NOSSA INSURGENTE ECOLOGIA SEXUAL

Por Elisabeth Zorgetz.

Tive dez dias de férias, o que me permitiu sair relativamente de um redemoinho de tensões reais e inventadas, prazos, relações interpessoais, horários impossíveis e tudo mais. Sou uma moça contraditoriamente careta e carrego minhas demências moral-romântico-bucólicas por aí. Mas estou vivendo um curioso momento de intensos pensamentos que me atravessam como as cores elétricas e formas absurdas do final de Annihilation. Portanto, aqui estamos para falar sobre um conteúdo socialmente indecente, amplamente inapropriado, e de teor ainda mais descarado que a filosofia aleatória de um filme de ficção científica.

Realmente conheço poucas pessoas que acreditam em sexo. Que acreditam nele como uma atividade com potencial de fortalecer os laços, melhorar nossas vidas, abrir as janelas do espírito, ou mesmo mudar o mundo. Mas todos temos um forte desejo pelo poder enquanto capacidade de afetar algo ou alguém. Nos perguntamos em algum momento da vida: transar menos e com menos pessoas nos torna mais virtuosos do que o contrário? Nossa ética não é medida por esses valores, mas pelo cuidado com o qual as tratamos e nos permitimos ser tratados ou tratadas. Por quanto nos suportamos com honestidade o suficiente para admitirmos quem somos respeitando o restante.

A economia dominante nos faz acreditar na lógica da carência sobre o que é precioso. Isso nos faz acreditar que, se algo é muito bom, como transar com alguém ou se masturbar, devemos evitar, poupar ou enclausurar. Como uma coisa, não uma relação. Tenho apenas dedilhado a economia, mas sou um todo profundo de intuições. Tenho hipóteses que mais sugestões podem proporcionar mais desejo, mais prazer pode produzir mais conexões, maior cobertura emocional, mais amizades e boas relações. Como uma economia holística, uma ecologia sexual coletivista, compartilhando o corpo e os sentidos como uma ação positiva e se opondo firmemente a esta economia de fome, medo e relações apavorantes. Isso me pareceu muito hippie agora, e pensá-lo me faz uma bruta preconceituosa. Também me faz lembrar alguém que alegremente não me perdoaria por usar holismo, coletivismo e ecologia no mesmo texto. O que importa é: esse parágrafo não deve ser encarado como uma orgia naturalista. Longe disso, embora nada contra.

O que quero dizer é: nossa verdadeira economia se move por afinidades. Uma floresta de fluidos pulsantes porque temos a capacidade de transar, ser empáticos, se apoiar mutuamente, distribuir os nutrientes necessários em nosso solo fértil para desenvolver relações afetivas realmente importantes e saudáveis. Relacionamentos afetivos e sexuais não são saldos bancários: não existe débito, não existem transferências. Até então, foi verdadeiramente orgânica a forma como nos envolvemos com os corpos dos quais nos aproximamos? E isso não tem nada a ver com sexo. Nos alegramos com esse contato, de alguma forma ou em memória? Aquele devaneio sobre alguma lembrança engraçada ou constrangedora, enquanto o ônibus balança e você acaba fazendo uma cara engraçada para completos estranhos. A alegria não é a ausência de conflitos. Sem conflitos, só a morte.

Nós vivemos em um mundo que ainda considera (silenciosamente) aceitável um crime “passional” (o intraduzível: matar alguém pelo ciúme desesperado, especialmente corpos biopoliticamente atribuídos como mulheres). Por outro lado, por amor prometemos o inalcançável e o que é celeremente mutável, ocultamos situações cotidianas, distorcemos fatos, vivemos o engano. Por amor, medo da solidão, do abandono e da punição, vivemos acorrentados. E de soslaio, encaramos o amor como um patrão. A luta contra a territorialidade sexual é uma aliada pela destruição do velho mundo, pela construção de novos modos de vida, uma nova educação sentimental, novos direitos reprodutivos, novas vontades de conceber e parir. Uma aliada, inclusive, muitíssimo rejeitada, empurrada com força pelas estocadas morais bem fundo em nossas personalidades mal formadas. A luta contra o ciúme deve ser travada com a mesma ferocidade que a luta contra as instituições de controle: o Estado enquanto aparato repressivo, a violência sexual e o abuso, a família heteronormativa, a escola burguesa, as indústrias psiquiátricas e as prisões.

Existem diferentes nuances de intimidade. Há prazeres que agradam alguns corpos e outros não. Existem vontades realizáveis e irrealizáveis. Há desejo sem o menor sopro de amor. Há desejos entre diferentes gêneros que não podem ser incluídos num único corpo. Desejos existem! E todos sabemos disso. E também é por isso que precisamos reivindicar nosso desejo de estar sozinhos e sermos novamente amigos, pelo afeto, pelos prazeres não sexuais, pelas intimidades das vivências. E podermos ser muitos outros corpos, corpos de camaradas de luta, de estrada, de trabalho, de banhos de mar, de complicados pensamentos. Nosso relacionamento e nossa amizade com o que somos é para o resto da vida, e estar sozinho é a oportunidade de nos construirmos intimamente e de trabalharmos nossa própria mudança. Ser um casal não deveria se desenvolver como uma opção supervalorizada, a salvação diante da angústia, da infelicidade e das neuroses deste mundo. A completude é um mito cruel. Estar sozinho é ser capaz dos maiores prazeres reflexivos e excitantes. E aprender a estar sozinho significa viver, fundamentalmente viver, no abismo do risco, até o limite, sem nunca cair.

O prazer e o afeto também são verdades sem pessoas presentes. Quem não sentiu as ondulações no coração diante de uma praia quieta no fim de tarde? Ou na frente de uma refeição que preparamos e ficou realmente gostosa? Na frente de boas palavras escritas quando nos julgamos autores? Numa fulgurosa insurreição popular? Não sentimos grandes paixões frente a gestos delicados de estranhos? Alguém que nos ajuda despretensiosamente numa situação difícil e solitária. Alguém que nos empresta um bom livro. Alguém que compartilha seu pedaço de torta. E nesses momentos de profunda e automática intimidade não há desespero, não há desejo provocado pela ausência, nem placebo contra a solidão.

A recompensa pela abolição do ciúme, da inveja e das inseguranças contra tudo e todos será nossa própria liberdade sexual. Um tanto diferente do que era proposto em 1970. Nós não nascemos gárgulas possuidores, nem grandes amantes libertários, nos tornamos. E desaprender a posse afetiva é como qualquer treinamento, uma tarefa difícil que exige disciplina. Mas ninguém pode nos acusar que isso seja ruim ou errado. Gritantemente errado é o nosso atual modo de vida: provocando dor, adoecendo, ferindo, esmagando a existência do outro. Talvez a única maneira de construir nossa própria transformação seja atravessando as fronteiras, desestabilizando quem somos da forma mais segura possível. Você só pode compartilhar o que tem para compartilhar e o que quer compartilhar. Opondo-se ao pessimismo como um desejo latente, um otimismo da vontade, afirmando docemente o que gostaria.

Minha aspiração é que todos nós nos emancipemos do entendimento de posse sobre os outros e nos entreguemos à biologia dos laços de prazer e afinidade. Que nos tornemos capazes de enfrentar nossos medos e desaprender o que aprendemos. De sermos capazes de administrar nossas emoções não pela restrição injustificada, mas pela ternura da companhia. Realmente tenho estado reflexiva sobre como Foucault discute a ciência sexual enquanto uma formação burguesa, ou que a sexualidade é inicialmente uma ciência burguesa, uma preocupação burguesa para os corpos burgueses, e só mais tarde, com muita dificuldade, foi estendida às classes trabalhadoras. Essa grande hipótese me parece mais confiante quando nos debruçamos sobre o estudo da reprodução e entendemos como a sexualidade desempenha um papel central na acumulação primitiva de capital ou na subsunção real do trabalho por ele. Bem, há muitas páginas apaixonantes em História da Sexualidade, mas o relato de Foucault sobre a sexualidade moderna é um tanto desequilibrado em seu objetivo, porque enfatiza um período muito tardio desse desenvolvimento, o final do século XIX e se concentra absolutamente na burguesia enquanto força hegemônica indiscutível. Também houve uma desmaterialização do discurso, transferindo questões sociais para a esfera individual, numa estranha subversão simbólica superestimada que nos trouxe até aqui: a questão do corpo numa política de reconhecimento através da manipulação neoliberal, neutralizando tendências mais radicais. Essa ainda é uma discussão longe de ser esgotada.

Mas descendo à terra da não-intelectualidade: nunca pensei que poderia dizer isso tão suavemente, mas não fará mal algum abandonar o binômio homem-mulher, abandonar o casal e a monogamia que constrange sonhos e desejos. Essa claramente não é uma decisão individual, tampouco íntima. Não será bem aceita pelos leitores. Não seria bem aceita pelos nossos professores primários. Não será bem aceita por mim, enquanto não for uma radical transformação deste mundo. É o melhor uso que a destruição criativa poderia fazer do próprio conceito schumpeteriano. Pôr tudo isso abaixo e ver até que potencial energético podem ser feitas nossas sinapses. Um orgasmo clitoriano é um protótipo perfeito de uma poderosa descarga elétrica e é horrivelmente descrito pela literatura. Acredite quando digo que muitas mulheres se tocam para sobreviver nesse oceano de lama. Poderíamos, no entanto, viver nos tocando.

Elisabeth Zorgetz é graduada em História, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Economia Regional e Políticas Públicas da UESC e escritora.



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