CADEIAS DE ABASTECIMENTO E A ARTIFICIALIDADE DA VIDA NO ESPAÇO DE CIRCULAÇÃO CAPITALISTA

Por Elisabeth Zorgetz.

A última semana no Brasil se revelou uma experiência de muitas faces. A classe política alternadamente acuada e debochada, grupos à esquerda do debate atônitos, organizações sindicais respondendo lentamente à realidade, a mídia hegemônica convulsiva na prescrição do apocalipse e as pessoas em suas casas poupando as cebolas ou se encaixando no transporte coletivo após horas de espera, para variar. Deste momento que já chega ao seu poente, alguns comentaram que o mundo parecia melhor na quietude, na reclusão doméstica tão cara ao trabalhador, na justa e obrigatória paciência do “não ter” o que nem o dinheiro pagaria.

Do outro lado da tela, a maioria das emissoras de televisão abertas apresentava a perspectiva de uma sociedade colapsada entre a desintegração da humanidade e o barbarismo diante da escassez de mercadorias e insumos energéticos. No tom mais vulgar dos thrillers apocalípticos dos anos oitenta, a greve dos caminhoneiros foi transmitida para o grande público numa ameaça velada de intervenções violentas e despolitização mal intencionada do debate em torno da paralisação, as faixas de frequência se comportando mais do que nunca como um verme corruptor da capacidade de reflexão e organização popular. A breve interrupção do abastecimento expôs, na verdade, o divórcio entre o processo e condições de trabalho promovido pelo desenvolvimento do capitalismo. Dependemos de toda a cadeia de mercadorias. Em três dias o abastecimento de água tratada em Itabuna estaria comprometido. Medicamentos desaparecendo em Porto Alegre. Gás de cozinha em falta ou comercializado clandestinamente em preços vertiginosos.

O capitalismo contemporâneo é arranjado como uma cadeia distribuída e coordenada, onde os produtos são fabricados em amplas distâncias, fronteiras nacionais e intrincadas estruturas sociais e tecnológicas. Economias que já foram orientadas em boa medida sob escala nacional, ainda que parte de um total global de nações de mercado, agora participam do conjunto de sistemas circulatórios transnacionais. Esses produtos circulam numa rede de intermodais que garantem sua mobilidade por via rodoviária, marítima e ferroviária. O capitalismo de cadeias de mercadorias se coloca como espaço da técnica e de teor apolítico, mas sua participação na economia geopolítica é fundamental (o Banco Mundial, em relatório de 2010 sobre o Índice de Desempenho Logístico, declarou que “uma rede competitiva de logística global é a espinha dorsal do comércio internacional”).

Claramente, as cadeias de abastecimento de mercadorias e suprimentos passaram por um processo reforçado de defesas, em que qualquer interrupção é encarada como uma ameaça à segurança nacional e acompanhada por policiamento militar e forças privadas. Este sistema encadeado é sensivelmente vulnerável às interrupções, mas o seu reforço ostensivo expõe ainda mais sua fragilidade. A logística é intensificada ao longo do tempo, mas a ameaça da ruptura sistêmica tem sido adotada como uma tática moldada também historicamente pelos movimentos sociais mais diversos.  Movimentos de trabalhadores, movimentos sociais e populares têm ocupado espaços estratégicos nas estruturas de circulação, assim como planejando ou realizando em caráter espontâneo mobilizações criativas em espaços sociais antes esvaziados. Sem contar necessariamente com as tradicionais formas de organização sindicais, se desperta em meio à profundas contradições o entendimento de que as pessoas que movem o mundo também pode pará-lo. O alinhamento de forças grevistas e movimentos de interrupção da cadeia consiste no pavor mais escandaloso da concentração de poder econômico-social.  Um desafio crucial à organização e também tradução de seu potencial e força são as relações grotescamente desiguais sobre raça, vivência social, gênero e sexualidade que expressam os trabalhadores do mundo em semelhança e diferença, ao mesmo tempo. A velha luta de classes emerge em espaços que a rejeitam no discurso formal, mas que a incorporam em seu sentido mais profundo, deixando as esquerdas embebidas na anoxia dos profundos mergulhos pós-modernos paralisadas, recusando-se a colher a informação do chão de luta ou enfrentar a bandeira moralizadora do operário teleguiado. Será, talvez, num pacto transformador que se opera a partir da diferença já expressa, insistente na ideia de que os sujeitos coletivos possam mudar do bárbaro fundamentalista e patriarcal que se junta em oração para derivados do petróleo, que se plante a semente da ruptura. E essa ruptura pode ter a ver com a incapacitação da circulação material, mas também pode apontar a destruição criativa que traz alternativas ao mundo, ao passo que as formas usuais são interceptadas, interrompidas, silenciadas, propositalmente esgotadas do seu método.

O olhar sobre a reprodução social que os povos indígenas, tradicionais e mulheres realizam é muito relevante para a perspectiva de que uma sociedade de colaboração pode ser gestada, construindo alternativas socioespaciais de aproximação entre trabalho e necessidades. É preciso superar as fendas sociais artificialmente instituídas pelo liberalismo de mercado como produção e reprodução, esferas públicas e privada, e a racionalidade egoísta. A sociedade é capaz de reincorporar valores ligados à ética e racionalidades que abarcam laços de solidariedade e cooperação associada. Ou seja, romper com a compulsão predatória e a anomia produzida pela competição individualista da economia de mercado. A expressão das economias sociais e solidárias como fenômeno organizado frente ao sistema hegemônico se funda na crítica sobre esta resposta neoclássica de que o consumo é a única forma viável de atender às necessidades humanas, cujo conjunto abrange a totalização da propriedade privada e a institucionalização do mercado autorregulado, que exclui parte considerável da população de seus benefícios em qualidade de vida e sustentabilidade nas relações ecológicas. No Brasil, a semana que se finda da crise de abastecimento estimulou o terror das classes médias, mas ofereceu um relativo impacto sobre a crise de reprodução permanente em nosso lugar dependente (ou subdesenvolvido, como alguns querem). Os preços dos alimentos, as agonias do transporte público, as carências dos espaços hospitalares, as violências da insuficiência em repor o desgaste de sua força de trabalho só aumentaram em razoável grau nos últimos dias, mas não se criou nada de novo sob o sol. É impossível ignorar o velho Marx: “A razão última de todas as crises reais permanece sempre na pobreza e consumo restrito das massas em oposição ao impulso da produção capitalista para desenvolver as forças produtivas como se apenas o poder absoluto de consumo da sociedade constituísse seu limite” (O Capital, livro 3, p. 615).

Elisabeth Zorgetz é mestranda em Economia Regional e Políticas Públicas (UESC), historiadora e escritora.



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