NÃO COLOU. UM DESAGRAVO PROLETÁRIO

Por Mohammad Jamal.

Notas de Invernos sobre impressões de Verão (Dostoiévski). Há… Eu já li tantas cartas… Incontáveis cartas de diferentes missivistas. Cartas alegres; tristes, funéreas; outras tantas pouco tranquilas; umas desesperadas; algumas efusivas; congratulatórias; algumas duramente incisivas… Determinativas. Também aquelas na forma de comunicado e exortação; de interrupção ao fornecimento da energia elétrica; de água; de acesso a sinal telefônico. O escritor James Howell dizia que, assim como as chaves abrem cofres, as cartas abrem corações! Será? Não abriu o meu. Entre as tantas cartas que li, não esqueço aquelas cartas poéticas que Cyrano de Bergerac escrevera como apaixonado personagem na peça de Edmond Rostand. Lindas de fazer chorar! Li algumas Cartas de Mirabeau cheias de verve e erudição; li as Cartas Persas de Montesquieu, político e filósofo iluminista que, por meio dos personagens Usbek e Rica, os dois persas, o escritor teceu em forma epistolar duras críticas às instituições políticas, dos costumes e da igreja da Paris da sua época. “Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.” Este é um trecho da Carta Testamento do suicida Getúlio Vargas, que também li quando ainda adolescente. “Amigo! Por favor, leve esta carta e a entregue àquela ingrata e diga com estou! com os olhos rasos d’água, coração cheio de mágoas…”, (Eu não sou cachorro não.) do saudoso Waldick Soriano. E muitas cartas cessionárias onde li o intenso arrebatamento e paixão de namoradas amantes da minha juventude, tempo em que eu era um livre atirador, carismático, belo e solteiro: “Eu dou sim; contanto que você venha…”. “Se você não vier hoje, eu me mato viu?…”. “Lá em baixo do pé de abacate viu!…)”… E por aí vai. Ainda hoje leio umas poucas cartas que me chegam pelo correio, porque a Internet tomou para si o papel que era do carteiro; hoje, pelo visto, eles somente entregam encomendas e algumas contas documentais. Mas ainda assim há cartas a serem lidas nos jornais e revistas online, é claro; e nos blogs e sites que gozam de alguma audiência entre os internautas.

Para Nietzsche, a confiança do homem moderno no poder das palavras se funda no esquecimento de algo que era evidente quando as criou: elas são apenas uma metáfora para as coisas e jamais poderiam encarnar o seu significado. A recente conclamação que li, por verossimilhança, me fez relembrar aquela fábula bem antiga da raposa e as uvas, porquanto nessa carta a raposa missivista, muito convincente e segura de si, exortava os donos das vinhas a removerem os altos muros; as cercas farpadas e as câmeras de infravermelho, visto que as raposas do pedaço haviam desenvolvido uma forte aversão àqueles doces bagos arroxeados que pendiam dos vinhedos, para não dizer, degustar os pomos de baco, as uvas, estavam deveras difíceis de alcançar. Também me ocorreu imaginar àquela fábula do O Lobo e os Cordeiros; quando Seu Lobo, que dizia ser bom no discurso, postava-se aconselhando os velhos e insones “pastores” a desfrutarem tranquilos as repositórias “siestas” pós-prandiais e, a desfazerem-se dos seus ferozes cães de guarda barulhentos, “latidores e reaças” inoportunos da direita; sob o forte argumento de que os lobos migraram do PTCV Partido dos Trabalhadores Carnívoros Vorazes para a sigla PDVN Partido dos Dietéticos Vegetarianos Naturebas, supostamente em paz com a natureza e o mundo dos ovinos, das riquezas e poder das carnes em geral! Ainda inseguro e abalado nas minhas convicções pelo forte conteúdo cooptativo, diria quase irresistível, estive à beira de ceder àqueles encantamentos hipnóticos que me instavam derribar os muros e cercas; desligar as câmeras; matar meus cães, reacionários guardiões da minha cidadania; mudar meus hábitos, passando a dormir demorada e preguiçosamente; gozar um discutível ócio, deixar tudo pra lá, enquanto a Roma de Nero arde nas chamas vermelhas do fogo socialista/bolivariano digo, o Brasil, desfalece sufocado pela fumaça da queima produzida pelos nossos políticos piromaníacos, dominado pela a ânsia do poder.

O “ídalo” esse “símbalo”, escreve cartas, imagina! Mês passado me peguei lendo a tal Carta ao Brasil. Uma carta, aliás, carta pública, uma espécie de édito conclamatório em tom epistolar, me pareceu escrita pelo boneco de Gepeto; o narigudo e contumaz mentiroso, Pinóquio amputado. Dos bagos que pendiam lascivos dos vinhedos como testículos no verão do Piaui. Nos apelos e méritos epistolares  dos seus argumentos lia-se evidentes frases instáveis como se em pleno surto psicótico do transtorno bipolar, o desespero em busca da sustentação e mínimos respaldados aos seus argumentos de lobo mortalmente ferido, afônico de tanto uivar, por isso apela por questões de saúde, longevidade e, cansado, até transmutara-se de carnívoro voraz para dietético vegetariano e abstemia radical da aguardente de cana; um manso e insípido  natureba em paz com a natureza, com seus nabos e mandiocas fálicas enormes ainda muito assustadiças. Fala sério vai! Ainda inseguro e abalado pelo forte proselitismo/cooptativo da sua verve, diria, quase irresistível; estive à beira de ceder àqueles encantamentos hipnóticos coloridos em pigmentação vermelha do trotskismo leninismos, arremedo bairrista do Simon Bolívar made in Brazil paraguaio. Uma verossimilhança pirateada que beira o grosseiro, diga-se.

Nem Kafka (Metamorfose) tratou tão bem o assunto! Não fosse o missivista amparado por lobinhos parceiros fiéis do lobão alfa, chefe da matilha, que lhes provê com sobras e butins das caças outrora fartas. Por pouco não teríamos nos apercebido que estamos diante de algo hibrido, monstruosamente clonado. Onde já se viu lebres carnívoras? Com longas presas tipo tigre de bengala? Garras retráteis de felinos? Pupilas telescópicas…

O brilhante João Guimaraes Rosa, “Grandes Sertões…” e Carlo Ginzburg, “Paradigma Indiciário” trataram o tema “a existência ilusória do diabo” com grande fervor literário, repito, fervor literário.  Balelas políticas e retóricas eloquentes proferidas por aqueles que estão no “sistema”, ainda à sombra provedora e ideológica daquele governo cuja metodologia política, desesperados, intentam soerguer. Uma argumentação teorizada, vazia e ilusória, incapaz de sustentar minimamente à própria credibilidade; aquela que por meta presumem poder alcançar em convencimento junto à população via discurso conclamatório muito velho, puído e repetitivo; uma surrada ladainha de palanque clientelista incapaz de lançar luzes e restabelecer a confiança e convencimento sobre os inúmeros questionamentos levantados pela população, pela Justiça e suas inúmeras Operações contra roubo, corrupção, desvio do dinheiro público em pró do enriquecimento de alguns que, a despeito do clamor geral, inda permanecem implicitamente obscurecidos e omisso na falta de transparência das contas públicas. Tudo mercê do modelo de gestão singularmente sigiloso e dissimulado à revelia e ignorância de todos os brasileiros, implantados pelos governos sucedidos dos últimos vinte anos que insiste impassível, perseverar na dissimulação a que se reservou por característica, desde a posse: É Golpe.

Não encontrou palavras. Usou libras e até bufou, mas não convenceu. Foi impossível arregimentar compreensão, tolerância e apoio eleitoral da população sob a surrada fantasia do desmoralizado discurso de vítima do golpismo, do injustiçado, que não tendo mais instâncias a apelar ante a derrocada das suas metas, foi bater às portas da ONU e, num desesperado “salve-se-quem-puder”, futricou aleivosias difamatórias contra as instituições do Estado Brasileiro, “dominado por oligarquias de ultra direita, capitalistas que vão vender o Brasil aos filhos do Tio Sam”. Piraram de vez.

A Terceira Lei de Newton – não me refiro aqui ao governo do malfadado ex-prefeito – enuncia o que todos que cursaram o segundo grau e os autodidatas sabem: “Toda ação provoca uma reação de igual intensidade, mesma direção e em sentido contrário”. Nesse caso há que se considerar racional e coerente que o povo, mesmo em sendo o lado mais fraco nesta peleja por seus legítimos direitos é, antes de tudo, maioria. Quem sabe até, suficientemente capaz de fumigar com inseticida as colônias de cupins teimosos e seus remanescentes que ainda infestam uns poucos guetos e consomem os esteios dos frágeis barracos onde impuseram confinamento as cidadanias miseráveis do trabalhador proletariado! Ou não. Os lobos ainda uivam à noite, mas a caravana passa incólume! Vão passando…Vão vendo… Vão vendo. Cães quando acuados, também mordem! Agora uma grande matilha de cães de guarda, ferozes pastores do Cáucaso, patrióticos/justicialistas, estão no controle da nação. Estamos reescrevendo a história do Brasil e confinando o lixo imoral em local restrito e adequado, o aterro sanitário.

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.



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