VIOLÊNCIA? ISTO É SÓ O COMEÇO…

Por Julio Gomes.

Passava de meia noite em Salvador. Após a votação do primeiro turno, ocorrida no domingo, dia 07/10/2018, iniciava-se a madrugada de segunda-feira. Em um bar humilde, localizado próximo ao Dique do Tororó, surge uma discussão entre eleitores do PT e um eleitor de Bolsonaro, que instantes depois se retira para retornar logo em seguida, matando no local o capoeirista Moa do Catendê com 12 facadas, sem chance de defesa.

Porto Alegre, dia 08/10/2018. Uma jovem que usava mochila e bandeira com as cores do Movimento LGBT e camisa com a frase EleNão é interceptada por um grupo de homens e agredida, e em seu corpo é marcada a canivete uma suástica diretamente em sua barriga. Como o símbolo nazista foi marcado de forma invertida, o Delegado registrou a ocorrência disse, cinicamente, que entendeu tratar-se de um “símbolo budista”!

Brasil, primeira semana após a votação do primeiro turno. Dezenas de escolas, universidades e instituições públicas são pichadas com fortes agressões a negros, mulheres e homossexuais, por vezes acompanhadas de símbolos nazistas. Estas agressões repercutem na imprensa, mas de forma bastante modesta.

Moa do Katendê.

Multiplicam-se as agressões e ameaças pessoais, de forma direta e indireta, aos milhares, em todo o Brasil. Alunos falam para professores e pacientes relatam a seus psicólogos que têm sido xingados, ameaçados e agredidos por conta de suas opções sexuais, políticas ou por questões eminentemente pessoais.

Em Ilhéus, um jovem homossexual que trabalha em uma fábrica em seu primeiro emprego ouve ao passar, de um subordinado, que “isso vai acabar, Bolsonaro está chegando”. Sem querer azedar o ambiente de trabalho nem expor-se, o jovem finge que não ouviu e segue lívido, preocupado, sob forte constrangimento.

Bolsonaro é apenas o candidato rumo ao segundo turno, mas os relatos das mais diversas formas de agressão, desde ameaças verbais a homicídio, eclodem em todo o Brasil, prenunciando o que deverá vir a tornar-se cotidiano, caso ele e seu projeto político de sociedade sejam aprovados nas urnas.

As pessoas são, em regra, dissimuladas, sonsas. Temo que todos os atos de violência cometidos até agora sejam somente um prefácio, uma amostra grátis, um cafezinho ante o banquete de violência social que desabará, nas mais diversas formas, inicialmente sobre as pessoas tidas como indesejáveis e, depois, sobre todos os que de alguma forma não concordarem com Bolsonaro e sua linha de conduta política, caso chegue ao poder.

Se você não sabe o que é o fascismo e viver sob uma ditadura, pergunte às pessoas acima, que foram agredidas ou ameaçadas. Elas não viveram o período de 1964 a 1985, da ditadura militar, mas já sabem do sentimento de medo, impotência e terror que aqueles que sofreram tais tipos de violência conhecem perfeitamente, e não esquecerão jamais.

Quem vota em Bolsonaro estará, conscientemente ou não, chancelando todos estes atos de violência já cometidos, e também todos os que vierem depois, quando, definitivamente instalados no poder e com o apoio de parte significativa da polícia, do Poder Judiciário, dos grandes meios de comunicação, e respaldados pelos que votaram no projeto de ódio, poderão, aí sim, mostrar o que é realmente repressão, ameaça e violência, agindo com a certeza da impunidade!

Bem vindo ao primeiro ato do fascismo e da ditadura, ainda no pré poder. Se Bolsonaro realmente for eleito, o pior estará por vir.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.