JUDITH, A MOÇA ESTELIONATO. EM LONGOS PARÁGRAFOS METAPSICOLÓGICOS…

Por Mohammad Jamal.

O dia transcorreu soturno, pesado e tedioso, um sepulcro atemporal. Hoje carreguei toneladas de apatia; confrontei rostos banidos da esperança cujos corpos e suas texturas transpareciam personagens extraditados da Divina Comédia. O estupor do medo desenha olhos de barro em seus rostos macilentos. A üzüntü, Dünya… “Kasvetli olmanın nesi mükemmel?”, diria assim vovô, no seu turco carregado de expressionismo linguístico (tristeza, depressão… “O que há de tão grande nesta depressão?”). Tento escapar ileso desse redemoinho de existencialidades sem perdas e danos. A palavra é a ficção de um vazio; um parcel de questionamentos existenciais de onde assisto a moral, essa desavergonhada, entregar-se lasciva à vida de pública da devassidão por trinta moedas de um real, ou muito menos, ou por quase nada… Mixaria.

Lapso, me pego de pé, totalmente despido de pudores, nu no meio daquele quarto/alcova. Que mais poderia eu fazer nesse fim de tarde, quando a escuridão sepulta sem dó o dia ainda agonizante para mim com pesado atraso? Que fazer senão atender ao apelo, apoiar meu corpo suado sobre o corpo daquela mulher de “negócios” esparramada nua; pernas abertas e olhar macilento fitando a impassibilidade da própria apatia que vê estampada no bolor que desenha mapas no teto, nas paredes, na memória? Que fazer senão copular burocraticamente como num tedioso rito processual de agravos restringentes como montam ao povo políticos corruptos? A mulher é só a sombra de um constitutivo abstrato numa ficção de palavras surreais traçadas a pinceladas impressionistas. Salvador Dali não é, nem de longe, o que eu chamaria de o louco daqui. Dali abstraiu-se no surreal; aqui é concretismo existencial.

Havia silêncio no ar e uma única lâmpada no ambiente, tal como se fora enforcada no centro do quarto pendendo no bocal por um fio coberto pelas teias do tempo.  Debilitada e mortiça, sua fraca luminescência tingia os poucos móveis, além da cama e o criado mudo, de um amarelo ictérico como a bile que também me amarelecia fantasmagoricamente as feições a ponto da memória gustativa me fazer sentir amarga a saliva que me brotava sob a língua. E desabei inteiro, inapetente e sem ganas sobre aquele corpo feminino, um serventuário com manchas roxas da lida ali e acolá. Passei em seguida aos movimentos rítmicos ondulares, como se coreografando um funk fúnebre ou réquiem litúrgico para exéquias de uma vagina pós-exumada. Foi quando a vagina exumada, ou melhor, a voz da mulher serventuária, de negócios baratos, deu sinais de vida. Ela fala!

_ “políticos fedem a dinheiro cagado!”.

Senti um ligeiro abalo na força, mas me mantive silencioso e ereto. Ela, de novo:

 _ “Você não vai me bater?”.

Meu autocontrole estava chegando ao fim. De novo, ela:

_ “Nem um tabefinho?”.

Num esforço sobre-humano, produzi mais silêncio… Aí ela acendeu o detonador:

_ “Acho que vou peidar!” e emendou: “Posso fazer uma ligaçãozinha do seu celular pra mamãe?”. Foi nesse momento que eu retirei a trava da granada e, como diz seu Hugo, que é espírita: baixou em download o espírito do Kaczynski, o Unabomber. “Recolhi” o falo e mandei ver!

Eu incorporado: _ “Senhorita, por gentileza, seja profissional; cumpra o Código de Defesa do Consumidor e faça o mínimo daquilo que a senhorita prometeu em seu eloquente discurso programático-vendedor ainda há pouco ali na praça! Sou levado a acreditar que fui ludibriado por sua veemência que, tardiamente, reconheço como argumentos meramente retóricos e inverossímeis! Antes senhorita me prometeu e assegurou peremptoriamente que faria o Kama Sutra; as Mil e Uma Noites; o Tabula Roxa; a Torre de Pizza, Rosca sem fim; a Cavalgada – não é a do Geraldo Vandré – mas ate agora a senhorita só me fez viver as centúrias da Divina Comédia, no tomo O Inferno! Desculpe-me por pronunciar uma má palavra de baixo calão, mas “pôxa”, estou deveras irritado com toda essa frustração! A senhora poderia, digo, senhorita, poderia pelo menos prometer somente aquilo que tinha condições de fazer; e não sair por aí cidade afora, distritos e vilas vendendo os prazeres dos grandes haréns a preços populares para incautos que se deixaram levar pela sua verve fantasiosa e, me desculpe mais uma vez, mentirosa.” desabafei.

Pus-me de pé, já mais calmo, catei na mochila a minha velha carteira porta-cédulas onde vi, de relance, meu título eleitoral e o RG. E tendo retirado de lá uma cédula vermelhinha de 10 reais, ainda que muito a contragosto, assegurei o pagamento indevido àquela moça que me prometeu mundos e fundos, frentes e laterais, prazeres que integravam seu veemente discurso programático, fazendo-se passar enganosamente por uma ninfa, uma Iracema, uma virgem dos lábios de mel, para esconder a verdadeira face dos sentidos e intenções estelionatárias logisticamente pré-programadas. E eu, o fauno tolo e idiota ainda lhe assegurei meu VOTO de confiança! E ainda dando-me por grato por não ter sido dopado num acachapante “boa noite Cinderela” e ter tido o meu Título Eleitoral, meu tesouro, roubado, e sabe-se mais lá o que! Já pensou no prejuízo que seria? Meu titulo eleitoral, meu sonho quimérico. O que pensariam meus “lideus”, meus “símbalos e ídalos”, vestais honrosas dos meus sonhos libertários, ante a tamanha irresponsabilidade e descuidado com minha preciosa ferramenta sufragar? Pôxa!

Mohammad Jamal é articulista do Blog do Gusmão.



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