EU EXISTO

Por Mohammad Jamal.

Equívoco petulante. (“Die Religion… Sie ist das Opium des Volkes.“). “A religião é o ópio do povo” esta é uma frase muito presente na Introdução da obra, em Alemão “Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie – Einleitung”, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, de Karl Marx. Alias, não foi, todavia Karl Marx, o primeiro a se utilizar dessa impactante analogia, muito embora se lhe atribuam frequentemente à outorga autoral. Ele, de fato, sintetizou uma ideia que esteve presente em diversas obras literárias e filosóficas de grandes autores do século XVIII.

O Xis da questão. Se nos fixarmos no sentido lato dessa ideia, no seu filosofismo sintético, sua hermenêutica crítica e seu tendencioso antropomorfismo; vamos confrontar à frente, caso tenhamos projetado essa “ideia”, amálgama de doutrina sociológica de concepções heterogêneas, rolando-a ao longo dos séculos XVIII ao XXII, dentro de um torvelinho de equívocos axiomáticos mutagênicos que jamais alcançarão o pretenso sentido de regra geral; as dimensões de “A religião é o ópio do povo” não transcendem os processos sociopolíticos, embora os balizem de alguma forma.

A silagem suplementar está servida! O homem, sua língua, seus costumes, necessidades e anseios coletivos, não diria que evoluem cultural e sociologicamente racionais em sintonia e adequação à sobrevivência e consonância coletiva. Entretanto, percebemos implícita uma indisfarçável ambivalência multipolarizada, instável e imprevisível como as alternâncias das marés nos oceanos, diferente em cada um deles. O homem enquanto elemento de observação sociológica é deslumbrante e admirável conceitualmente nesse instante, mas logo se torna repulsivo e abjeto no momento seguinte. Suas instabilidades humorais, seus impulsos e carências, sua gana pelo abstrato sensorial, sua exagerada autoestima, sua ânsia entre o Borderline e o bipolar o faz (touro de Minos) o Minotauro que afrontou à razão lógica, aqui trato figurativamente a “razão” como sendo a Poseidon, seu álter ego de plantão.

São Longuinho, Santo das coisas perdidas. Quais ou quem são os atuais deuses do povo do século XXII; do homem sociologicamente contextualizado “cidadão”? Quais são os seus “ópios” alienantes, seu Êxtase, seu álcool, seu Diazepan, suas químicas inebriantes da razão lógica que confundem e obscurecem seu discernimento racional e serenidade, que tantos prejuízos acarretam à sua efêmera sobrevivência? A ambivalência cultural, se a podemos chamar assim, de cultural, tem quase nada, porquanto decai gradativamente a níveis fisiológicos da mera bestialidade instintivo-sensorial. Um inexorável processo de involução obscurantista transparece arrebatar a mente e o consciente coletivo para os estágios fisiológicos primordiais mais básicos que os caracterizam biótipos racionais: o andar ereto, o polegar opositor e a capacidade de formular o pensamento instintivo para a mera sobrevivência: Comer, defecar, copular e reproduzir descontrolada e prolificamente outros seres da sua espécie e destinação… Só.

Autismo e Luxúria. Vítimas da inercia, perdidos na afasia, indiferentes ao que não causa gozo, prazer, saciedade.  Não vou me ater a lavar os cueiros sujos do Estado brasileiro, suas maracutaias e fraudes praticadas contra o cidadão de 2ª categoria, nesse caso, “nóis”. A esbórnia imoral e criminosa que predomina entre os “guardiões do Estado” são fatos vergonhosos, icônicos e alegóricos, embora a massa sequer os aperceba quando bem embalados em bolsas clientelistas e coloridos óbolos adjutórios de míseros dinares.

“Tejem Presos”. Aqueles que, obrigados por imposição da lei, induzidos ao ato falho do erro para elegemos e incumbimos da guarda dos valores dos nossos impostos e da sua criteriosa e subsequente aplicação à bem dos contribuintes sob uma das maiores cargas tributária do mundo, diga-se, sem retorno; é isso que você está vendo agora! Infiéis depositários do nosso mirrado dinheirinho, só eles enriquecem com seus “negócios particulares” que os milionarisam – desculpem o neologismo chulo – e enriquecem da noite para o dia de mandato! Com eufemismos diríamos, administradores incompetentes e política de aplicações erráticas em negócios inidôneos em mãos de empresários inadimplentes contumazes. É nesse ambiente salutar onde autoridades aquarteladas em elevadíssimos escalões de poder, inatingíveis e inimputáveis, acima de qualquer suspeita levantada a público, livram a cara de amigos-más-companhias, milionários corruptos pegos com as mãos na massa surrupiando do povo com a ajuda do Estado e complacência do nosso caquético Código Penal, coitado, irreconhecível em sua conspurcada jurisprudência legislada em causa própria.

Um amigo hindu sacana. Semana passada conversando amenidades com o estimado amigo Prakrit Raj lá da cidade Agra, do estado Uttar Pradesh, Índia, ele me saiu com essa: “Meu querido Efêndi” – por causa da minha ascendência turca islâmica – “Mohammad. Essa semana lembrei-me de ti e das tuas críticas cáusticas temperadas com histriônicas ironias sobre nossos costumes Indus. Estava sentado à tardinha aqui na porta do meu Al-bazaar (bazar mesmo); assistindo os meninos e rapazes ‘cagando’ tranquilamente na calçada aqui em frente. Você sabe que por aqui se pode cagar em qualquer lugar público, rua, praça etc., menos no interior dos Pagodes e Templos. É que por aqui temos as ‘Dalits’ que passam todo o dia catando cocôs humanos nas ruas e nas privadas secas das residências dos mais abastados. Por aqui se caga a qualquer hora em qualquer lugar, aos montes; tão comum como é o ato de roubar ai no Brasil, não é!”. Esse bom amigo fdp, já sabe lá do outro lado do mundo, o quão corriqueiro é roubar impunemente por aqui; e veio me sacanear com meu próprio veneno irônico. Ate pensei em reagir fazendo piada e pouco caso com a mãe Ganga, o sagrado rio Ganges, um esgoto gigantesco a céus aberto, mas mexeria com seus brios religiosos e sua fé hindu. Engoli em seco, e prometi que qualquer hora dessas iria dar uma grande cagada numa Avenida de Agra em homenagem ao amigo Prakrit Raj.

Não apertem meus úberes. Também tenho meus “ópios”, meus orixás! Que Tiro foi Esse?  Longe de mim, pensar em destruir meus “ídalos”, urinar sobre as imagens dos meus “lídeus” populistas, caixeiros viajantes com malas apinhadas de sonhos míticos dados de graça ao povo. Por aqui, a exemplo das centenas de deuses e deusas da fé hindu, nós temos a Deusa Copa, o deus Neymar, o Carnaval, os festivais de “pão e circo” que o povão adora e sai “matano”, também o funk, a Sofrência, o pagode na laje, os Feriados prolongados e um sem fim de deidades milagreiras temperadas com dezenas de loiras litrão, bem geladas, para dopar o povão enquanto nos ordenham dos preciosos votos.

E vou tocando meu bonde em direção à Lapinha. Depois de ouvir centenas de contos da existencialidade, aprendi ainda criancinha a lê-los por entrelinhas; o universo da minha imaginação começou a se ampliar cada vez mais, pois, busco por mim mesmo as narrativas que quero, lendo-as e relendo-as em meu próprio tempo, realizando as pausas e as entonações que acho necessárias, para efetuar a ênfase e a emoção que meu próprio coração buscava quando jovem e ainda busca incansavelmente na minha complexa velhice existencial. Dos contos da vida, vieram depois, os romances, as biografias, os filósofos, os dramas narrados, o teatro, as óperas, a paixão pela música clássica, pelo canto lírico, pelo jazz melódico e seus improvisos talentosos, pelo onírico existencial que apascenta nossos sonhos das madrugadas em busca do equilíbrio.

Penso, logo existo? Trago em mim todas as semente das novas descobertas, o empirismo dos novos conhecimentos, dos sentimentos nobres e da poesia do viver; e quando isso me vem em memória, lembro-me do meu irmão amado, Telmo, que plantou dentro de mim o prazer pela leitura, pelo belo, pelo estudo, e pela investigação; um prazer que renasce a cada dia no encontro com os textos que ora se fazem narrativos, ora dissertativos, procurando o conteúdo com que teço sonhos gratos no âmago de um pensar coerente e racional nesses tempos em que a impositiva ditadura do obscurantismo nos tornam mudos, trôpegos no pensar, mas ainda assim, culturalmente racional. Penso, logo existo. Ufa!

Mohammad Jamal é articulista do Blog do Gusmão.



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