Cartas do inconsciente

Por Mohammad Jamal.

Carta apócrifa. Agora, após ler a sua carta, e de  não queima-la, como me recomendaste, e de devolve-la íntegra a fim de demonstrar que não foi utilizada para nenhum outro fim, senão a confrontação do seu conteúdo e caráter; acredito que este seja o momento azo para radiografar-me como réu ante o meu autojulgamento e, de expor o meu diagnóstico e libelo sentencial.

Banco de dados. Sou um incorrigível colecionador de memórias e as utilizo para sobreviver ao passado e adaptar-me ao negro presente que vivencio. Nada escapa à sensibilidade perceptiva da minha memória, que a tudo registra, que a tudo recupera e tudo conta, anota e guarda. Agora mesmo, após acabar de ler esta carta apócrifa eu contei a minha idade. Contei meus anos e descobri que com os meus setenta e dois, terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Alhamd lilah, Graças a Deus.

Aos 72 anos, sinto-me como aquela menina que ganhou uma cesta de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicentemente, mas percebendo que faltam poucas para o fim, rói agora até os caroços. Eu certamente teria reservado as mais maduras, doces e suculentas para o final e as degustaria lentamente. Eu compreendo que a cor tem muito mais importância quando nos retiram a luz.

Agora tenho pressa. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Nem aquelas passando à limpo familiares. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, seus bens, seus talentos. Eu não tenho nada. Eu não quero nada de ninguém a não ser a mais sincera espontaneidade. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos, utópicos. Não participarei de conversas em que se estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de fim-de-semana com a proposta de se atingir a essência da mais profunda espiritualidade. A minha alma já está ao alcance da minha mão! Já não tenho tempo para reuniões intermináveis, meramente circunstanciais para discutir estatutos, normas, procedimentos, regimentos internos e vida alheia. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica pesar sobre os ombros, são imaturas, vaidosas, pedantes e inseguras porem, perfeitas ante seu próprio julgamento.

Sem lenço e documento. Não uso mais o relógio. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos a limpo” onde tentamos sem sucesso auto explicar-nos, nos fazer entender ante o tamanho desinteresse claramente demonstrado pelo nosso interlocutor mouco.

Dezena do porco. Aos setenta e dois, aprendi que a solidão e aridez do deserto são muito mais reconfortantes que o aconchego dos oásis onde se aglomeram egoísta insensíveis que brandem suas espadas afiadas; que cospem e atiram excrementos a esmo. Jurei para mim mesmo, que não serei mais uma vítima do ódio amigo nem do revide da maldade semiperdida que resulta de batalhas travadas em egos estranhos, totalmente desconhecidos. O estigma da autoafirmação, da individualidade e do ufanismo, da auto realização que a tudo esmaga e destrói conscientemente, por conta do brilho que se supõe irradiar. Divindades materialistas.

Kaol no latão. Aos setenta e dois, aplico o brilha-cobre na minha frágil armadura emocional. Preservo-me. Parece-me coerente a busca pelo amparo da alma contra novas cicatrizes que nos impõem o superficialismo e a incompreensão humana. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pela predominância majestosa e posição que supõem ocupar no espaço restrito da vida ou da administração da empresa familiar, cargo que supõem vitalício, embora saibam-no efêmero. Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…o fim está próximo. O que é a vida senão uma luta incessante pelo adiamento da morte? A vida é o tempo, inútil ou não, estamos a cada dia mais próximos da beira daquele precipício ao fundo do qual nos espera uma desconhecida, ansiosa, de braços abertos, a amante fiel, a morte na dimensão quântica do imensurável. Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver o tempo que me resta ao lado de gente humana, muito humana; que saiba rir de seus tropeços, que não se encante e nem ufane com triunfos ocasionais, que não se considere eleita antes da hora, não fuja dela e tampouco negue sua mortalidade, que defenda a dignidade dos marginalizados, que tenha a humildade de dizer, errei, a grandeza de dizer, desculpe-me, a coragem de demonstrar amor em palavras e ações sublimes e que deseje tão somente andar ao lado de Deus. Verdadeiramente!

Fantasma, não. Quero agora, aos setenta e dois anos, caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, não de miragens, fogos fátuos. Desfrutar de um amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena e disso, não me foge a certeza.  Uma certeza que povoa minha realidade de sonhos e me orienta para o final da trilha que já começo a vislumbrar na curva do horizonte. Não me atrevo a aconselhar ninguém, quem sou eu para isso? Não tenho estatura para alcançar a verdade absoluta do existir. Entretanto, me ocorre lembrar que reler aquilo que costumamos escrever para alguém ou para si próprio, é um exercício salutar de auto avaliação. As palavras como o mar, mudam de cor segundo a configuração do firmamento que refletem. O pensar é tão abstrato quanto a dor. É por isso que o pensar às vezes dói, dói num lugar onde não sabemos situar a dor. Possivelmente na alma que desconhecemos.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.