O VIRTUOSO CAMINHO DA DESTRADICIONALIZAÇÃO DE ILHÉUS

Por Elisabeth Zorgetz

Elisabeth ZorgetzO termo pode parecer estranho e pretensioso. Realmente, é tudo isso. Mas à distinção de tantos léxicos acadêmicos que servem ao imenso buraco de minhoca de preciosismos do maravilhoso oásis, a “destradicionalização” me encantou, assim que lhe dei oportunidade. A verdade é que me capturou num ponto fraco, no meu eixo sensível: a simbiose da Academia com a gestão da cidade. Relação propositalmente complicada, burocratizada, obstaculizada. Não há mais espaço para a inocência dos saberes. Não estamos falando de servidão técnica, tampouco engajamento ou caridade metodológica. Quero falar objetivamente de relacionamento, organismos atrelados, administração da informação e de uma prática que beneficie a todos, gerando renda e qualidade de vida. E o que podemos dizer sobre essa relação em Ilhéus? Permitam-se responder reservadamente.

Em nosso município, o terreno é fértil para o alavancar o processo de destradicionalização. Mas o que isso significa? Pensemos da forma mais simples. O prefixo vem para dissolver o tradicional, e transformá-lo num novo reagente, algo que a palavra talvez não revele. Nas palavras do próprio Fortuna, pesquisador que fez a belíssima exegese da destradicionalização da cidade de Évora, decorre do “reconhecimento de que nem a tradição nem a inovação existem sob forma absoluta”. Em certa medida, fenômenos assim ocorrem em nossa cidade e região isoladamente, talvez sem a própria consciência de si. Poderia citar o empreendedorismo sobre a ressignificação do chocolate e subprodutos do cacau, e a revitalização de dispositivos e memórias culturais como a Feira e Praça do Pontal. Mas, tudo a seu tempo, e com o empenho necessário, num tempo feito pela sociedade, a verdadeira destradicionalização opera na intenção e totalidade. Ilhéus, tal qual Évora, passaram por uma crise de lavoura, êxodo rural, passo lento no acompanhar das cidades modernas, possuem um denso passado, memória e patrimônios exploráveis. Podemos dizer que Ilhéus ainda se coloca em vantagem, pela riquíssima atratividade litorânea e tropical. Espero que, a essa altura, não reste dúvidas sobre nossa vocação e potencial, tão estranhos a territórios industriais e erguidos no concreto. Não acompanhamos esses ambientes produtivos por falta de investimento, e, principalmente, por falta de identidade socioeconômica. Cidades e regiões de vocação para o eco-turismo, forçadamente inseridas em cadeias industriais e extrativistas, hoje padecem no caos de desenvolvimento humano e desastre ambiental programado.

O maior potencial atrativo de Ilhéus se assenta em sua carga histórica, quando se pensa no que o turista de hoje investe. A região sustenta a sedução da história em tempos diversos, do Brasil pré-colonial ao colonial, dos anos 30 ao passado recente. Há dificuldades em termos patrimoniais e materiais. A arquitetura urbana sofreu intervenções irresponsáveis e o passado administrativo menosprezou a cultura material, para não falar da imaterial. Ainda assim, abundam recursos a serem aproveitados e resgates passíveis de serem realizados. Paralelamente, a cidade necessita dinamizar e diversificar o seu leque de ofertas turísticas, de forma a corresponder novas exigências e aspirações de seus visitantes, sob o ponto de vista da concorrência entre cidades. Tornar Ilhéus uma cidade destradicionalizada e verdadeiramente desejável no mercado turístico é abandonar um perfil passivo na intervenção gerencial de instrumentos históricos, culturais, comerciais e ambientais. É interromper o sofrível “cumprir tabelas” na setorização da gestão. É tornar a transversalidade um mantra. É aproveitar, continuamente, o que nossas instituições de ensino e pesquisa têm a nos oferecer em historiografia, geografia humana, logística, ecologia, gestão em turismo, e tantas áreas que produzem cotidianamente, apenas na cidade de Ilhéus.

Estabelecer uma relativa ruptura com o tradicional é muito diferente de abandonar o pitoresco. Na verdade, propõe o contrário. Destradicionalizar é oferecer o combustível necessário a todo elemento arcaico ou habitual do cotidiano e memória, acompanhando-o de novas razões e modos de ser, novos propósitos que também sirvam, necessariamente, à convivência e contemplação daqueles que vivem o ambiente urbano-rural, no nosso caso. Em outras palavras, é trazer à tona uma cidade para pessoas. Emergir do profundo submundo das oligarquias político-econômicas um espaço de vivências, e não sobrevivências. Ser atrativa e competitiva no cenário turístico exige, sem delongas, uma Ilhéus que oferece o melhor aos ilheenses. A cidade é o perfeito lugar para o diálogo com linguagens múltiplas que provocam a consciência do indivíduo e o posicionam como parte da dinâmica urbana e integrante de uma comunidade de intensos fluxos. Perceber a cidade em suas amálgamas e conexões é o estopim de formulações criativas. Quando atravessamos a linha da história e cultivamos, também, o imaginário, temos inúmeras possibilidades de construir o espaço urbano e seu destino. Dito isso, reforço aos movimentos de rua, aos espontâneos mobiliários urbanos, aos costumes populares e às jovens interações que agregam tantos valores simbólicos: floresçam, cada vez mais. Só nos resta questionar aos nossos gestores e legisladores, pretensos e instalados, daremos essa chance à Ilhéus?

*Toda gratidão à doutora Rosana Lopes, docente da Universidade Estadual de Santa Cruz, pela oportunidade de contato com o texto “Destradicionalização e Imagem da Cidade: O caso de Évora”, do pesquisador Carlos Fortuna.

Elisabeth Zorgetz é membro do Núcleo de História Econômica da Dependência Latinoamericana, militante do Partido Socialista Brasileiro e autora do livro “O Sétimo Rio”.



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