CARMELITA E O DESENVOLVIMENTO “ACHISTA”

Carmelita "achou" o Porto Sul.
Carmelita “achou” o Porto Sul.

emílioPor Emilio Gusmão

No dia 27 de janeiro desse ano, o Jornal Bahia Online publicou um artigo da Professora Carmelita sobre o Porto Sul.

Ao passar os olhos no texto da prefeiturável do PT, confesso que fiquei ansioso, uma vez que o primeiro parágrafo prometia uma aula sobre desenvolvimento econômico.

Normalmente, os leitores procuram ler publicações que lhe tragam mais certezas. Eu, sem querer bancar o diferente, gosto quando um escritor ou pensador ou articulista desafia as minhas convicções e me faz refletir.

Carmelita com uma segurança notável questionou o “achismo” na formulação das ideias. Pensei esperançoso: depois dessa boa provocação ela vai utilizar bons argumentos.

Que lástima! Minha expectativa não foi correspondida.

Carmelita não citou fonte alguma, apenas repetiu a defesa que os representantes do governo estadual fazem do projeto. Não mencionou uma só referência bibliográfica, sequer um dado dos estudos de viabilidade econômica. A Professora fez uso do recurso que condenou, ou seja, foi puro achismo. Fez pior! Afirmou que foram realizadas várias pesquisas, mas indicou, no texto, desconhecimento sobre todas.

Depois de citar alguns lugares-comuns que compõem a visão dos empreendedores – sempre na superfície – Carmelita foi na contramão dos estudos oficiais e relatórios do IBAMA, ao afirmar que o Porto Sul será uma atividade econômica complementar às existentes na região.

Citou a agricultura familiar, dando a entender que o novo terminal portuário não afetará esse setor. Errou feio Professora Carmelita!

Em recente estudo elaborado por mim, constatei que o relatório de vistoria nº13/2012, do IBAMA, identifica impactos negativos na agricultura familiar praticada nas comunidades de Aritaguá e Vila Juerana. “A construção do Porto Sul demandará desapropriações em pequenas propriedades rurais que cultivam cacau, laranja, cajá, banana, cacau, aipim, coco e mangaba. Cento e setenta famílias deverão ser desapropriadas ou perderão seus empregos, segundo declarações da Bahia Mineração durante audiência pública realizada em Uruçuca no dia 28 de maio de 2012, conforme o relatório”.

Em relação à pesca, apurei que o Relatório de Impacto Ambiental do Porto Sul (RIMA), ao tratar do meio socioeconômico informa que há 3449 pescadores cadastrados em áreas afetadas pelo empreendimento, sendo 1964 ligados à colônia Z-34, 596 na colônia Z-19 (ambas de Ilhéus), 71 na associação de pescadores de Serra Grande e 818 na colônia Z-18 de Itacaré. Segundo o mesmo relatório, esses trabalhadores do mar serão afetados devido às “alterações nas localidades nas quais os pescadores moram, nos acessos às áreas de pesca, no mercado consumidor e formas de comercialização, no preço dos recursos, nas alternativas de emprego e ocupação e outras” (RIMA, 2011, p. 70). 

No estudo que fiz, o biólogo Marcio Barbosa Filho, mestre em zoologia, contesta esse número de pescadores, pois não incluiu seus familiares. O relatório oficial também deixou de fora trabalhadores ligados à cadeia de produção e venda do pescado, a exemplo dos funcionários das colônias de pesca, marisqueiras e quem prepara filé de camarão.

Construído no litoral norte de Ilhéus, o Porto Sul afetará o turismo da região. Isso tem preocupado empresários do setor, segundo o relatório de vistoria nº13/2012, do IBAMA. Vale lembrar que essa área, passando por Serra Grande (Uruçuca) indo até Itacaré, recebeu investimentos do PRODETUR, na década de 1990, haja vista a sua predisposição para o turismo ecológico.

Ao considerarmos esses impactos, percebemos que o Porto Sul está longe de se consolidar como atividade complementar. Na verdade, o empreendimento tem todos os aspectos de um “enclave” ou “polo de subdesenvolvimento”, pois as resultantes dos efeitos que vão afetar as demais atividades econômicas não serão benéficas.

Há mais questionamentos ao texto superficial da Professora Carmelita, porém, penso que esses são suficientes para demonstrar que ela costuma escrever com “muita propriedade”, e até mesmo com boa dose de arrogância, sobre assuntos que não domina.

Ao criticar o “achismo”, Carmelita achou que sabia e chutou.

O texto dela impõe atenção redobrada diante das “ideias” dos nossos prefeituráveis, principalmente daqueles que escrevem com 100% de empáfia e 0% de argumentação válida.

Emilio Gusmão é comunicólogo, editor deste blog e mestre em conservação da biodiversidade e desenvolvimento sustentável (ESCAS/IPÊ).



3 responses to “CARMELITA E O DESENVOLVIMENTO “ACHISTA”

  1. Gusmao, gostei de sua argumentação!
    Quanto mais luz se coloca nesse projeto , mais me incomoda a forma incapaz que o governo poderia ter feito opções mais inteligentes para o desenvolvimento a regiao.

  2. Volto a dizer , P. Sul , Fiol , Parque do Almada … Todos estes itens são colocações indevidas do desgoverno da Bahia . O verdadeiro perfil de progresso não é este . Agora ainda tem , matança de jumentos , ferrovia Atlântico / Pacífico , Pontes Salvador / Bom Despacho e Ilhéus / Pontal … Chega …

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