UMBUZADA NO NATAL E SEXO CASUAL COM HORA MARCADA!

Por Mohammad Jamal.

O mingau rançoso. Hoje é um daqueles dias atípicos em que agente não tem vontade de sair da cama nem pra cagar. Não é um dia, é um borrão qualquer. A Aleia está uma bosta. Já nem podemos sair de bicicleta porque em todas direções que se vá podemos morrer tragado por um buracão, uma cratera, um tsunami de esgotos, cair num precipício. Além de tudo, pra complicar, o governador Rui resolver fazer obras na urbe! A aldeia está com suas três principais avenidas interditadas para as meias solas asfálticas a toque de caixa. Pra piorar, em qualquer encruzilhada que se vá passar tem engarrafamentos e um montão de despachos e ebós! Pra quem fazem tantos rogos e maus augúrios?

Salvador Dali, Demóstenes, James Joyce, Victor Hugo, Richard Wagner, também eram loucos, pancada mesmo! Estou num daqueles dias de tédio existencial, quando batem ideias esdrúxulas, esquisitices políticas, desabafos anárquicos, “Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma.” (Michail Bakunin), uma tertúlia de maldades e desagravos, decorrências daquilo comemos com ovo nos últimos vinte anos. Talvez por isso a vontade atávica de embarcar para Curitiba num ônibus cheio, lotado; chegando lá, embarco em num luxuoso transporte coletivo que rodam por lá, e vou ate à Unidade Prisional da Polícia Federal curitibana. Lá, grito a plenos pulmões o desagravo que sai das minhas entranhas revoltosas: Lula! Lula cala a boca! Você não faz mais milagres! Leve, alma lavada, volto feliz para a aldeia onde ainda degusto em júbilo minha farofa de ovo.

Sexo casual com hora marcada. Por falar em ovo, ainda em sonambúlica pachorra de ontem, como se diz aqui no Nordeste, madornando, senti um certo desconforto “nas partes”, uma angústia opressiva, constritiva embora ainda suportável. Era a Edimunda, minha nega, me apalpando por baixo do cobertor! Eu: oi nega, é tu? E foi assim hoje acordei cedinho hoje, vendo a Edimunda se vestindo, se arrumando toda pra ir ao comércio. Curioso, arrisquei:

_ Onde você pensa que vai, meu xodó? Assim toda gostosa!

Ela: _ Homi! Eu vou comprar umbu pra decoração de natal e entrada do Ano Novo! Nada de economia; vou trazer uns três litros!

Babaganuche, Tabule, fatuche. Falafel, Zatah! Umbu? Allahu Akbar. … Umbu? Fiquei meditativo, curioso para entender o porquê da relação entre essa fruta da caatinga, o umbu, e as festas natalinas e de Ano novo.  Será que a minha criloira pirou de vez? (Edmunda deu um blond no resto dos cabelos) Tá que nem uma finlandesa.  Da penúltima vez ela deu de fazer um tal de “relaxamento”. Passou um tsunami no cocó, que levou quase tudo; uma péla geral, os cabelos da Edmunda pediram demissão… Foram-se quase todos os fios duma égua, sem aviso prévio.

Umbu no Natal e Ano Novo hum (muxoxo)? Seria Frango com papo recheado com farofa de umbu? E os caroços? Se eu engolir um vai entupir a saída. Detesto umbu.

Edmunda nasceu lá em Andiroba, no meio da caatinga, onde se come umbu ate em velório. Alguém me disse que a Edmunda foi criada com umbu, rapadura e farinha de guerra! Talvez por isso que ela tem aqueles dois umbuzões atrás. Adoro os umbuzões dela. Não passo sem eles; são tão aconchegantes!

To be or not to be, that is the question Caca! Pra que tanto umbu? Três litros! Natal? Ano Novo? Umbu? Inquietações, dúvidas; tantos questionamentos a me varrerem os pensamentos! Umbu?  Será que ela está pegando frete com o vendedor de umbu? Acho que não; ela não dorme enquanto eu não chego lá! É paixão mesmo.

Umbus… Que merda é essa? Contudo, num reflexo pavloviano, balancei meus umbus íntegros e virei pro canto pra mais uma soneca enquanto aguardo Edmunda voltar das compras. Não sou o Macunaíma, mas ninguém é de ferro. Ócio…

Acordei aí pelas dezesseis horas. Logo que abri os olhos topo com aqueles dois umbuzões encarando-me de frente. Edmunda agachada, meio recurvada pra frente, naquela posição de tiro, arrumava um enorme galho de árvore que ela havia enfiado num pote velho cheio de areia. Ela dependurava umas bolinhas de colorido metálico espelhado, em rosa, azul, verde. Tudo muito brilhoso no galho meio murcho, mas ainda verde e cheio de algodões simulacros de neve, neve dos SUS.

Fiquei ali parado admirando em silêncio a silhueta de formas curvilíneas e rotundas que me faz passar noites insones em fainas de serões voluntários e prazerosos. Ah!

Assédio na tora. Levantei-me de mansinho e fui achegando por trás. Dei-lhe um beijo no cangote, cheirei aquele perfume lascivo enquanto a enlaçava já meio interessado, pela cintura. Besta, perguntei no mais erudito Baianês:  Chegou minha nega? Tava roxinho de saudade!

Só aí ela foi me mostrar que os inefáveis umbus já estavam ali mesmo, encapados com papel metalizado colorido, decorando a nossa “Árvore de Natal” como os caros bulbos de vidro nas árvores de gente bem. Também tinha anéis e tampinhas de refrigerantes, representando estrelas e luas. Como pingente, lá na pontinha da nossa árvore, ela havia colocado um enorme pimentão vermelho. Admirado, fiquei mais enternecido ainda quando ela apertando-me contra o coração escondido atrás daqueles dois mamilos macios; disse-me em tom carente e dengoso:

O Presente de Vênus. Neguinho! Este ano a coisa tá preta aqui em casa. Eu economizei pra comprar uma camisa do Coríntias pra te dar no Natal, mas não consegui. Mas não vai passar em branco não. Teu presente vai ser singelo, mas cheio de amor: Vou amarrar uma fita vermelha no meu pescoço para dependurar o Cartão de Natal com dedicatória e, vou deitar em cima dessa manta ao pé da nossa Árvore de Natal pra me dar do jeito que vim ao mundo pra você. Tomara que te agrade!

Ainda meio atônito, senti que algo grande e alegre mexeu em mim.  Sem saber o que dizer ante a iminência de tão delicioso presente; balbuciei:

_ Claro que vou gostar meu pastel de sonhos! Lembra que foi o mesmo presente que recebi ano passado? Continua ótimo, só mudou a fitinha pra vermelha; ano passado foi azul. E os umbus? Sobrou algum?

Ela: _ Sobrou dois, dos grandes! Quer comer agora meu bem?

Ah! Essa fome que não me abandona. Aqui em casa é Natal o ano todo.

Com licença. Vocês não são servidos não! Claro que não.

_ Quero sim xodó! “Tô ino”!

Falei de início que detestava umbu. Pois é… Só aqueles verdinhos, bem azedos, que não como nem no brete, sou bagual tchê!

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.



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