CABO JONAS O MAIOR CONTADOR DE “CAUSOS” E LOROTAS DO PONTAL

cabo jonas

abobreira artigoPor José Henrique Abobreira

Ele nasceu e se criou na aldeia do Pontal e, muito tempo depois, mudou-se de armas e bagagens para o Banco da Vitória e foi ídolo popular nesses dois locais. Por onde passou espalhou os seus causos engraçados, lorota pura.  Pensem num sujeito multi-facetado, pau pra toda obra, de comentarista carnavalesco na Rádio Baiana, a eletricista, pedreiro, encanador, capoeirista, açougueiro, marujo das lanchas e besouros na travessia Ilhéus-Pontal, árbitro de futebol, treinador, compositor, pai de santo e puxador de bloco afro e o mais prazeroso mentiroso, como o definiu o contador das “estórias de Banco da Vitória, historiador Roberto C.Rodrigues no seu livro “Causo e prosa de Banco da Vitória”. Sim, ele existiu e era conhecido no velho Pontal do São João da Barra como o cabo Jonas, militar reformado da Aeronáutica (na verdade era outra mentira bem contada por ele. Trabalhou no campo de aviação e ocupou o cargo de cabo de turma, mas no convívio com os militares da FAB tomou gosto pela patente e auto-intitulou-se Cabo Jonas, da reserva da Aeronáutica).

Muito inteligente e astuto tinha uma larga lista de amizades com gente granfina da localidade e, para demonstrar prestígio e intimidade junto aos bacanas os chamava intimamente de neném na vista de todos, além dos abraços e tapinhas nas costas. Cabo Jonas era um porreta.

A sua ginga no andar  era um misto de pança de dançarino e jogador de capoeira, era um cara invocado, manso e conversador com os amigos que aplaudiam as suas lorotas, mas valente como ninguém quando abespinhado. Quando menino, de manhã cedo a perambular pelas ruas arenosas do Pontal, me deparei com uma cena insólita: em fila indiana caminhavam o cabo Jonas na frente, segurando com um pano  na mão esquerda o braço direito, na altura do ombro por onde surgia um filete de sangue. No meio vinha o soldado Zé Luiz, sub delegado do Pontal, conduzindo coercitivamente o cabo Jonas e logo atrás um jovem  trajado com paletó e gravata, protestando em altos brados contra a violência do policial. Descobri que o PM tinha baleado o cabo Jonas e me impressionei com a atitude altaneira deste, mesmo baleado mas de cabeça erguida, desafiador (o jovem engravatado, viria a saber depois, já adulto, era o conhecido jornalista Paulo Lima-Índio) de Itabuna. Curioso, como toda criança, acompanhei o séquito que se dirigia à delegacia, na rua onde atualmente moro, onde Jonas foi jogado numa pequena cela. O soldado Zé Luiz, num Pontal com zero ocorrências policiais, naquela época, costumava afirmar sua autoridade, ameaçando furar a bola de crianças que jogavam futebol na areia das ruas pontalenses. Nesse dia ele tentou furar a bola de uma criança em frente ao açougue do cabo Jonas, este se enfureceu, reclamou, e partiu pra cima do PM. No rabo de arraia aplicado o soldado caído, já com a arma na mão deflagrou um tiro, felizmente só lhe atingiu de raspão.

(mais…)