O QUE BUSCAREMOS NAS CINZAS?

Por Elisabeth Zorgetz.

Já está feito. Já pegou fogo. Quer que faça o quê?

É uma pergunta verdadeiramente importante, a despeito do desprezo e incompetência nela contidas. Uma vez compreendida (inclusive internacionalmente) à exaustão a inflamável combinação de baixo orçamento e depreciação institucional de cima para baixo, cabe completarmos a pergunta capciosa. “Quer que faça o quê (para que nunca mais aconteça)”?

Então comecemos pelo mais simples e indispensável. Vamos conhecer o museu. O que está encoberto pela grossa camada de trabalho, tristeza e cinzas. O museu tem muitas histórias. Não tenho habilidade ou pré-requisitos suficientes para contá-las aqui. Muitos dos museus no Ocidente iniciaram seus trabalhos como coleções particulares, uma expressão da opulência de famílias e instituições ricas. A Galleria degli Uffizi, em Florença, quando surgiu em 1581, foi um espaço privado de exibição da coleção da família Medici. Ludovica, último membro da família assim conhecida, legou a maior parte do seu conteúdo ao estado da Toscana, dois séculos mais tarde, considerando-os um bem público inalienável. Por todos os grandes centros europeus, as coleções de história natural exibiam sua peculiaridade, mas também serviam de vitrine da sofisticação de seus proprietários. Salões de curiosidades apresentavam espécimes exóticos ao lado de artefatos, em variadas tentativas de classificar o mundo conhecido. Eram amostras da diligência perniciosa do colonialismo, que colocava a sociedade branca no cume da civilização e encarava outros lugares, povos e culturas como inferiores e exploráveis.

Correntes ideológicas diversas e muita história de contribuições políticas radicais e reformadoras alteraram ao longo dos anos o significado e valor social do museu. Embora não tenham começado como tal, os museus hoje são um bem público, ainda que alguns ainda sejam instituições privadas. Seu fortalecimento gradual foi acompanhado do progresso científico, da valorização e desvalorização de determinados campos do saber, de novos conceitos, movimentos da humanidade e o célere desenvolvimento da virtualidade. A chegada do último século tornou evidente como a tecnologia havia se apossado de um amplo espectro da vida e colocado em risco o prestígio do patrimônio histórico, e sobretudo os museus, como espaços irrelevantes. Estes espaços e seus profissionais, contudo, adotaram rapidamente mecanismos de sobrevivência para rejuvenescer ou reinventar o museu: digitalização, simulação eletrônica, ambientes virtuais, exposições interativas e inúmeras outras inovações foram oferecidas como dispositivos de acesso ao conhecimento. O saldo institucional universal foi positivo nesse processo, e os museus incrementaram seu significado social e cultural. Contudo, as desigualdades em que esse desenvolvimento ocorreu são gritantes, principalmente para aqueles que trabalham com patrimônio cultural e ciência lidando com orçamentos decrescentes, cortes, encerramento de programas e austeridade voraz.

Como segundo passo mais fundamental para “quer que faça o quê?”, agora cabe buscarmos compreender para que serve o museu. Os impactos que um museu provoca em seus visitantes, participantes e pesquisadores são de ordem psicológica, educacional e sociológica. A experiência no museu pode alterar positivamente a autoestima, a sensação de bem-estar, acrescentam estímulos e formas de aprendizado ao crescimento educacional, ou mesmo apontam evidências para a qualidade da coesão e integração social (DODD; JONES, 2014). Como promotores da educação e intercâmbio, recebem um público variado e representativo, através das importantes redes estabelecidas com outras instituições. Como um espaço democrático, não busca a neutralidade, mas as tensões necessárias para reequilibrar o poder. A extensão com a comunidade e as exposições de teor mais crítico desempenham um papel importante nessa tarefa. As coleções num museu não são simples objetos alocados num tempo ou espaço preciso ou impreciso, mas também são permeadas por associações e representações complexas. Principalmente, as coleções são feitas de relações, que qualquer visitante, de qualquer idade ou condição, pode investigar em sua experiência num museu. A curiosidade que pulula em milhares de cérebros que se movem pelos museus mundo afora ajuda a extrair ainda mais significados e associações dos objetos, e somando-se isso com o auxílio da pesquisa as coleções passam a representar muito mais do que somente um grupo artefatos. Essa curiosidade em torno das coleções provoca uma consciência compartilhada por pessoas distintas, por isso ligada à sociabilidade, à conexão, e habilidade de encontrar, reconhecer e meditar positivamente sobre a diferença. Apesar da aparência conservadora ou mesmo postura conservadora em muitos exemplos, os museus nos indicam que lá iremos encontrar a alteridade, suspender nossos julgamentos e quem sabe, desenvolver mais empatia. Os museus são alguns dos relevantes espaços que nos capacitam a alcançar a humanidade, as sociedades, e preferencialmente, a sociedade em que vivemos e como nos portar criticamente dentro dela. Constituem, portanto, um verdadeiro espaço de participação na vida pública.

A ideia da cultura como algo separado do cotidiano, como conteúdo supérfluo às vidas comuns não é uma permanência, e possivelmente também está enraizada numa expressão do individualismo e no mercado da arte que acompanha a hegemonia burguesa. Mas assim como muitos outros elos rompidos nesse mesmo processo, o sentido da cultura artística estava inserido em toda atividade humana. Um tipo de arte, técnica e cultura que tem a ver com a forma de criar ou de agir. Não são instrumentos que permitem apenas outra visão do mundo, mas oferecem sugestões para a transformação social, um imperativo ético para resistir aos efeitos perversos do capitalismo e seu pretencioso fim da história.

E finalmente, o que o museu não é? Os museus que abrigam coleções que são patrimônio nacional e universal, museus públicos, de governança democrática, não são o espaço seguro do não-conflito, da contemplação do passado, da mesma forma que as identidades vivas e resistentes fora de suas paredes não são “coleções vivas”. O museu democrático não é anti-acadêmico, não é anti-pesquisa, é não anti-intelectual. Ele também exige especialistas, financiamento, pesquisa e excelência. Popularizar o museu (e outros espaços) não equivale a diminuir o que está construído em torno dele, ao contrário, é ampliá-lo mais ainda. Esse é o museu que trabalha com variadas atitudes e abordagens, não é elitista, nem exclusivista. Com todas as suas limitações, um museu, pelo que me recordo de algumas experiências que sequer captaram as bordas do seu potencial, é produto vivo e dinâmico de muitos esforços, empenho puramente humano, vontades tão grandiosas que embora devam ser remuneradas, não tem equivalente monetário.

No Museu Nacional, o maior parte do público acolhido ano após ano era formado por professores e estudantes da educação básica, crianças brasileiras de diferentes condições sociais se amontoando para conseguir ver melhor múmias, dinossauros, artefatos indígenas, documentos sobre a escravidão negra, apreciando despreocupadamente momentos dessa consciência coletiva, dessa estranha igualdade. Não vou me somar aos relatos e descrições de peças de cultura material, cientifica, coleções e fontes perdidas para sempre: acredito que muitos pesquisadores, cidadãos e admiradores do museu incinerado já fizeram de muitas formas durante a semana. Admito que é uma atividade que me maltrata um tanto como historiadora, me sinto horrível com a dor da perda, principalmente por nunca ter tido a chance de ser uma de suas visitantes.

A expressão bastante desigual da austeridade no mundo, e não apenas a própria austeridade, é a incendiária. Isso não eleva os criminosos a um plano espectral, eles tem nome e tem projeto. Desde 2014, medidas de austeridade contra os aspectos mais fundamentais do desenvolvimento humano foram tomadas por Dilma Rousseff e depois do golpe parlamentar contra ela, elas vieram de forma aniquiladora através de Michel Temer. Assim como as agências de fomento recentemente anunciaram, o Museu Nacional havia comunicado em maio passado que sem o financiamento minimamente adequado, fecharia suas portas. Pesquisadores e servidores relataram à imprensa as condições perigosas e precárias de trabalho em que estavam vivendo a algum tempo. Como dizia, a expressão da nossa austeridade é muito particular, já que economizamos meio milhão na manutenção de espaços educativos nacionais emblemáticos, mas podemos gastar valores vergonhosamente mais altos em privilégios para a casta jurídica, rentista e congressista. Essa é a austeridade incendiária da identidade popular. Exagero? Exercitem a pesquisa mais primária e busquem quantos espaços de cultura, memoriais e repositórios de fontes sofreram incêndios e outros tipos de desastres físicos ou institucionais que pulverizaram seu acervo, no Brasil. Os fomentadores dessa ação incendiária são diversos. A pergunta do popular fascista contemporâneo que inicia esse texto também faz parte do grupo animado. A escolaridade não é uma variável determinante na emergência desinibida desse contingente de pessoas empenhadas pelo ódio às universidades, professores, pesquisa, arte, leitura e museus. Muitos celebraram os cortes orçamentários para a ciência brasileira, ainda que seus modelos de crescimento só incluam países que não permitiram que a austeridade tocasse muito no investimento público ao progresso técnico e cientifico em geral.

 Precisamos lidar com algo ainda mais importante que o cenário eleitoral: apesar dos esforços, contraditórios ou não, dos governos do Partido dos Trabalhadores em ampliar o acesso ao ensino superior, o elogio e valorização da ignorância desenfreados crescerão, a menos que tomemos uma reação que dimensione realmente o problema. Os perversos, mas não necessariamente ignorantes, também se servem dessa onda de anomia social. Seus nomes contabilizarão muitos votos nas urnas, ao contrário de pagar por seus crimes. A recente e midiática devassa da justiça brasileira sobre criminosos políticos e grandes empresários nunca chegou no horror de Mariana. Chegaria ao Museu Nacional? As chances são ainda menores. A menos que convertido em malas de dinheiro, o bem público nunca foi realmente protegido no Brasil.

Elisabeth Zorgetz é graduada em História, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Economia Regional e Políticas Públicas da UESC e escritora.



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