DUAS HISTÓRIAS DE DESTRUIÇÃO DE ALDEIAS INDÍGENAS POR JAGUNÇOS E PELO ESTADO

Imagem: CIMI.
Imagem: CIMI.

Por Alceu Luís Castilho/Outras Palavras

As histórias assustam pela similaridade. Duas aldeias indígenas são destruídas. Depois os povos voltam – já com terra arrasada, para reconstrução. Uma, no Mato Grosso do Sul. Outra, na Bahia. No caso sul-mato-grossense a destruição foi feita por jagunços, a mando de fazendeiros; no caso baiano, pela polícia (Federal, Militar), a mando da Justiça. Pergunta para a sociedade brasileira: qual dessas realidades é a pior? A institucional ou a paramilitar?

Em um dos casos a aldeia tinha posto de saúde e escola. E não foi naquela destruída pelos jagunços. Foi na Terra Indígena Comexatibá, no extremo Sul da Bahia. A Justiça suspendeu as liminares de reintegração de posse – mas somente três dias depois a destruição das casas pela Polícia Federal e pela Polícia Militar. Um juiz decidiu, em julho, pela destruição; um desembargador, pela retomada. A vítima foi o povo Pataxó.

MATO GROSSO DO SUL

Em comum, a violência. Em Coronel Sapucaia (MS), os jagunços destruíram com fogo as barracas e os pertences dos indígenas Guarani Kaiowá. “O ataque foi intenso, até documentos pessoais foram queimados“, relatou uma liderança indígena da aldeia Kurusu Ambá, “e os pertences que não foram queimados, eles levaram embora”. Animais foram mortos.

O ataque dos pistoleiros aconteceu no dia 31 de janeiro. Os indígenas retomavam uma fazenda que fica em território tradicional. Levaram tiros. Em 2007, 2009 e 2015, lideranças indígenas foram mortas por causa do mesmo conflito, que aguarda a morosidade da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Brasília.

É o mesmo acampamento onde, em janeiro, uma criança morreu por falta de atendimento médico. O retorno para a aldeia carbonizada ocorreu na quinta-feira (4). Ao lado, na terra Guaiviry, outros pistoleiros em duas caminhonetes também distribuíram tiros. “A criançada está ficando tudo com medo“, afirmou uma liderança.

BAHIA

A foto acima mostra o momento da destruição da aldeia Cahy, dos Pataxó, no dia 19 de janeiro. Três dias depois, a pedido do Ministério Público Federal, o desembargador federal Cândido Ribeiro suspendeu as ações de reintegração de posse na TI Comexatibá. Curiosamente, o motivo foi a escola destruída pelos policiais. Considerou-se que haveria risco de interrupção do direito de mais de 500 alunos indígenas à educação.

Saem os policiais, entram os jagunços. Após 32 famílias indígenas retornarem em barracas de lona, no dia 27 de janeiro, um grupo de pistoleiros passou por quatro vezes na aldeia. Cinco homens em um carro teriam gritado: “Vocês vão cair, vão cair”.

REPERCUSSÃO

A maior parte das informações acima é do Conselho Indígena Missionário (Cimi). À exceção de uma notícia no G1, no caso da Bahia, e apesar da cobertura da imprensa regional, procuram-se notícias na grande imprensa.

Alceu Luís Castilho é jornalista.



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