MÉDICA EXPLICA IMPORTÂNCIA DO CUIDADO COM A SAÚDE DOS OLHOS

A médica oftalmologista Juliana Ávila veio trabalhar em Ilhéus a convite do colega Antônio Nogueira, do CENOE.
A médica oftalmologista Juliana Ávila veio trabalhar em Ilhéus a convite do colega Antônio Nogueira, do CENOE.

A médica oftalmologista Juliana Ávila é a mais nova integrante do Centro de Olhos Especializado, o CENOE. Na entrevista abaixo, ela fala de forma acessível sobre os cuidados que devemos ter com a saúde dos nossos olhos. Também explica os sintomas e os tratamentos de doenças que afetam a visão, como: a miopia, a hipermetropia e os tipos de descolamento da retina. O conteúdo informativo é muito importante, especialmente para pessoas que sofrem com diabetes, hipertensão, degeneração da mácula e anemia falciforme. A médica detalha como essas enfermidades prejudicam as vistas dos pacientes.

Juliana Ávila concluiu a faculdade de medicina em 2010, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nos três anos da residência em oftalmologia, sua especialidade, atuou no Hospital Humberto Castro Lima (IBOPC), também em Salvador. Atualmente se dedica ao programa ainda mais específico da CLIHON, em Feira de Santana. “É como uma pós-residência, uma formação numa subespecialidade”, informa.

A profissional soteropolitana veio trabalhar em Ilhéus a convite do médico Antônio Nogueira, seu colega no CENOE. “Ele me deu a oportunidade de fazer esse trabalho específico com os tratamentos para a retina. O CENOE já tem uma bela equipe de retinólogos, mas, como a demanda é muito grande, consideramos a importância de ampliar o atendimento para esses pacientes de Ilhéus e outras cidades da região”, relata.

Inicialmente, a oftamologista atuará na unidade de Ilhéus aos sábados e às segundas-feiras. “Estou chegando com muita energia para tentar ajudar a terra de Gabriela”, garante a especialista em retinologia. Leia a entrevista.

Blog do Gusmão – O que é a retina?

Drª. Juliana Ávila – Podemos dizer que a retina é o “cérebro do olho”. É o tecido nervoso que recobre a parte posterior do olho. A retina capta as imagens e, através dos seus fotorreceptores e axônios, o estímulo luminoso é levado pelo nervo ótico até o cérebro, onde ocorre a formação das imagens. Daí a importância da retina para o nosso olho.

Ilustração mostra a retina e a mácula do olho.
Ilustração mostra a retina e a mácula do olho.

Blog do Gusmão – Por favor, explique também o que é a mácula.

Drª. Juliana Ávila – Mácula é a região central da retina, a sua parte mais nobre. Ela fica próxima ao nervo ótico e é responsável pela nossa visão central. As doenças da retina atingem essa região central e a sua periferia.  

Blog do Gusmão – O que é e como é causado o descolamento de retina?

Drª. Juliana Ávila – O descolamento ocorre quando esse tecido nervoso, que é a retina, descola-se da parte posterior do olho. Existem vários tipos de descolamento. O regmatogênico é o que afeta os pacientes míopes. O tracional é comum em pacientes diabéticos. Também existe o exsudativo. Esses e outros tipos podem se manifestar ao mesmo tempo. O mais importante é que o paciente conheça os fatores de risco, por isso a importância do acompanhamento médico especializado. Uma vez descolada a retina, não é mais possível manejar tratamentos clínicos e deve-se partir para a cirurgia. O CENOE oferece as duas linhas de tratamento.

BG – O senso comum faz algumas recomendações. Por exemplo: ler com o carro em movimento ou no avião pode deslocar a retina. Isso é verdade?

Drª. Juliana Ávila – É um mito. Não é a leitura com o carro ou avião em movimento que vai provocar o descolamento da retina. Existem fatores que predispõem o descolamento. A retina de um míope é mais fina. Por isso, pode ter ranhuras, pequenos rasgos, que aumentam a predisposição para o descolamento. Outro exemplo é o das pessoas idosas. O olho humano tem uma espécie de gel que, com o passar tempo, se liquefaz. Isso faz com que o idoso tenha maior probabilidade de descolar a retina. Quando alguém lê com o carro em movimento, precisa se esforçar mais para estabelecer o foco da visão. Isso produz um cansaço maior, mas não tem relação direta com a possibilidade de descolamento da retina. Por outro lado, traumas podem causar essa predisposição, como uma bolada no olho. De toda forma, o descolamento não é algo que acontece facilmente.

BG – O que é miopia?

Drª. Juliana Ávila – A miopia é um dos defeitos refrativos, assim como a hipermetropia, o astigmatismo ou a presbiopia. Vamos tomar o olho como um sistema de lentes, como o doutor Antonio Nogueira falou mais cedo. A córnea funciona como uma lente, o cristalino como outra e a retina também. Ao receber o estímulo luminoso, no caso do olho míope (que é maior), a imagem é formada na frente da retina. Isso é a miopia. Quando a luz entra no sistema de lentes e a imagem se forma atrás da retina, chamamos hipermetropia. Astigmatismos são aberrações na córnea, lá na frente do olho. Esses efeitos são erros de refração.

BG – Quais são os cuidados que o paciente diabético deve tomar para proteger a retina?

Drª. Juliana Ávila – O diabetes afeta todo o sistema vascular do paciente, além do sistema nervoso e órgãos como rins e coração. Não é diferente no caso dos olhos. O diabético com a glicemia descontrolada, com maiores taxas de açúcar no sangue, sofre alterações nos olhos. Essas alterações formam vasos sanguíneos pequenos e defeituosos que se pregam na retina. Quando ficam mais frágeis, eles se rompem e tracionam a retina. Daí o risco de descolamento.

BG – Como tratar a retinopatia diabética?

Drª. Juliana Ávila – Na verdade a gente tem que impedir que a retinopatia diabética seja causada ou se agrave. Esse tipo de retinopatia é justamente o efeito das alterações provocadas pelo diabetes nos olhos. O tratamento depende do controle do diabetes do paciente. Não tem como fugir disso. Hipertensão arterial, glicemia, colesterol, tudo isso deve ser controlado. Não adianta nada fazer o tratamento contra a retinopatia diabética se o paciente não controla a sua doença de base.

BG – A chamada pressão alta, hipertensão arterial, pode afetar os olhos?

Drª. Juliana Ávila – Sim. Existe a retinopatia hipertensiva. Às vezes basta olhar para os vasos sanguíneos dos olhos do paciente para saber se a pressão está controlada ou não. Muitas vezes pergunto, e o paciente diz que a pressão está controlada, mas vejo que não está e recomendo. “Pode procurar um cardiologista, porque eu já estou vendo o acometimento vascular aqui, e isso provavelmente é provocado por hipertensão arterial”. Meus professores costumam falar que a retina é a alma do coração. Por meio da retina, é possível ter ideia da saúde do coração.

Desenho ilustra descolamento da retina.
Desenho ilustra descolamento da retina.

BG – Como a retinopatia hipertensiva deve ser tratada?

Drª. Juliana Ávila – É a mesma lógica do diabetes. O paciente tem que controlar a hipertensão. Caso contrário, terá graus muito graves de retinopatia hipertensiva.

BG – O que é a degeneração macular relacionada com a idade (DMRI)?

Drª. Juliana Ávila – A nossa população está envelhecendo. O idoso tem maiores chances de sofrer essa degeneração da mácula, a região central da retina. Além da idade, também é preciso considerar outros fatores de risco, como a obesidade. Esse tipo de degeneração afeta mais as pessoas de pele clara. Não significa que os negros não sejam afetados. O caminho é mesmo buscar o acompanhamento médico.

BG – Quais são os sintomas da degeneração macular?

Drª. Juliana Ávila – Na verdade o paciente não percebe tanto, porque o paciente mais velho normalmente já tem a catarata e associa a turbidez da visão à catarata. A gente só percebe quando há uma metamorfopsia, que podemos chamar de “visão quebrada”. A luz atinge a mácula degenerada e é essa degeneração que provoca alterações na formação da imagem. Por isso costumamos usar testes visuais, com imagens de quadradinhos. De modo geral, para o paciente é difícil perceber sozinho. Daí a importância do exame do fundo do olho. Muitas pessoas costumam pensar que o papel do oftalmologista é só fazer óculos, mas, o nosso trabalho é muito mais abrangente. Como já disse, existem várias doenças e parte delas geralmente só é identificada com um check-up, uma averiguação apurada.

BG – Como é o tratamento da DMRI?

Drª. Juliana Ávila – Utilizamos medicamentos específicos. A grosso modo, são compostos de vitamina (polivitamínicos). A DMRI é um dos tipos de degeneração que ocorrem no corpo mais velho. De modo geral, os medicamentos agem como antioxidantes produzidos especialmente para combater a degeneração da mácula. Hoje também já é possível tratar a DMRI com injeções no olho.

Segundo a oftalmologista, acompanhamento médico é muito importante para evitar doenças que prejudicam a visão.
Segundo a oftalmologista, acompanhamento médico é muito importante para evitar doenças que prejudicam a visão.

BG – Por favor, explique o que é anemia falciforme, uma vez que ela é muito comum no sul da Bahia.

Drª. Juliana Ávila – A anemia falciforme é comum no sul da Bahia ou em qualquer lugar com a prevalência da população negra, que é mais vulnerável a esse tipo de doença. A anemia falciforme age especialmente na retina. Por quê? A retina, por ter vasos muito finos, é afetada pelas hemácias da anemia falciforme, que giram pelo corpo todo. A periferia do olho do paciente passa a não receber o aporte sanguíneo. Isso é uma manifestação da retinopatia falciforme, que também pode provocar o descolamento da retina.

BG – Qual a importância do exame do fundo do olho?

Drª. Juliana Ávila – Total. Ele não serve apenas para o diabético ou o hipertenso. Entre os mais jovens, o exame do fundo do olho deve ser feito pelo menos uma vez por ano. Já a pessoa mais velha ou com algum tipo de doença que possa afetar a visão deve fazer a cada seis ou três meses, a depender da situação clínica. O exame do fundo do olho dá uma visão geral ao médico. Com ele, o oftalmologista vê a retina, o nervo ótico e pode aprofundar a pesquisa sobre a saúde do paciente.



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