MÉDICO DÁ DICAS PARA A SAÚDE DOS OUVIDOS, NARIZ E GARGANTA DAS CRIANÇAS

Ilhéus já tem especialista no tratamento de crianças que sofrem com doenças nos ouvidos, nariz e garganta.

O otorrinolaringologista Norton Júnior, especialista no tratamento de crianças.

Os anos de estudo em Campinas deram um tom paulista ao sotaque do médico Norton Tasso Júnior. O jovem de 29 anos nasceu em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde fez o curso de medicina. Na Universidade de Campinas, deu continuidade à sua formação profissional, especializando-se em otorrinolaringologia, com ênfase nas áreas de otorrinopediatria (que não é comum na região), voz e medicina do sono.

Há dois meses, Norton desembarcou em Ilhéus para integrar a equipe do Centro Avançado de Otorrinolaringologia (Otoclin), que fica diante da praça Ruy Barbosa, perto da avenida Soares Lopes e da igreja São Jorge. Ele trabalha na unidade às terças-feiras, quartas, quintas e aos sábados.

Nesta entrevista concedida ao Blog do Gusmão, o médico fala sobre os cuidados necessários para a saúde da garganta, dos ouvidos e do nariz. Além disso, dá dicas úteis para a prevenção de doenças e reações alérgicas. Outro tema discutido é a maior frequência das crianças entre os pacientes que recorrem aos otorrinolaringologistas. A qualidade do sono também entra em discussão, assim como o contato das crianças alérgicas com animais e as formas de reabilitação das perdas auditivas. Leia.

Blog do Gusmão – O otorrinolaringologista se dedica à qual área da saúde humana?

Norton Júnior – Ele cuida da saúde dos ouvidos, do nariz, da garganta, e trata doenças nessas áreas, além das alterações que afetam a voz. Também tratamos o câncer de laringe nos estágios iniciais e as doenças da boca, de um modo geral, como lesões na língua e cavidade oral.

BG – Qual é a relação entre a otorrinolaringologia e a qualidade do sono?

Norton Júnior – A otorrinolaringologia tem muita relação com o sono, porque o sono pode ser afetado pelas doenças otorrinolaringológicas. Por exemplo, um desvio de septo nasal pode causar uma obstrução nasal, o que pode provocar o ronco. Uma criança com uma amídala grande, e às vezes com uma adenoide grande também, pode ser forçada a respirar pela boca e roncar. Portanto, alguns tratamentos para o ronco ou a apneia do sono passam por avaliações ou intervenções cirúrgicas nessa área.

Segundo o médico, lavar o nariz com soro fisiológico ajuda a prevenir infecções.

BG – Qual a importância do acompanhamento de um otorrinolaringologista pediátrico?

Norton Júnior – Crianças têm muitos problemas otorrinolaringológicos. O otorrinolaringologista atende pessoas de todas as idades, desde os recém-nascidos aos mais idosos. As doenças de ouvido, laringe e garganta são muito frequentes nas crianças. Outro tipo de ocorrência comum que as leva ao otorrino é a presença de corpos estranhos no corpo, como objetos introduzidos no nariz ou ouvidos. Ainda tem as que apresentam dificuldade para ouvir e de desenvolvimento da fala, que acabam precisando de avaliação.

BG – Quais são as doenças mais comuns que trazem as crianças ao seu consultório?

Norton Júnior – As rinites, amigdalites e as infecções de ouvido e as roncopatias, que provocam o ronco. A mãe vem e explica que a criança não está dormindo bem, porque está rocando. Quando a gente verifica, ela tem uma amídala grande, um problema de adenoide, uma obstrução que a obriga a respirar pela boca.

BG – O que é sinusite?

Norton Júnior – A sinusite normalmente é um quadro agudo. Às vezes, um resfriado mal curado acaba virando uma sinusite, que é a infecção dos seios paranasais. Quem tem rinite alérgica, por exemplo, tende a chegar num quadro de sinusite com mais facilidade. Por outro lado, nós temos pacientes com sinusite crônica, que é uma situação um pouco diferente dessas infecções ocasionais que são mais comuns.

BG – O uso do soro fisiológico é uma boa maneira de prevenir a irritação do nariz?

Norton Júnior – Sim. O uso do soro fisiológico é muito importante. Lavar o nariz com frequência impede o acúmulo da sujeira. Isso previne o quadro de sinusite e até um resfriado, por exemplo. O soro nasal é muito útil, inclusive na infância. Se toda criança tivesse o nariz lavado, de maneira adequada, diariamente, o número de infecções e complicações respiratórias seria reduzido.

BG – O soro não tem nenhum tipo de contraindicação?

Norton Júnior – Não, mas o ideal é que a pessoa saiba como lavar: existe uma posição ideal, uma quantidade certa e uma pressão melhor que seu médico pode te orientar. É recomendado que se lave várias vezes ao dia, conforme a necessidade e a quantidade de secreção acumulada no nariz. Pode usar à vontade. Não faz mal. Só tem benefício.

BG – No caso das crianças, quais sintomas indicam a necessidade de uma consulta com o otorrinolaringologista?

Norton Júnior – São vários. Uma criança com infecções de garganta ou nasais de repetição, respiração bucal, queixas auditivas, rouquidão, tosse crônica, dentre outros, pode procurar o otorrino para uma avaliação adequada.

BG – Além da qualidade do sono, que tipo de caso pode ilustrar como a saúde dos ouvidos

Norton Júnior – É tudo muito integrado. Eu vou dar dois exemplos. Primeiro: uma criança surda não desenvolve a fala. Por isso existe o teste da orelhinha, feito assim que a criança nasce, que ajuda a identificar problemas auditivos precocemente. Sem a identificação e o tratamento, a criança pode ter dificuldade de aprendizagem da fala, o que interfere na qualidade de vida. Identificado o problema cedo, o médico propõe um tratamento que a ajude a desenvolver a fala e a aprendizagem de modo geral. Aqui a gente já vê a integração entre audição e fala. Agora podemos falar da parte de respiração. Uma criança que respira pela boca – e tem esse problema ligado à adenoide grande, por exemplo – pode ter infecções nos ouvidos. E isso também pode ter consequência para a audição. Já a respiração oral aumenta as chances de infecção de garganta. Além disso, respirar apenas pela boca prejudica a formação da face da criança ao longo do seu crescimento. Sem a passagem natural do ar, os seios da face não se formam da maneira correta. Isso influencia na aparência física.

BG – O que é adenoide?

Norton Júnior – A adenoide parece uma amídala, é um órgão do sistema linfático, faz parte do nosso sistema de defesa. O pessoal costuma chamar de “carne esponjosa”. Ela fica lá no fundo do nariz, na rinofaringe. Toda criança tem em diferentes tamanhos. Normalmente, conforme a gente vai crescendo, ela tende a desaparecer na adolescência. Em algumas crianças, ela é muito grande e isso acaba obstruindo a respiração nasal e junta secreção. Ela também fica próxima à tuba auditiva, que faz o controle da pressão de ar dentro dos ouvidos. Por isso a adenoide pode prejudicar o ouvido, atrapalhar a respiração nasal e fazer a criança respirar pela boca.

Médico explica que é necessário ter cuidado ao usar cotonetes. Imagens: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

BG – Qual é o tratamento adequado para a criança com adenoide maior do que o normal?

Norton Júnior – O tratamento é sempre individualizado, depende de cada caso, depende do tamanho e da resposta da criança. Às vezes o tratamento é clínico: só com medicações. Às vezes, precisa ser cirúrgico. Varia conforme o caso.

BG – Existe algum alimento que deve ser evitado por quem sofre com rinite?

Norton Júnior – Existem diferentes tipos de rinite, como: a medicamentosa, a vasogênica e a alérgica. No caso da rinite alérgica, é necessário identificar os alérgenos que desencadeiam a alergia em cada paciente. A alergia pode estar relacionada à poeira ou a determinado alimento, isso varia de acordo com a pessoa. Essa identificação é feita com exames, como o de sangue e os testes cutâneos.

BG – O que é o desvio de septo nasal?

Norton Júnior – O Septo nasal é a parede que divide as duas narinas e as cavidades nasais ao meio por dentro do nariz, ele é cartilaginoso e ósseo. O desvio do septo nasal seria um desvalimento dele em algum ponto de seu trajeto tendendo mais para um lado, causando obstrução da cavidade nasal. Ele pode ser provocado por um trauma, como um soco, uma bolada, uma queda, ou por causa do próprio crescimento da pessoa. Na verdade, quase todo mundo tem um certo grau de desvio do septo, porque ninguém é exatamente simétrico, mas é considerado um problema apenas quando isso afeta a respiração de alguma forma.

BG – Alguns atletas fazem a cirurgia de correção do septo nasal para melhorar a respiração e o desempenho físico. No caso das pessoas que não praticam esporte em alto nível, esse tipo de cirurgia também é comum como forma de melhorar a qualidade de vida?

Norton Júnior – A maior parte das cirurgias de otorrinolaringologia é para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Por exemplo: uma cirurgia das amídalas pode melhorar a qualidade do sono da pessoa, com a diminuição do ronco. A correção do septo nasal também serve para melhorar a qualidade de vida, fazendo a pessoa respirar melhor pelas narinas, dormir melhor e ter menos infecções nasais.

BG – Quais são as cirurgias mais comuns na otorrinolaringologia?

Norton Júnior – São vários tipos de procedimentos. O mais comum é a retirada das amídalas e da adenoide. Depois vêm a septoplastia, que é a correção do septo, e a timpanoplastia, que reconstitui as superfícies timpânicas. Essas são as mais comuns, do dia a dia, mas o número de diferentes procedimentos é vasto.

BG – Existe uma idade recomendável para a retirada das amídalas?

Norton Júnior – Não existe uma idade certa, é dependente de cada caso, pode ser feita mesmo em crianças pequenas se houver necessidade e indicação adequada.

BG – Além da limpeza das vias nasais com o soro fisiológico, que tipo de cuidado a pessoa pode adotar para evitar doenças no nariz, nos ouvidos e na garganta?

Não se deve colocar nenhuma substância nos ouvidos sem recomendação médica, afirma especialista.

Norton Júnior – A limpeza oral é importante e a escovação dos dentes. Também é bom umidificar os ambientes em épocas de tempo seco. Aqui na região o clima é quase sempre úmido. O cuidado dos ouvidos também é importante. Aqui tem mar, as pessoas costumam mergulhar. Depois do mergulho, é necessário retirar a água dos ouvidos. Se começar a sentir desconforto, é importante consultar um especialista e, se for o caso, fazer uma limpeza nos ouvidos. Limpar os ouvidos em casa é uma coisa delicada. A limpeza com cotonetes deve ser superficial pois não podemos introduzi-los no fundo dos ouvidos. Além disso, existe muita crendice por aí.  Tem gente que fala para colocar óleo no ouvido e parafina, dentre outras coisas, por vários motivos. Não recomendo que nada disso seja feito sem a orientação do otorrinolaringologista, pois pode ser prejudicial e causar um dano irreversível.

BG – Nem o soro fisiológico?

Norton Júnior – Nenhuma substância, nem o soro fisiológico. Se sentiu alguma coisa, procura o especialista. Às vezes a pessoa está com um problema auditivo e pensa que tem alguma coisa dentro do ouvido.

BG – Quais são os cuidados importantes no convívio das crianças com animais?

Norton Júnior – Eu sou contra a ideia de que a criança deve ser privada do contato com os animais. No caso da criança alérgica, basta ter mais cuidado com a higiene. Você não vai deixar o animal em cima da cama da criança, por exemplo. Deixa um ambiente do lado de fora para a criança brincar com o animal. Depois, ela toma um banho e troca de roupa. Todo mundo sabe que o contato com os animais ajuda a criança a se desenvolver. Não acho certo que uma criança seja privada disso, a não ser em casos extremos mesmo.

BG – Com o avanço da idade, algumas pessoas vão perdendo gradativamente a capacidade de ouvir bem. Existe tratamento capaz de remediar ou reverter esse tipo quadro?

Norton Júnior – Depois dos 60 anos, todo ser humano tem algum grau de perda da audição, seja por motivo genético, metabólico ou até do próprio envelhecimento. A depender do nível dessa perda e do tipo de causa, é possível reabilitar o paciente. A reabilitação normalmente é com o aparelho de amplificação sonora individual. Alguns pacientes podem ser reabilitados por cirurgia para colocação de próteses ou implantes, mas isso vai depender da causa e do grau da perda.



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