A MORTE DO AMIGO LUIS EDUARDO PRECIPITOU O CALVÁRIO DE JABES RIBEIRO.

Luis Eduardo Magalhães (falecido em abril de 1998) e Jabes Ribeiro.
Luis Eduardo Magalhães (falecido em abril de 1998) e Jabes Ribeiro.
Abobreira.
Abobreira.

Por José Henrique Abobreira

Em primeiro lugar quero esclarecer aos meus leitores que nesse relato não tenho a intenção de jogar pedras, nem sou movido por qualquer ressentimento passado na minha relação política  com Jabes. Até porque a política é assim mesmo, junta e aproxima, depois afasta e separa numa dinâmica própria dos acontecimentos. É um processo. Nesses últimos tempos, Jabes e eu estivemos em campos opostos, mas sempre administramos as divergências sem perdermos de vista o respeito pessoal, o espírito público e os interesses maiores da sociedade. Tanto foi assim, que nos reaproximamos politicamente em 2012, nas eleições municipais, em prol da reorganização de Ilhéus que fora devastada pelo tsunami Valderico/Newton Lima. Na montagem do novo governo, Jabes convidou-me para ocupar uma secretaria municipal, mas, recusei por razões de saúde.

Mas vamos aos fatos que testemunhei presencialmente durante a campanha de 1996, quando Jabes e eu vencemos as eleições de prefeito e vice, e, depois de eleitos, no governo. Vejo um filme passando no sentido inverso, me permitindo resgatar aqueles momentos históricos.

Ainda na campanha, Nelson Simões (liderança do PT ilheense nos anos 80 e 90) me alertara, dizendo que nos comícios somente eu batia em ACM. Ele achava que Jabes tangenciava o tema. Postura estranha para um candidato de oposição ao governo estadual. Na véspera da eleição, um fato não se encaixou bem na minha mente. No comitê eleitoral da campanha recebemos a visita do coronel designado pelo governador para o comando da segurança do pleito na região. ACM e seus seguidores não permitiam esses arroubos de cortesia para com os adversários.

Já no governo, o pessoal do PT vivia a repassar mensagens de deputados da legenda em Brasília, de que Jabes era figura carimbada no gabinete do deputado Luis Eduardo Magalhães, sempre que ia a Brasília tratar de assuntos do interesse da municipalidade. Eu não ligava muito para essas notícias que pretendiam me alarmar, pois o meu foco era concentrado no trabalho de organização das forças produtivas e na arregimentação dos trabalhadores em organizações associativistas, principalmente na zona rural, mas também na cidade. As minhas ações no governo seguiam as resoluções Internas aprovadas nos sucessivos congressos nacionais do PT. O êxito alcançado por esse trabalho foi objeto de editorial de primeira página numa das edições do jornal “A REGIÃO”, com a matéria intitulada “PT-PURO TRABALHO”, elogiando o meu desempenho e os projetos em favor dos trabalhadores.

Voltando a Jabes e Luis Eduardo, o bom relacionamento entre os dois, mesmo em campos opostos, foi admitido por Jabes em conversas comigo. Os dois foram colegas parlamentares por quatro anos.

Segundo Jabes havia uma conjunção de fatores políticos muito favoráveis a colocar Ilhéus num plano mais vantajoso para receber obras de porte, convênios e recursos, já que o presidente FHC era seu correligionário do PSDB (Jabes tinha sido seu vice-líder na Câmara de Deputados e com isso tinha projeção nacional dentro do partido). Luis Eduardo era o virtual candidato a governador da Bahia em 98. Existia no plano nacional a aliança PSDB /PFL e iriam repeti-la na Bahia, com projeção para Luis Eduardo ser indicado o sucessor de FHC na eleição presidencial de 2002. Residia aí toda a condição objetiva para uma parceria política futura, sem esquecer a condição subjetiva que deve ter sido tratada nos bastidores entre Luis Eduardo e JR, na direção de uma possível candidatura de Jabes ao Senado ou numa chapa como vice-governador.

Mas o destino, cruel, ceifou a vida do jovem deputado Luis Eduardo em abril de 1998. Começa aí o calvário político de JR. Com ACM a toada era outra. O velho cacique não respeitava adversários e muito menos correligionários. Todos, sem exceção, que por contingência da atuação política em campo adversário, tiveram que se alinhar com a política dele, tiveram o brilho apagado. A história da Bahia mostra isso nos exemplos de Pedral Sampaio e Henrique Cardoso,  que pagaram um alto tributo por se renderem ao déspota esclarecido.

Numa solenidade no Teatro Municipal de Ilhéus, dia da cidade, com presença da alta cúpula do PFL estadual, com ACM em prantos devido às homenagens prestadas ao filho morto, da tribuna o velho disparou palavras apontando para Jabes:”todos os acordos políticos feitos pelo meu filho, com o senhor, eu e o César[Borges, governador eleito em 1998] nós temos cumprido fielmente e continuaremos a honrar algum item que esteja a faltar. Agora cumpra a sua parte prefeito Jabes”. A sentença estava dada, Jabes estava intimado  a ir para o PFL, cujas forças lutara contra toda uma vida.

E aí veio a sucessão de trombadas que sofreu, com Paulo Souto eleito governador, fazendo Ilhéus passar a pão e água.  Em  2000, sem autonomia para montar a sua chapa à reeleição, Jabes teve que  engolir um nome  do PTB, o de Ângela Sousa, como sua vice. Com o passar dos tempos, Ângela se constituiu não só em sua adversária, como também, na inimiga número um de Jabes Ribeiro.

José Henrique Abobreira é auditor da receita estadual e articulista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus. 



3 responses to “A MORTE DO AMIGO LUIS EDUARDO PRECIPITOU O CALVÁRIO DE JABES RIBEIRO.

  1. Caro Abobreira,

    não lembro deste editorial, que deve ter sido bem anterior a 1998, quando assumi o jornal A Região, até porque jamais faria um editorial com este título (foge do estilo de A Região).

    Além do mais, nunca publicamos editorial em primeira página. O editorial sempre foi publicado na página 2. Seria interessante, até para arquivo, voce me passar o número da edição para eu resgatar o texto.

    Abraços

  2. Sou um leitor contumaz das suas crônicas, Abobreira. Relembrar o passado nos traz gostosas lembranças daquilo que se foi. Belíssimos artigos, que muito bem poderiam ser compilados em um livro. Ansioso pelo próximo. Um abraço.

  3. Marcel não lembro da data exata mas com certeza deve ter sido em junho ou julho de 1998 e realmente foi na pág. interna lembrei, mas confirmo o título exatamente este PT PURO TRABALHO.
    Não poderei dizer o nº da edição pois puxo esses acontecimentos puramente confiando na memória,por isso às vezes eu cometer alguma imprecisão, mas solicito do amigo Marcel a possibilidade de eu ter acesso aos arquivos desse renomado semanário para não só localizar a matéria em foco como também fazer um resgate da memória do meu trabalho como vereador e como vice prefeito e titular da Secretaria Municipal no período de 1993 a 2000 que foi plenamente publicizado por A Região.
    Abração.

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