COMO É BOM TE VER, FREDDIE MERCURY

Por Julio Gomes.

Nos dias sombrios em que vivemos, nos quais a barbárie parece ter virado moda, a boa educação tornado-se algo indesejável, o fino trato social um anacronismo e o amor ao próximo um grave defeito, faz bem à alma e ao corpo voltarmos às nossas referências de civilização laica e de desejo de progredir em liberdades, tolerância e garantias humanas.

Esse é o sentimento que pode assaltar e permanecer em que assistir ao filme Bohemian Rhapisody, baseado na vida e obra de Freddie Mercury, o eterno líder da banda Queen.

Longe de ser um filme piegas, do tipo feito para exaltar as qualidades de quem já se foi, vemos na fita um Freddie Mercury cheio de paixões e fraquezas, mas capaz de elevar-se acima de seus defeitos, como a dizer-nos que também nós, apesar de todas as nossas imperfeições, também podemos realizar algo de bom e, talvez, de grandioso!

Freddie Mercury.

Freddie Mercury, o protagonista, tem coragem de sê-lo de fato em sua própria vida, deixando fluir seu talento, sua arte, sua vocação plena, que aparecem tão exuberantes quanto sua incontinência em busca de prazeres, que lhe seria fatal em função das contingências da época em que viveu, os anos 80, na qual um diagnóstico de HIV positivo significava uma sentença de morte, pois naquele momento simplesmente não havia drogas medicinais capazes de conter o avanço da AIDS no organismo humano.

Trabalhando, produzindo, indo em busca de ser o que sempre desejou ser, Freddie Mercury deixa para nós, e especialmente para quem viveu os anos 70 e 80, além da beleza, originalidade e energia inesquecíveis de suas músicas, o desejo de reviver uma época em que começávamos a descobrir que era necessário aceitar e conviver com homossexuais; em que se sonhava com um mundo melhor, mais livre e mais solidário; e em que descobríamos em campanhas com USA For Africa (1985) que podíamos e devíamos fazer algo por nossos semelhantes, ao invés de dar-lhes as costas ou indicar-lhes a possibilidade de melhoria por meio de uma meritocracia que, na prática, é total e absolutamente impossível para as massas que passam fome e vivem na miséria física e moral.

Libertário, polêmico, vasto, livre e incrivelmente vocacionado e competente naquilo que fazia: música e arte. Este é o legado de Freddie Mercury e da banda Queen, que podemos revisitar ao assistir ao filme e, quem sabe, descobrir algo de extraordinário em pessoas comuns e falíveis como nós, para que nossa estrela também possa brilhar, apesar de todos os pesares.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.



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