TRIBUTO AO ESTADISTA WALDIR PIRES

Waldir ao lado de Napoleão
Waldir Pires ao lado do saudoso Napoleão Marques durante um comício realizado em Ilhéus, em 1982. Nesse ano, Waldir foi candidato ao senado federal e perdeu as eleições para Luiz Viana Filho. Nesta imagem do arquivo pessoal de Francisco Silva (filho caçula de Napoleão Marques) aparece um cartaz de Jabes Ribeiro, candidato a Prefeito de Ilhéus em 1982, ano de sua primeira vitória.

Esse artigo foi publicado no dia 19 de fevereiro de 2015.

Em homenagem ao grande Waldir Pires, que faleceu nessa sexta-feira, 22 de junho de 2018, decidimos publicá-lo novamente. 

Por José Henrique Abobreira

Abobreira.
Abobreira.

Conheci pessoalmente o Professor Waldir Pires logo após a decretação da anistia política com o retorno dos exilados ao país, em 1979. Por intermédio de Jabes Ribeiro, fora levado a proferir uma palestra para os estudantes da FESPI, hoje UESC. Saí impressionado com a exposição do professor a respeito da conjuntura e sua análise da estratégia para travar o enfrentamento democrático contras as forças do atraso e das trevas ditatoriais, na Bahia representadas pelo carlismo vivo, atuante e malvado.  Fui conhecê-lo como tribuno ímpar, o maior que conheço até hoje, meses depois, num comício organizado por Carlinhos Pereira, amigo e militante esquerdista do Mr8, na associação 19 de março em Ilhéus, evento em favor da convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, que contou com a participação das estrelas da oposição encasteladas no velho MDB das lutas populares e democráticas do Brasil. Participaram Waldir Pires, Miguel Arraes e Jorge Hage. Chico Pinto não pode participar, o MDB de Ilhéus avaliava que tiraria votos de Jorge Viana, então deputado federal, na sua base.

Lá pela meia noite, terminado o ato, me dirigi para casa a pé. Já tinha ultrapassado o horário de funcionamento do transporte público, e não percebi a longa distância que percorri, da Avenida Itabuna ao Pontal, matutando o que tinha ouvido dos líderes democráticos. Fiquei impressionado com o discurso de Waldir Pires e ao chegar em casa perdi o sono com as palavras dele martelando nos meus ouvidos. Sim, era preciso reorganizar a Nação Brasileira sob outros moldes políticos, encerrando aquele ciclo ditatorial vigente há vinte anos. Era preciso botar o povo na rua reivindicando uma Assembléia Constituinte e as eleições diretas para presidente da República. E assim tomei Waldir Pires como o meu guia político e decidi mergulhar de cabeça na militância político-partidária com a convicção, baseada no exemplo de Waldir, de que as mudanças só ocorrerão se todos derem um pouco de colaboração na vida pública e na luta política de nossa cidade, do nosso estado e do Brasil.

A campanha de 1986 ao governo do estado da Bahia com Waldir encabeçando a chapa das oposições fora uma campanha cívica e eleitoral memorável. As multidões paravam a comitiva do candidato a governador em todos os rincões do estado. Queriam ouvir uma palavra, uma mensagem de esperança por tempos melhores. No que pude, acompanhei a maioria dos comícios aqui na região. Em Itabuna vi o dia amanhecer na Praça Adami aguardando os principais oradores.  Waldir e Ulysses Guimarães falaram para uma multidão. Em Ilhéus e toda a região não foi diferente, as pessoas choravam de emoção com a fala do DoutorWaldir lembrando as atrocidades praticadas pelo “carlismo” na Bahia.

Vencidas as eleições, ele cuida de reorganizar a vida administrativa do estado, saneando as finanças públicas, ajudado que foi pelo nosso secretário da Fazenda Sergio Gaudenzi, com o qual tivemos a oportunidade, nós funcionários fazendários, de levarmos os pleitos da categoria, bem como a fundação das primeiras organizações associativas, depois convertidas em Sindicato Fazendário.

Em 1988, durante as primeiras eleições municipais após a redemocratização, presenciei  Waldir com total empenho organizar as suas forças no interior do estado para viabilizar a eleição de prefeitos alinhados com a sua política. Em Ilhéus, sob a batuta de Napoleão Marques, valoroso companheiro, organizamos o Partido Socialista Brasileiro (PSB), calcado nos ideais democráticos de João Mangabeira e Eusínio Lavigne, dois homens públicos ilheenses ilustres que extrapolaram a fronteira local e alcançaram projeção nacional. 

Dia 28 de junho, aniversário de Ilhéus, Waldir a convite do prefeito Jabes Ribeiro desembarca na cidade e após os festejos, refugia-se na casa do irmão Walter Pires, amigo nosso e advogado regional. Waldir envia uma mensagem por um emissário, dizendo querer conversar com a executiva do PSB. Na hora aprazada estavam lá com o governador, este que vos escreve, Napoleão Marques, vereadores socialistas Ruy Carvalho e Hamilton Andrade, Florinho e Mauro Goes. Ouvimos um apelo veemente do governador Waldir Pires de que não poderíamos dispersar as forças alinhadas ao seu projeto de reorganização da Bahia. Era a unidade dessas forças ou a volta do antigo modelo que governara a Bahia por vinte anos praticando perseguições e injustiças contra os adversários, já bem conhecidas por todos nós.

O apelo político do governador surtiu efeito e, em Ilhéus, articulamos uma grande Frente Popular, aliança ampla de partidos encabeçada pelo PMDB-PSB, mais o PCdoB,PCB e demais legendas. A união resultou na chapa João Lyrio e Jaziel Martins, respectivamente prefeito e vice-prefeito.Nessa eleição fui a candidato a vereador, mas não me elegi. Fiquei na suplência da coligação. A vitória só viria em 1992 quatro anos depois. Tudo vem no seu devido seu tempo.

Na minha passagem pelo legislativo ilheense e, logo após, como vice-prefeito (Waldir Pires esteve na convenção que me escolheu candidato do PT a vice) e secretário de desenvolvimento econômico, devo confessar que procurei imprimir aos mandatos eletivos, a marca que Waldir, como homem de visão e estadista, sempre professou nas suas mensagens: a probidade, a ética no trato da coisa pública e o respeito para com os adversários, além da luta em favor dos menos favorecidos. Tive êxito nesse campo.

José Henrique Abobreira é auditor da receita estadual e articulista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus. 



6 responses to “TRIBUTO AO ESTADISTA WALDIR PIRES

  1. Amigo Abobreira:
    Parabenizo-lhe pelas suas crônicas, muito bem sintetizadas e sincronizadas. Apenas com o intuíto de lembrar um simples fato, registro o memorável comício na praça do Tamarineiro, no Malhado, senão me falha a memória o último em Ilhéus da caminhada vitoriosa do Dr Waldir Pires, onde a chuva incessantemente não parava de cair e aí usou da palavra o ícone maior daquele momento e sabiamente começou a sua fala: “E o povo na praça e a chuva caindo sem ninguém arredá o pé … e por aí foi”. Apoteose total culminada com a música: entoada na voz de Caetano Veloso: “amanhã vai ser um lindo dia da mais louca alegria…, mesmo que uns não queiram…”

  2. Bastante interessante esse artigo. Abobreira me fez relembrar momentos importantes de nossa vida politica, aos quais muitos deles estava presente.
    Quando vejo hoje alguns fazerem militância politica baseada no desrespeito as pessoas, sempre lembro do mestre Valdir Pires, que teve um mandato de Senador surupiado pela direita, e mais adiante negado pelo PT. Valdir Pires é um politico na acepção da palavra. Parabéns Abobreira

  3. Retornar a história política, é necessária para articularmos o futuro com maturidade, ética e respeito aos indivíduos. Creio que temos que planejar com o lema de Waldir Pires ” O amanhã há de ser outro dia”.

  4. Quando vi esta foto, lembrei do dia em que tive a oportunidade de conversar frente a frente com Dr. Waldir onde ele me explicou que o FHC alardeava o seu exílio, pelo contrário foi um auto-exílio pois era filho de militar. Bem como lembro do momento em que ele se dizia perplexo com Jabes, disse ele:” Sempre participei de atos e reuniões convocadas por Jabes e na primeira dificuldade ele cai nos braços do Antonio Carlos (ACM). Francisco Waldir Pires de Souza, homem de bem, pessoa integra e honesta acima de tudo, espécie em extinção na atual política brasileira. Que Deus o acolha na sua glória.

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