GENTE BARATA NO JOGO DE LINGUAGEM

Na capa da Piauí, expressão de outra matéria pode ser lida como legenda para "beijo" de Cunha e Temer: "gente barata".
Na capa da Piauí, expressão pode ser lida como legenda para “beijo” entre Cunha e Temer: “gente barata”.

Por Thiago Dias

A capa da edição de janeiro da revista Piauí (112) mostrou uma charge em que o vice-presidente da República, Michel Temer, e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aparecem se beijando. O desenho da artista russa Nadia Khuzina fez referência ao cumprimento entre o então presidente da Alemanha Oriental, Erich Honecker, e o líder soviético Leonid Brejnev, durante encontro em 1979.

Na edição de fevereiro, a Piauí publicaria reportagem abrangente (O Plano Temer) sobre “o namoro do PMDB com o impeachment”, assinada pela repórter Julia Dualibi. Um mês depois da imagem do beijo, a palavra namoro no subtítulo da matéria sintetizou o plano que pode levar o PMDB a ocupar oficialmente o comando do Executivo Federal. O presidente do Senado, Renan Calheiros, já dialoga com lideranças do PSDB sobre um fabuloso Governo Temer.

A comissão do impeachment na Câmara dos Deputados tem peemedebistas indecisos. Conforme apuração do jornal O Dia publicada hoje (21), deputados como João Marcelo (MA) e Valtenir Pereira (MT) “podem tender a qualquer lado durante o andamento do processo”.

Isso sugere o quanto os parlamentares do PMDB estão aferrados à “materialidade processual”.

De modo intencional ou não, a capa da Piauí de janeiro oferece uma leitura possível. A expressão sobre outra reportagem poderia ser adaptada como legenda para o desenho do beijo entre Cunha e Temer: “gente barata”.

Na verdade, a matéria fala sobre um estadunidense que estudou a história da economia brasileira. Entre outros pontos, o economista Nathaniel Leff argumentou que a grande desigualdade do Brasil e o atraso do seu desenvolvimento socioeconômico se devem em boa parte ao difícil acesso da maioria da população a bens como terras agricultáveis e meios de transporte eficientes.

Segundo Leff, historicamente, o Estado brasileiro impôs obstáculos que dificultaram o acesso da população pobre às terras. Esse teria sido um fator determinante para a histórica desvalorização da mão de obra no país. Daí a expressão que resume a reportagem na capa: “gente barata”.

A explicação acima não anula a leitura possível do jogo de linguagem que atribui a expressão às lideranças do PMDB. A presidenta Dilma Rousseff (PT), prestes a tomar uma rasteira do vice ressentido, que o diga.

Thiago Dias é colaborador do Blog do Gusmão.



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