CORONEL DE SAIAS

abobreira artigoPor José Henrique Abobreira/Coluna “Folclore político”

O rio só corre pro mar. Da mesma forma um mandato eletivo bem exercido. Nele deságuam os pedidos de providências e pronta intervenção do político nos casos de injustiça, atos arbitrários e maus tratos à população cometidos por autoridades sem temperança e alheias à postura democrática. Em 1992 a região colheu uma boa safra de vereadores eleitos e que tinham o desiderato verdadeiro de servir à sociedade.

Em Ilhéus Bebeto Galvão e Abobreira, em Itabuna Davidson Magalhães, éramos parlamentares afeitos à luta popular, cujos mandatos transcendiam as fronteiras desses municípios. Todas as frentes de batalha surgidas na região… lá estávamos nós na trincheira do combate, pela reforma agrária, em defesa das minorias indígenas, movimentos dos trabalhadores rurais e urbanos, dos estudantes e pela quebra do monopólio do transporte coletivo. Numa cidade próxima, aqui na região, houve uma agressão descabida a um vereador combativo, o colega Itatelino, de oposição à prefeita local.

Fora desacatado e agredido, na via pública, por prepostos e correligionários da prefeita local.

Fomos chamados a participar de uma sessão especial no legislativo daquela cidade. Seria um ato de desagravo e solidariedade ao vereador atacado pelas forças governistas.

No dia e hora aprazados comparecemos à sessão histórica na sede do legislativo municipal, situado num casarão e cujo plenário funcionava no andar térreo, cercado de janelas.

Ao adentrarmos o recinto, vislumbrei a cena montada e aí me preocupei: os janelões apinhados de correligionários da prefeita e com caras de poucos amigos. Já tomei assento preocupado com a logística, pois verifiquei, eu estava na linha de tiro. Mesmo que não houvesse uma tentativa de agressão violenta (os ânimos da turma estavam propensos a um estado de exaltação), imagina a decepção: um vereador combativo e leal ao povo, levar uma buchada de bagaço de laranja chupada e com areia no meio da cara, com o mel da fruta escorrendo pela face. A fruta seria arremessada como projétil por algum popular insatisfeito do lado de fora do recinto. No caso de uma desmoralização dessa melhor pedir pra morrer (risos).

Começa a sessão pelo presidente da casa, depois fala o vereador ofendido e aí já começou a balbúrdia da turma postada nas janelas. Gritos, xingamentos, vaias e o chamamento: “saia daí, seu safado, para ver o que é bom pra tosse!”, coisas assim. Os visitantes, constrangidos diante de tamanha pressão, tiveram medo que o ato descambasse para a invasão do recinto.

Quem tá na chuva é pra se molhar, já diziam os filósofos de botequim. Combinamos que o certo seria realizar o enfrentamento verbal (o mandato eletivo nos dá essa coragem nessas horas – risos).

Chamado à tribuna, solidarizei-me com o colega Itatelino e fui além dizendo que era inadmissível aquele comportamento arbitrário, violento e que o legislativo e da mesma forma o colega agredido não poderiam deixar ficar sujeitos os atos arbitrários da prefeita – um coronel de saias dos tempos dos anos de chumbo. Rapaz, vou lhe contar, ali o mundo veio abaixo.

A galera lá fora caiu em mim de vaias, assobios, e disse: “Sai pra apanhar, seu  c… amarelo”. Minha mãe, coitada, ficou com as orelhas ardendo: fui xingado até a quinta geração.

Bebeto e Davidson arremataram a confusão com discursos duros na mesma linha. O caldo entornou. Tumulto generalizado. Os apoiadores da prefeita tentaram invadir o plenário para “pegar a gente na unha”. Confusão dos infernos. O presidente da Câmara encerrou a sessão e acionou o policiamento ostensivo para conter aquela gente ensandecida. Deixamos a Casa de Leis escoltados pela PM.  

Medo eu senti, mas fui compensado. Ao embarcar no carro fui puxado por um ex-companheiro de luta sindical de meu pai. Ele me reconheceu e falou: “O velho Abobreira viu tudo lá de cima e está orgulhoso da semente que deixou plantada aqui na terra: o filho é um macho lutador e valente na política igual a ele”.

Aí foi a glória total!

José Henrique Abobreira é auditor da receita estadual e articulista do Blog do Gusmão. Foi vereador e vice-prefeito de Ilhéus.



One response to “CORONEL DE SAIAS

  1. Infelizmente, caro Abobreira, hoje o que vemos são dois “deputados” Federais com campanhas milionárias, com $$$ duvidoso, um da BAHIAGAS outro do Sindicato. Campanhas dignas dos áureos tempos de ACM, comprando vereadores e cabos eleitorais. Os Vereadores combativos se tornaram Deputados Inertes com o desmando e a roubalheira do Governo Federal ou seja são hoje SÃO PARTES DO SISTEMA…….

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