DA ÍNDIA AO HAITI. TUDO A VER

Por Mohammad Jamal.

Não justifique sua passividade perante aos fatos argumentando que está só de passagem nesse mundo. Não vai colar. Há um argumento decisivo empregado pelo senso comum contra a liberdade; ele consiste da nossa indisfarçável impotência. Longe de podermos modificar nossa situação ajustando-a a nosso bel-prazer; parece que não podemos modificar-nos a nós mesmos. Não sou livre nem para escapar ao destino do meu país, da cidade em que resido nem sequer para construir atitudes reacionais efetivas contra meus supostos representantes constitucionais nos descaminhos. Os coeficientes de adversidades e problemas são de tal ordem que anos de paciência são necessários para obtermos o mais ínfimo resultado. Posto que profundamente tomados pelo enraizamento das adversidades sobre nossa tolerante submissão; infundidos que estamos de temores à vista duma resignada passividade que nos conduziu ao estado de combalida e debilitada cidadania. Neste momento, não reunimos suficiências para fazermos face ao gigantismo daquilo que nos atribula em aflição.

Privilégio: ser autorizado a respirar, sem ter de subornar alguém primeiro. Refiro-me a esses “institutos democráticos” atribulativos que nos coisificam como seres inanimados, sem vontade própria como se fôramos incapazes em razão e sanidade. De fato, estamos com pouco valor e quase nenhuma importância perante a Constituição Brasileira. Nesse caso em particular, ante o Estado, somos apenas e simplesmente povo! Ou seja, nada senão povo… E povo não reage, não late, morde! “Quem faz isso são marginais travestidos em grupos paredistas, fazendo-se passar por povo.”. No povo, monta-se.

A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade. (Kant). Antigamente falava-se assim sobre a moral cidadã coletiva: “Direitos tem quem direito anda.”! Hoje, mercê de poderes auto instituídos, porquanto legislados em causa própria, esse velho e caduco axioma foi transmutado ambivalentemente para: “Direitos tem quem político é!”. Essa coisa de agir certinho, de respeitar as leis e os bons costumes, faleceu num distante passado. O homem moderno, globalizado e sociologicamente evoluído, vale pelo que têm; não pelo que representa no campo da ética sociológica ou das interações interpessoais com o seu meio via condutas embasadas na honradez.

Breve análise etimológica sobre a etno-antropologia dos murídeos. Pela coincidência entre as conotações parciais das identidades, fomos repensar o organograma e escala hierárquica que vige entre os murídeos. Nessa sociedade persistem cinco gradações distintamente equidistantes, quase comparáveis àquelas vigentes nos meios políticos atuais no Brasil, claro, resguardadas as devidas proporções e nomenclaturas. Como na política, entre os ratos há também aqueles ratos comunas; ‘base de pirâmide’ por isso, preferencialmente imolados tal como num dito muito popular de vitimologia na lei do mais forte: os tais “bois de piranha”. São eles, aqueles ratos infaustos, submissos, sem histórico, que passivamente lambem sujidades das partes íntimas alheias, que limpam os pelos e comem a cera dos ouvidos dos ratões dos altos escalões. Os ratos VIPS que residem os melhores buracos, condutos dos esgotos e monturos fartos de lixo proteico; locais vetados, inacessíveis aos ratos calungas, catadores de excrementos, dálites, de casta inferior a quem denomino ratos-meu-povo.

Ralé são aquelas pessoas sem conhecimento suficiente para reconhecer os limites entre seus direitos e os dos outros. Por isso se acham ilhas imponentes diante de sua própria imbecilidade. (Pierre Logan). Ratos da ralé servem aos ratos da alta corte; cuidam das ninhadas, limpam as tocas, etc. e, sobrevivem das sobras e migalhas rejeitadas por ratos Vips. Ratinhos da rale se comportam em seu próprio ambiente, à semelhança dos indesejados imigrantes dos países pobres, quando acolhidos no primeiro mundo: mão de obra barata e servil para tarefas sujas, perigosas, ruins… Escória social. Uma hierarquia inquebrantável pune com fome e morte qualquer ratinho insurgente, rebelado. Quando há “revoluções desratisadoras”; iscas envenenadas espalhadas às redondezas; ratões “permitem” que ratos da rale comam-nas primeiro. Aí os observam estertorar pelo envenenamento. É sabido então pela elite, que as tais iscas não lhes convêm à saúde e assim, subsistem incólumes a tudo e a todos à custa dos ratos dálites, povinho.

Chega sempre a hora em que não basta apenas protestar: após a filosofia, a ação é indispensável. (Victor Hugo). Ratos da ralé e muitos seres humanos ainda vivem como as mulheres da casta “dalits” (intocáveis). São elas que recolhem fezes humanas duas vezes por semana nas residências de castas mais altas (¹). As nossas “descargas hídricas” inexistem na Índia, tal e qual as debilitadas justiças, comum e a social, no Brasil cujo Código Penal que as orienta carrega inserções convenientes e contribuições votadas por apenados com foro privilegiado. Por lá a “descarga” dos dejetos é feita jogando-se um copo de cinzas sobre as fezes acumuladas num compartimento acessível pela parte externa da residência, de onde podem ser recolhidas pelas “dalits”, ao custo de míseras rupias mensais; aproximadamente cinco Reais/mês, por quilos de quilos da pasta bostas, coletadas pontualmente três vezes por semana!

Tem rês no tronco! Mais ou menos como se dá por aqui, onde os miseráveis sobrevivem à custa das bolsas da degradação; longe do trabalho remunerado, sem perspectiva alguma de tornarem-se produtivos e autossustentáveis, capazes à própria subsistência. Compelidos ao confinamento; miserabilizados e apassivados pelo poder corrupto verticalizado sobre si, morrem ignorados como moscas. Esses miseráveis compõem e integram submissos à impositiva condição de substrato popular eleitoral, a massa votante de catadores de restos, migalhas caídas das mesas fartas das elites; bandos e quadrilhas instaladas no poder político legitimados como gestores da nação. Nessa condição supostamente cidadã, mas numa realidade de 5ª categoria, restringem-nos ao ofício degradante de aclamar ratões corruptos pelo voto; nada mais que isso. Sem escolhas ou alternativas, “os mesmos” de sempre se repetem alternantes no poder que os enriquecem financeira e patrimonialmente, às vezes num único mandato. Enquanto um caga profusamente, o outro come com estrema voracidade e reabastece silos e dispensas para manutenção do próprio status quo para os breves interstícios invernais, recessos temporais na penumbra do poder! E nós? Nós, você parceiro, está cansado de sabê-lo. O Brasil está mudando? Como se há tantos ratos gordos ainda comendo nossas caudas, para não dizer, rabo! Continuamos ou não, os mesmos catas bostas? Feliz Natal. Quem sabe recebamos um enorme peru?

Mohammad Jamal é articulista do Blog do Gusmão.



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