POLÍTICA? POR FAVOR, HOJE NÃO. JÁ DEU!

Por Mohammad Jamal.

Pessoas iguais ao Fernando Pessoa? Impossível!

Estava lendo o novo livro do Fernando Pessoa, onde, numa de suas prosas poéticas ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio de Mário Quintana: ‘Para estar ao lado dele sem pesar com a presença física’. Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque acho que não pesar aos outros com nossa presença é em certos momentos, um raro estalo de sensibilidade. Para muitas pessoas isso que chamo de ‘um raro estalo de sensibilidade’ tem outro Nome: frescura.

Faz uma denguice aí vai!

Afinal, todos nós gostamos de carinho, todo mundo quer ser visitado e ninguém deveria pesar com sua presença num mundo já tão individualista e solitário. Ah, mas… Pesa!  Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados: Eu bato na porta antes de entrar no quarto do meu filho e na porta de meu próprio quarto, se sei que está ocupado por minha mulher. Eu perguntava para minha mãe se ela estava livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone.

As grutas de Petra na alma.

Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências cuido para que sejam delicadas. Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do amigo fiel, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando.
Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito. Pessoas estão se amando. Pessoas estão recolhidas ao íntimo dos seus ressentimentos e mágoas, e querem estar sós pelo pudor da própria tristeza.

Lázaro? Ah… Ressuscitou!

Algumas pessoas são como gatos machucados mortalmente. Esses felinos, gravemente feridos, são tidos por nós como mortos, defuntos e, por isso, enterrados, cremados ou jogados ao monturo do lixo. E eis que passados alguns dias do seu retiro, despertam do sono hibernal da morte aparente, retornando fantasmagóricos e recuperados à realidade do mundo dos vivos; para surpresa dos que não conhecem os meandros da alma humana e esqueceu-se das sete vidas do gato. 

A terapia do “eu sozinho”.

Esse é um exemplo em figurativismo existencial, com que retrato a fuga da angústia humana para o abstracionismo em que necessitam se ocultar para convalescerem silenciosas das dores da alma, longe de olhares ou palavras condescendentes e piedosas, alheias, que somente constrangem e expõem ainda mais essas “fraquezas”.  Gente assim como eu, que necessita pelo menos uma hora por dia em absoluta solidão, para sintonizar as distantes estações do nosso “eu” oculto, antes que nos percamos nesse emaranhado de individualidades insipientes com as quais interagimos semiconscientemente.    

 Tem gente. Estou soltando meu barro.

Se não puder agendar, pelo menos avise que está a caminho. Dê um tempo para que o personagem se caracterize no figurino, nas ideias, no cenário e no gestual. Permita-lhe uma ligeira revisão no texto coloquial. O solilóquio que antecederá à sua visita é crítico e imprescindível.  Isso é frescura? Tem certeza? Uma pena. Sinto que todo o meu eloquente e não retórico esforço foi em vão, não o convenci.

François Rebelais em internamento nosocomial na Biblioteca de Alexandria escreveu Gargântua e Pantagruel?

Gosto muito de todos os visitantes. Não me importa se eruditos e intelectuais, se simplórios e simplistas, se intuitivos e observadores, se mero ou vulgar, se purista e teocrático, se parvo ou disperso, se instintivos como os muares. Nos salva da tediante rotina, a multiplicidade de facetas das personalidades humanas de que se compõe o círculo das nossas amizades interagentes. 

As armas e os Barões assinalados. Que da Ocidental praia Lusitana.

Também gosto de receber cartas. Gosto daquela ansiedade que antecede o vislumbre do remetente no envelope e da curiosidade que nos acomete, levando-nos a ilações e pré-suposições sobre o seu conteúdo enquanto cheiramos a carta em busca da memória olfativa, de um perfume presente nalguma fase da nossa vida. Gosto de mensagens de WhatsApp e-mails justamente porque são, em sua maioria, gentilezas afetuosas, carinhosas, humorísticas, bizarras ou relativamente impudicas enquanto exploram a escatologia  pornográfica. Esses eu posso retribuí-los, sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Para algumas pessoas – aquelas menos pudicas e incontidas – é muito menos constrangedor dizer por e-mail coisas que, face a face seria mais trabalhoso dizê-las.

Nada a ver com Fake News. O PT é santo!

A virtualidade do que dizemos faz perder o seu implícito caráter afetivo? Claro que não. Não discuto o encontro pessoal, o contato, o olho no olho. Isso é sagrado. Insubstituível. Hoje em dia, sob o peso de tantas responsabilidades e afazeres por conta da sobrevivência, é quase impossível estar presencialmente ao lado de quem agente gosta quando queremos, por outros meios, senão com o auxílio da informática e da eletrônica.

 Aconteceu entre nós.

Quando leio um livro indicado por uma amiga, sinto-me muito mais próximo dela. Subliminarmente ocorreu uma coexistência compartilhada das nossas personalidades e sentimentos mercê do conteúdo do livro com que ambos nos emocionamos ao ler em coincidente cumplicidade.  

Exemplaridades literárias, pra variar.

Li uma vez no livro “O Retorno a Beuthful” (não lembro o autor), das emoções de uma septuagenária ao voltar ao local onde viveu sua infância e adolescência, sua convivência familiar, seu primeiro amor, após ter vivido a maior parte de sua vida distante, como hóspede indesejada na casa de sua nora e outra como indigente numa instituição para acolhimento de idosos. É uma emoção quase indescritível. E eu vivenciei essa experiência indo ao encontro de determinada pequena cidade litorânea para sentir o sabor da saudade da adolescência, da memória olfativa impregnada com os perfumes do café e do chocolate em horas determinadas do dia, entre tantas perdas contraditórias que o destino nos impõe e para que fizesse despertar em mim todo o valor que representam as lembranças do passado, as boas ou as más. Uma catarse necessária, um resgate.

Eu estou aí viu! Na tinta e nos caracteres binários. Beijos!

Às vezes mando chocolate, uma lembrancinha, noutras mando flores e raras vezes um poema, uma conto, uma crônica, entretanto, jamais deixo de ir impresso no grafismo coloquial do cartão. É primordial. É assim que entendo a visita. É assim que me faço presente, mesmo estando contraditoriamente ausente. E acentuo a importância da percepção e da sensibilidade sem romper a clausura temporariamente necessária dos meus amigos, sem perder de vista o “dá licença” a “frescura” o quindim. Bilhetes, visitas, telefonemas, fax, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância. É só outro tipo e modelo de abraço. Pois abraçar, é o mesmo que ser abraçado, há intensa permuta na meta psique das nossas emoções.

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.



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