AS NARRATIVAS POPULISTAS NA DEMOCRACIA

FOTO REINALDO JORNALPor Reinaldo Soares.

Narrativa é uma exposição de fatos, uma narração, um conto ou uma história que se desenvolve em torno de um enredo e tema, conduzidos por um personagem. Na história política contemporânea, a narrativa como forma de instrumentalizar e legitimar o poder começou com Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista.

Frases como “uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade” e “ nós não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um certo efeito” tornaram  Goebbels o grande responsável pela expansão e consolidação da ideologia nazista nas décadas de 1930 e 1940, além de precursor do marketing político tão utilizado hoje em dia.

Referindo-se ao populisno, o cientista político italiano Noberto Bobbio, conceitua que essa forma de fazer política tem o povo como “fonte principal de inspiração e termo constante de referência”. Ele acrescenta que o populismo se apresenta messiânico e “busca sua sobrevivência ou preservação em formas carismáticas, em intérpretes quase sagrados da vontade e do espírito do povo”.

Diante desse contexto, a adolescente democracia brasileira tem vivenciado construções de narrativas para justificar ou desconstruir interesses e ações dos grupos políticos protagonizadores do processo político nacional.

Com a primeira eleição de Lula na Presidência da República, a primeira grande narrativa foi construída com objetivo de consolidar o imaginário coletivo em torno de um retirante nordestino, operário, homem do povo que assumiu o alto poder e depois de Getúlio Vargas, tornava-se o grande messias, chegando a ser chamado pelo Presidente Barack Obama de “o cara”. O líder se orgulhava que seu primeiro diploma foi de Presidente da República.

Grandes avanços sociais foram alcançados neste período e com eles surgiu a narrativa “nunca antes nesse país”. Esta narrativa objetivava consolidar a construção do mito do presidente operário, dividindo a história política brasileira em antes e depois dele, fazendo parte de concepções messiânicas que permeiam os regimes populistas.

Ao criar esta narrativa, o “Governo do Brasil para Todos” desconstrói o passado e cria efeitos valorativos do presente, afetando em cheio as estruturas de poder vigente, imobilizando uma oposição inerte e despreparada.

Ao final do seu primeiro mandato explode o escândalo do mensalão e a oposição já combalida é nocauteada com a narrativa “nós e eles”, criando um discurso divisionista no país, onde Lula representava a população oprimida e a oposição os opressores. Essa narrativa desencadeou um sentimento de intolerância na população brasileira “nunca antes” visto.

Do ponto de vista eleitoral, a narrativa do nós contra eles funcionou, proporcionando a reeleição de Lula e a eleição de sua sucessora Dilma Rousseff com ajuda dessa vez, da narrativa de “mãe do PAC”. Para sua reeleição em 2014, com todo desgaste da mãe do PAC cujos resultados eram pífios, a reeleição foi garantida graças à “dessacralização” de Marina Silva por meio de uma propaganda ameaçadora e promessas vãs que logo após a posse foram denominadas como estelionato eleitoral.

Diante de resultados tão apertados, se acentuou a divisão do país e por consequência a intolerância. A operação lava Jato avança e desnuda os porões do poder revelando um imbricado e sistêmico processo de corrupção com a prisão de poderosos empresários e políticos.

O governo é paralisado e a população é bombardeada diariamente com novidades da Operação Lava Jato, dos acrônimos e das pedaladas fiscais, as quais foram responsáveis pela inédita reprovação de contas da Presidência da República pelo Tribunal de Contas da União.

Todo esse contexto motivou três juristas, destacando-se Helio Bicudo, um dos fundadores do PT e ex-deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, que protocolassem na Câmara dos Deputados o pedido de impeachment da “Mãe do PAC”, o que foi aceito pelo processado e impopular Eduardo Cunha.

O processo de impeachment previsto na Constituição e com rito definido pelo Supremo Tribunal Federal tem sido vítima da nova narrativa construída pelo Governo e seus seguidores: “Não vai ter Golpe”. Atribui-se ao processo de impeachment um Golpe à Democracia. O que Collor sofreu era constitucional ou golpe? Não se pode desqualificar esse processo por conta que quem o admitiu, Eduardo Cunha, não tem credibilidade e quem poderá assumir o poder é Michel Temer, figuras distantes eticamente dos outros personagens da época de Collor: Ibsen Pinheiro e Itamar Franco.

É muito perigoso para a Democracia a criação de narrativas que objetivam apenas a perpetuação de um projeto de poder. A democracia se fortalece com a funcionalidade plena de suas instituições e principalmente pela alternância de poder. Eleição em si não é suficiente se não ocorrer uma contínua mudança dos agentes políticos.

Descaracterizar o poder judiciário quando esse funciona contra o grupo de plantão é um grande perigo para a permanência do Estado Democrático de Direito. A justiça tem mostrado que em fim é para todos, e que ela não deve tardar para se cumprir, pois esse tardiamento gera justamente a injustiça.

Neste momento de crise e instabilidade política, precisamos de bom senso e equilíbrio para perceber e reconhecer que esse modelo político está falido e ficar atentos para evitar a personalização das instituições, pois isso denota uma fragilidade que não é salutar para a Democracia.

Precisamos de estadistas e seriedade na política, pois como disse o dramaturgo alemão Bertolt Brecht, “aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”.

Reinaldo Soares é Mestre em Cultura e Turismo pela UESC/UFBA, Membro do Partido  Renovador Trabalhista Brasileiro- PRTB. Diretor do IBEC, Ex Presidente do Conselho Municipal de Educação de Ilhéus, Palestrante, Professor do Colégio Estadual Padre Luis Palmeira e da Pós-Graduação da FACSA/IBEC. E-mail: [email protected]



4 responses to “AS NARRATIVAS POPULISTAS NA DEMOCRACIA

  1. Todos podem ter opinião… Vc.em silêncio fica na dúvida se aquela pessoa é brilhante ou estúpida. E abrindo a boca vc.resolve.

  2. Meus parabéns professor.
    O mais importante seria, se todos os nossos governantes envolvidos em escândalo não pudesse mais se candidatar a cargo político nenhum, lembramos os escândalos passados:
    Grampo telefônico.
    Anões do orçamento.
    Sudene.
    Metrô, etc.
    Pedaladas fiscais.
    Aí teríamos um país digno, com orgulho, e com o direito de ir e vir.
    Mais eu sou brasileiro e tenho esperança que esse futudo vai acontecer, por tudo isso devo acrescentar em renovação.
    Espero que os novos não se juntem com os velhos viciados.
    Um abraço.
    Leones

  3. Oxalá possivel fosse todos os pretensos politicos viessem a ler esta perfeita aula de história, ética, credibilidade e conhecimento. Sou sua fã, incondicional

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