Das razões do Ser (minha filosofia performática)

Por Mohammad Jamal.

Começo citando um dos meus “gurus“ da filosofia. “Desde que a experiência me ensinou serem vão e fútil tudo o que costuma acontecer na vida cotidiana, e tendo eu visto que todas as coisas que me arreceava ou que temia não continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas resolvi, enfim, indagar se existia algo que, achado e adquirido, me desse para sempre o gozo de uma alegria contínua e suprema.”. “Tratado de Correção do Intelecto” (Bento Espinosa).  

Escrevo esse texto para refletir sobre algumas características fundamentais daquilo que entendemos por ‘filosofar’ a partir de uma perspectiva pragmática que a poeira do tempo obscureceu no esquecimento. Foi naquele tempo, quando ainda ensinavam o Latim no curso médio (ginasial), que aprendi garimpando curioso uns velhos textos em latim, que a forma geométrica do universo reflete o esquema da vida; que eles são o mesmo. Aprendi que o universo é delimitado por cinco lados e que a vida tem cinco estágios. “Primum”, a dor do nascimento. “Secundum” o trabalho da maturação. “Tertium” a culpa de viver. “Quartum” o terror de envelhecer. “Quintum” a finalidade da morte. Mas não está completo, pois cinco lados demandam um sexto espaço, um centro. É ele que devemos esperar ansiosamente. O que é o sexto espaço?  É o Vazio, a escuridão, o vácuo! Em outras eras igualmente ignorantes como a atualidade, dizia-se que o fogo eterno sucederia à morte. Mas no meu entender digo que não há fogo. Eu digo que o fogo não é punição bastante. Não meus amigos! O vazio do qual eu falo é o total horror da loucura, a consciência do nada. Então, nossas vidas, mesmo que miseráveis, de fato, são a felicidade suprema. Esse é o prêmio. Você deve amar sua vida mesmo que torturada, porque é uma pausa, uma interrupção no vácuo precedente e posterior. Se você busca uma resposta, olhe muito além dos fatos que você tem… E adicione mais um… O desconhecido. Porque somente quando você considera o desconhecido você tem uma esperança, uma chance de resolver o dilema do viver.

Sêneca me ensinou um pouco a viver melhor diante do inesperado digamos, do imprevisível ao qual jamais imaginávamos, pois nos é vedada a antevisão do amanhã. Apesar de todas as dificuldades, Sêneca, um dos mais conhecidos filósofos romanos, não era um homem amargurado, depressivo, sorumbático. Ele foi sábio quando percebeu que os fracassos são inevitáveis, e que o segredo das pessoas mais bem-sucedidas na vida é saber lidar com eles. Fracassos raras vezes são evitáveis, já que estão implícitos em tudo aquilo que representa atitude. E já que os problemas inesperados são os que mais nos atingem; que estejamos sempre preparados para o pior, embora essa “prevenção” possa transparecer pessimismo é, na verdade, um racional e precavido resguardo generalista.

Todas as vezes que você entrar num avião ou num carro, saiba que essa poderá ser sua última viagem. Se não for, aproveite cada nova oportunidade para explorar a vida ao máximo. “Descobrir que as fontes de satisfação estão além de nosso controle e que o mundo não funciona da forma como gostaríamos é um choque de infância de que muitos não se recuperam”, diz o filósofo britânico Marcus Weeks. As imprevisibilidades que decorrem do nosso existir devem ser encaradas com leviana serenidade. Nada é mais sério e importante que nosso equilíbrio sobre essa corda bamba da existencialidade. Cair no vácuo? Jamais.

Para o grande Sêneca, frustrações todos as vivenciamos alguma ou muitas vezes no transcurso da vida, o segredo é saber lidar com elas sem raiva, ansiedade, paranoia, amargura ou autopiedade. Precisamos manter o senso de realidade para não sucumbir à tentação de culpar os outros à nossa volta por tudo o que dá errado conosco.

O sucesso a ser alcançado consiste em se manter a paciente e emocionalmente estável diante dos problemas que fogem do nosso controle, e focar firmemente no que, de fato, depende só de você. Contra o breu existencial que circunscreve e fatiga o humor, ele fazia um exercício metodológico relativamente simples num certo sentido. Antes de dormir, listava suas frustrações, os insultos que havia escutado ao longo do dia e como havia se saído disso. Se algum resquício de malogro persistisse, ele o despejava fora dos seus sentimentos memoriais como algo impuro, indesejado, um chorume infecto contaminante. Ressentimentos? Não.

A busca pelas razões do existir e preservar o “ser” incólume é uma guerra permanente travada no campo do ambiente transpessoal. O SER é um estado difícil e de onerosa manutenção, todavia vale qualquer esforço, uma vez que “em sendo”, se adquire algo permanente e não passageiro como simples objetos assessórios. “Em sendo”, tem-se o tesouro do autoconhecimento que atrai outras riquezas com a solidez e a segurança da paz interior.

Sobre o poder da resiliência que vence o pessimismo do fracasso, trago um poema do indiano Kabir Das. Nem todas as palavras do idioma árabe, do Hindi, do Urdu, encontram no Português o verdadeiro sentido da literalidade e conotação por isso, nenhuma tradução simplesmente literal poderá representar sentido, conteúdo e expressionismo literário da intelectualidade, filosofia e pensamento nesses idiomas. Contudo, mesmo sendo uma língua consonantal entremeada de sinais diacríticos, não é totalmente impossível transliterá-la ao riquíssimo Português. Segue a tradução não literal do poema, na justa medida dos nossos limites. Kabir, sabiamente substitui o abstracionismo entreguista da religiosidade pela força vital que impulsiona a vontade, a Jihad (meta, objetivo, premissa) onde o Ser deve predominar a todo custo. E o Ser persegue a vontade, a Jihad.

Onde me procuras? Estou contigo.

Não nas peregrinações ou nos ídolos, tampouco na solidão.

Não nos templos ou mesquitas, tampouco na Caaba ou no Kailash.

Estou contigo, ó homem estou contigo.

Não nas preces ou na meditação, tampouco no jejum.

Não nos exercícios iogues ou na renúncia, tampouco na força vital ou no corpo.

Estou contigo, ó homem, estou contigo.

Não no espaço etéreo ou no útero da terra, tampouco na respiração da respiração.

Procura ardentemente e descobre, em um instante único de busca.

Escuta com atenção! Onde está tua fé, lá estou!

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.



One response to “Das razões do Ser (minha filosofia performática)

  1. Mohammad Jamal , Mega observador da Filosofia da Vida, Possuidor de uma Imedivel capacidade de absorver e gravar enciclopédias, Filtrando as mensagens , sugeridas pelos Iluminados, e Nos Brinda, ofertando assim Verdades inegáveis, dos que portam uma condição impar do alcance para a nossa trajetória .
    Mestry Badahra
    Humilde seguidor deste Guru .

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