com que sua pele se arrepiasse, na constatação verdadeira de que ali estava o futuro dos seus negócios.

Com sua mãe, já instalado no Pontal, num casebre da rua da frente junto à aldeia dos pescadores, iniciou os negócios no comércio. Ela, numa quitanda, vendia bananas, coco, dendê e farinha aos pescadores. Ele, com uma carroça, negociava os produtos de porta em porta.

Os negócios cresceram e Laudelino instalou seu novo ponto comercial na esquina da Rua 13 de Maio com a antiga Sete de setembro (hoje Rua Hermínio Ramos).

A ESQUINA DO MUNDO – Assim aflora a imagem na memória do menino que fui no Pontal. Naquela época, ao passar pelo grande armazém de Laudelino, sentia que ali desaguavam todos os caminhos, ramais e recantos. Todas as gentes do mundo, de Olivença, Serra das Trempes, Acuípe, Jahiry, Canabrava, Búzios, Santo Antonio, Rio de Engenho, Repartimento e todo o povo da zona sul continental. Animais de carga amarrados nos mourões trazendo carvão, caminhões de frete a desembarcar farinha, cargas de piaçava e latas de querosene. E a embarcar de volta mercadorias, gêneros alimentícios, utensílios domésticos, panelas, fifós, vassouras, cortes de panos e instrumentos para a faina nas roças-facões, pás, enxadas, cavadores, picaretas e machados.

Quis o destino que nessa esquina do mundo surgisse o amor, o romance maior entre duas pessoas, Laudelino e Menininha (assim a chamavam pela sua estatura física menor, pequena no tamanho, mas grande no amor e na ajuda ao marido). Eles se amaram até a morte trágica de Laudelino. Ela também vinda de Sergipe e com a mesma idade dele, contudo, só se conheceram aqui.

Deu-se que Maria Amélia, viúva aos 22 anos, moça bonita e herdeira de léguas de terra, bens e dinheiro, transitava justamente naquele pedaço, em busca de um tratamento dentário num consultório do protético.

Laudelino começou a reparar naquela moça bonita, de comportamento recatado para uma pessoa tão jovem. Sua velha mãe insinuou: “Já está na hora, meu filho, de assentar esse juízo e largar de aventuras com mulheres que nada lhe acrescentam. Por que não pede a viúva pra namoro e casamento? Tu não assuntou no bom comportamento dela, menina moça, mas preservando o luto do falecido até hoje? É mulher de respeito e porá freio e ordem na sua vida”.

O comerciante, exímio nas artes das contas de aritmética (usava um lápis preso na orelha direita e uma folha de papel de embrulho para lançar e somar o valor das compras e ainda tirava a prova dos “9”), tinha um ponto fraco. Por ter empenhado uma vida inteira nas lides para ganhar o pão de cada dia, desde menino, não tivera tempo de estudar.

A vida era mais dura naquele tempo.

Laudelino não sabia como se declarar para uma viúva tão recatada. O destino mais uma vez providenciou a solução. Um grande amigo, mascate como ele, no ramo de vendedor de ouro (Laudelino tinha fascínio pelo ouro, nos conta Zé Rezende, seu filho mais velho, no livro de histórias sobre o Pontal). Chico Marreco era estudado e escrevia bem. Pediu-lhe então que fizesse uma cartinha bem romântica para ele assinar e mandar para Menininha, propondo um encontro nesses termos de grande ternura e admiração:

“Pontal, 13 de junho de 1948.

Prezada Menininha,

Tenho acompanhado de perto seu trajeto de sua moradia para o protético, aqui na Rua 13 de Maio, e sempre na volta para seu lar, é que me faz lhe admirar muito mais. Não sei se estou sendo indelicado com a sua pessoa, mas foi através do amigo Chico Marreco, que me deu forças, para lhe dizer o quanto lhe admiro.

Com viuvez muito jovem, tenho que admirar o seu proceder, a sua seriedade e porque não dizer a sua simpatia. Desculpe, se estou sendo muito afoito, mas é da minha origem sergipana, onde somos criados na labuta para sobreviver e fazemos deste estilo nosso ideal de vida.

Não quero mentir pra senhora, o amigo Chico Marreco, além de me dá forças é quem escreve estas poucas linhas, em razão d’eu não ter leitura. Malmente assino meu nome, agora na aritmética, sou mais adiantado, já meu amigo frequentou os bancos da escola.

Nessas entrelinhas escritas, que são ditadas, por este seu criado, ao meu amigo estudado; gostaria de lhe dizer que se não for muita pretensão minha, quero lhe encontrar amanhã na sua saída do protético, aqui mesmo na esquina da Rua 13 de Maio com a Rua Sete de Setembro. Quero lhe dizer pessoalmente a minha admiração por tão jovem viúva.

Na esperança de merecer seu crédito com minhas humildes palavras, devido ao amor que já permeia dentro desse sergipano, quem sabe um dia eu não possa merecer a sua atenção mais apurada.

Atenciosamente

Laudelino Mendonça”

Assim começou, amigas e amigos, esse romance que gerou a construção de um império econômico e um grande poderio político. Todos os pretendentes a um cargo eletivo tinham que “beijar a mão” e ter um dedo de prosa com o comerciante. Ele tinha enorme ascendência sobre os eleitores do bairro pontalense e maior ainda junto aos moradores da zona sul rural, até os limites dos municípios de Una e Buerarema.

Laudelino Mendonça multiplicou seus bens e os herdados por Menininha, devido à sua grande visão de negociante e pertinácia na arte do comércio. Essa grande união foi celebrada depois com a vinda de frutos generosos, uma prole de 9 filhos. O mais velho deles, o nosso amigo José Rezende Mendonça, escritor maior de Ilhéus e cronista dos melhores tempos idos e atuais momentos do nosso querido bairro do Pontal, pedaço de chão que nos viu nascer e decerto será também a mesma terra generosa para com os nossos filhos e netos.

E DAMOS VIVA AO AMOR!

José Henrique Abobreira é auditor da receita estadual. Foi vereador e vice-prefeito de Ilhéus.



5 responses to “CARTA DE AMOR: O ROMANCE DE LAUDELINO MENDONÇA E “MENININHA”

  1. Foi com muita ansiedade que esperei este relato do amigo Abobreira, resultante de uma conversa que tivemos durante uma viagem de fim de semana para Canvieiras.

    Ansiedade porque queria eu, ver dito por outra pessoa aquela carta que li, aos meus 13 anos mais ou menos, quando numa limpeza da papelada, que ficava num cofre daqueles das antigas, onde meu pai guardava tudo que era de valor. Mas, sem a mínima noção de uma carta desta natureza, rasguei junto com outros papéis das roças e contratos com empregados já nulos.

    A minha maior alegria foi ver que o amigo abobreira, deslanchar com um texto pra escritor nenhum botar defeito. Sabia eu, de sua facilidade na oratória, mas apesar de já ter lido, aqui mesmo no Blog do Gusmão, suas narrativas, que estão na sua memória, não imaginava que uma coisa contada sem gravação, ou escrita qualquer, o levasse a tão expressiva fidelidade dos fatos narrados.

    Foi sem dúvida uma das maiores alegria da minha vida, ao ler pausadamente todo o texto, e aproveito para agradecer a este grande amigo, por este relato que agora sim, vai ser divulgado com a família e guardado com todo carinho tanto na minha memória, como em arquivos digitais.

    Zé, só uma ressalva: eu não sou escritor, apenas um contador de histórias deste nosso grandioso bairro do Pontal, que não sai da minha memória, tudo que ocorreu entre minha infância e adolescência.

    OBRIGADO Mesmo
    Rezende

  2. A epopeia de um sertanejo, antes de tudo, um forte; seus embates pela vida; sua ética nos negócio, seu empreendedorismo aguerrido e pertinaz; sua musa e paixão pela família, que nos legou probos cidadãos. Uma vida pelo bem e um admirável ambientalista com olhar firme sobre o futuro dos anônimos que viriam depois dele. Uma narrativa brilhantemente romanceada nesta crônica que nos concedes o prazer e, que nos traz saudades. Sua narrativa fez com que a minha memória olfativa me fizesse sentir de novo o perfume do Pontal de outrora. Hoje o Pontal tem o cheiro das megalópoles.
    Parabéns, amigo Abobreira. Você ainda tem muito a escrever sobre suas gratas memórias. Adorei seu artigo. Viajei ao passado, quase esquecido.

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