PORTO SUL: OBRAS PODEM DEIXAR ASSENTAMENTO SEM ÁGUA

Agricultores do Assentamento Bom Gosto temem que construção de rodovia soterre as nascentes de água que abastecem a região de itariri, na zona norte de Ilhéus. Imagens: Thiago Dias/Blog do Gusmão.
Agricultores temem que construção de rodovia soterre nascentes que abastecem a região de itariri, na zona norte de Ilhéus. Imagens: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

Reportagem: Thiago Dias

O Blog do Gusmão visitou o Assentamento Bom Gosto, em Itariri, zona rural de Ilhéus, na última sexta-feira (6). Conversamos com os assentados sobre os impactos dos projetos da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e do Porto Sul. O primeiro impacto é psicológico. A preocupação domina os semblantes dos nossos anfitriões. Eles afirmam que o governo estadual autorizou a construção de uma estrada sobre nascentes de água da região.

Elizeu Teles afirma que mais de seiscentas famílias serão prejudicas, se a rodovia for construída sobre as nascentes.
Elizeu Teles afirma que mais de seiscentas famílias serão prejudicas, se a rodovia for construída sobre as nascentes.

Segundo Elizeu Teles, se a rodovia for construída, todo o distrito pode ficar sem água. “São seiscentas e tantas famílias só em Itariri. Tiramos nosso sustento da terra. Se não tiver água, como é que a gente vai produzir?”

A agricultora Maria
A agricultora Maria Izaudete vive com os dois filhos no assentamento desde 2006.

Dona Maria Izaudete tem dois filhos e vive no assentamento desde 2006. Todos trabalham no pequeno lote da família. Produzem diversas frutas, inclusive cacau. Ela nos mostrou a barcaça que usa para secar as amêndoas do fruto que deu nome à região cacaueira. Eles também não poderão mais produzir, se as nascentes de água forem soterradas pela construção da estrada.

Adeílson
Adeílson Ribeiro.

Na semana passada os assentados participaram de um intercâmbio com outras comunidades atingidas por Bahia Mineração e  FIOL. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) organizou o encontro. A Bamin pretende construir uma barragem de rejeito de minério no vale onde estão as nascentes que abastecem três mil famílias do município de Pindaí, oeste baiano. “O problema lá passou até no Jornal Nacional”, comenta Adeílson Ribeiro, que mora no Assentamento Bom Gosto desde 1999, data de sua fundação.

No intercâmbio, Adeílson ficou  impressionado com a repetição dos problemas enfrentados pelos povoados que estão no caminho de FIOL e Bamin. Quase todas as comunidades sofrem com a poluição gerada pelo minério de ferro ou com a falta de água potável. 

O Assentamento Bom Gosto está dentro da área que seria ocupada pela poligonal do projeto Porto Sul. A resistência dos assentados forçou os empreendedores a diminuir o terreno onde eles pretendem instalar os equipamentos de apoio do terminal portuário. Isso evitou a realocação da comunidade.

A família de João Ferreira não teve a mesma sorte. A propriedade da mãe dele fica fora do assentamento e dentro do território considerado “de utilidade pública para fins de desapropriação” pelo governo estadual. Eles ainda não receberam um centavo de indenização, no entanto, não podem mais produzir na terra. Até a casa de farinha foi desativada. “Estou fazendo minha farinha com a ajuda do vizinho. Se não fosse o pessoal do assentamento, eu não teria como sustentar meus nove filhos”, explica o agricultor.

João não aceitou os dez mil reais que o governo estadual ofereceu pela desapropriação da sua terra.
João não aceitou os dez mil reais que o governo estadual ofereceu pela desapropriação da sua terra.

João se alterou ao falar sobre o encontro que teve com representantes da Casa Civil na véspera da nossa conversa. Segundo ele, o governo quer pagar apenas dez mil reais pela desapropriação da terra. A família acredita que a propriedade vale R$ 100 mil. 

Em setembro de 2011, João Ferreira concedeu entrevista marcante ao comunicólogo Emílio Gusmão, editor deste blog. Naquela época o agricultor já se posicionava de forma veemente contra o projeto Porto Sul. Vale a pena assistir (veja aqui).

Jorge Luiz conversa com moradores do Assentamento Bom Gosto.
Jorge Luiz conversa com moradores do Assentamento Bom Gosto.

Marrom de Ilhéus, Osvaldo e Jorge Luiz, militantes do PSOL, nos acompanharam na visita ao assentamento. Jorge refletiu sobre a contradição exposta pelo impasse entre os assentados e o governo. “Vivemos uma crise hídrica, todo mundo está preocupado em conservar as nascentes e o governo apoia uma obra que vai soterrá-las. Não faz sentido”.



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