CALMA GENTE! ILHÉUS AINDA É NOSSA!

"Proibido jogar lixo", diz mensagem no muro. Imagem: Mohammad Jamal.
“Proibido jogar lixo”, diz mensagem no muro. Imagem: Mohammad Jamal.

Por Mohammad Jamal

Calma gente! Ilhéus ainda é nossa, ou pelo menos o que sobrou dela ainda nos pertence! Não vamos misturar alhos com bugalhos, tampouco confundir, como acontece às vezes com assessores de comunicação, desatentos, confundir imobiliário com mobiliários e utensílios. Ilhéus está aí, vivinha da Silva com suas belezas naturais quase intocadas pelas mãos destruidoras dos homens.

Peço calma à população, principalmente àqueles cuja paciência já extrapolou todos os limites do sensato racional. A linguagem concretista que explicita sentimentos de repulsa e indignação através à exacerbação da intolerância, culmina em atos de brutal irracionalidade contra os nossos bens públicos. E muito mais danoso e prejudicial a todos, quando o cidadão explicita sua revolta e indignação via depredação do bem público, como forma de protesto.

Destruir o pouco que ainda subsiste a duras penas no patrimônio da cidade e suas mínimas benfeitorias nos transparecem atos suissídicos com evidente sentido sado masoquistas e de autoflagelação! Devemos sofrer mais ao nos privarmos das raríssimas benfeitorias urbanas, mesmo que elementares, a partir da destruição raivosa daquilo que foi construído à custa do nosso próprio dinheirinho suado, a duras penas? Claro que não! Sejamos minimamente sensatos. 

De certa forma, há alguns atenuantes para tamanha irritação; claro. Trinta e seis meses e treze dias são transcorridos sob o atual governo, e nada do mínimo que esperávamos foi concretizado em benefício da cidade e/ou sua população! E isso tudo, “não obstante uma equipe de governo elogiada por todos como sendo de excelente perfil técnico, operacional e empreendedorismo evidente”. Um primor, para alguns! De minha parte, não vejo assim, tão maravilhosamente satisfatória. Homens bem pagos deveriam corresponder à remuneração com a contrapartida do trabalho proficiente com resultados perceptíveis. Não vi nada disso. Mas esse “trabalho” pode estar oculto pelos desígnios míticos das estratégias políticas modernas, sabe-se lá! Eu asseguro que não enxergo nada através esses “desígnios”. Pra mim está ruim mesmo.

Exemplarmente, acompanhei par e passo o sofrimento, a agonia e a morte de um bem público, educativo-normativo; desde sua instalação até morte, coberta por lixo, apedrejada e queimada com requintes de autocrueldade do povo – o bem era coletivo, nosso. Bem aqui, quase ao sopé da Ladeira da Tapera – acesso via Av. Itabuna – uma placa, pequeno outdoor, avisava: “PROIBIDO JOGAR LIXO AQUI – SUJEITO A MULTA” e mais alguns acréscimos orientadores sobre os procedimentos com o lixo.

Não se pode negar que há entre o povo um grande sentimento de revolta e decepção com a administração pública de Ilhéus em todos os seguimentos. Serviços públicos, educação, transporte, saúde, assistência social, coleta de lixo, etc. continuam como pontos nevrálgicos da insatisfação pública. Além disso, a cidade definha junto com a crise recessiva que assola o país, sem geração de empregos, sem nenhum projeto relevante ou simples benfeitorias em bens urbanos, ruas, canais de esgotamento, praças, encostas e áreas que sofreram deslizamento de terra, casas destruídas pelas enxurradas, etc.

É sabido por todos que a maioria das cidades brasileiras está enfrentando graves problemas orçamentários e financeiros em razão da acentuada queda na arrecadação e por falta de repasses de verbas dos estados e, da federação, que se perdeu lá atrás no controle e aplicação correta das finanças publicas e à substancial roubalheira de bilhões de Dólares que assola endemicamente nosso país. Mas o povo brasileiro, resignadamente pacífico, crédulo e de boa fé, vai matando no peito, apertando o cinto e controlando as contas das cagadas dos seus caríssimos “representantes” nos três poderes, atiradas a débito sobre seu mirrado salário.

Ainda que todo esse prenunciado cenário aterrador de desordem moral, ético, financeiro e social nos sinalizem com pioras em futuro muito próximo – Porque os homens públicos e suas condutas políticas transparecem claramente imutáveis e refratários às “pedagogias” conjunturais entremeados por valores éticos e a uma “didática” recondutiva que os façam espelhar adimplência e respeito com todos os compromissos, inclusive aqueles de fundo moral onde se destaca a honradez ilibada, bem versada, capaz de reconquistar e restituir à estima pública e a confiança às suas tão maculadas imagens representativas. – O senso comum atinge o mais alto nível de convicção e apercebe-se que essa relação pelo voto obrigatório envolvendo, “democraticamente”, massa e representação política, é podre! Porque envolve interesses patrimonialistas e financeiros pouco éticos, para não dizer inidôneos, reinseridos muito acima daquilo que é benéfico ao país e seu povo.

Há ainda uma singular fenomenologia da pessoalidade afeto aos gestores e legisladores constitucionalmente eleitos! São os fenômenos da intocabilidade, da inacessibilidade, da presunção da perpetuidade do poder que envolve sob o manto da inimputabilidade a totalidade dos nossos representantes políticos com ou sem mandatos – porque do corporativismo – os tornam seres especiais, avessos, sectariamente elitistas, arrogantes, truculentos e ate cruéis para com aqueles que os colocaram no poder com seus votos cegos. Eles: “Agora é nóis!”. Cercado de esbirros puxa sacos, uma claque de incompetentes cuja maior qualidade reside na “confiabilidade”; são comensais em tudo.

Mas agora, após esses anos de pelourinho, canga e chibata, eis que, com eleições à vista, nós os revemos de novo a mendigar nossos votos. Humildes, bondoso, contemporizando as cagadas anteriores, e com promessas de Lázaro ressuscitado após revulcanização moral e operacional pós-mandato! “Deixa eu voltar vai!”. Que lindooo!

E lá vamos nós, “ameliamente”, – desculpem o neologismo sobre a resignada tolerância da mulher de verdade, a Amélia, aqui tomada, por exemplo – com o voto obrigatório à ponta do dedo, votar aos mesmos com apatia e resignação! Tal como escreveu sabiamente o iracundo poeta e compositor Chico Buarque, na sua ode à resignação feminina, coisa de época: em “Com açúcar e com afeto”:

´”E ao lhe ver assim cansado/ Maltrapilho e maltratado/ Ainda quis me aborrecer?/ Qual o quê!”.

“Logo vou esquentar seu prato/ Dou um beijo em seu retrato/ E abro os meus braços pra você!”.

E a sina, a jihad do brasileiro. Votei e pronto!

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.



2 responses to “CALMA GENTE! ILHÉUS AINDA É NOSSA!

  1. Gostei muito. Gosto de todos os comentários que o senhor escreve aqui. Esses colchões jogados aí na ladeira é pra fazer propaganda política pra o sr. Caca?

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