Mitou feio

“Mas nada disso nos impele à uníssona execração coletiva que o povo, frustrado, sucumbido ao canto promitente do “sereio”, impõe pesada sobre aquele que seria prefeito dos nossos sonhos! Mitou feio. Chutou pra fora. Duvido que seja reescalado titular na mesma posição em 2020. Se não melhorar vai para a quinta divisão como gandula”.

Por Mohammad Jamal.

Confesso que não consigo alcançar as similitudes entre os elementos correlacionais citados figurativamente pelo povo e imprensa ao perfilarem as ações empreendidas pelo nosso prefeito. Talvez seja a idade ou quem sabe, algum retardo descompassado que me persegue incorrigivelmente. Essas coisas de Face book, instagram; Twiter, Whatsapp; apps; que impregnam as linguagens do moderno ciber jornalismo e, por osmose, altera também as interações no expressionismo e comunicação entre o povão, fazem-me entre as suas vítimas, por não assimila-las! Porque preso e atrelado às velhas mídias impressas; aos livros em formatos arcaicos, invés dos e-books; ao e-mail ao invés das mensagens online; redes sociais, etc. Sinto-me torpedeado pela ignorância em relação à moderna comunicação de massa.

“Prefeito: Tal e qual um vetusto coronel assentado numa cadeira de balanços à frente da varanda do casarão sede da fazenda, assistindo os frutos do cacaueiro mudar da cor verde dólar para o dourado das moedas de libra esterlina!”.  Aliás, esclareçam-me, por favor, os porquês de estarem promovendo o prefeito à condição de Coronel do cacau? Menino de Engenho… A great one… The wolf of Wall Street… Il superb?  Que coisa minha gente? E mais; essa coisa de “jagunço”, secretários/seguranças, valentões ameaçadores, personificavam figuras icônicas numa época passada onde as balas e peixeiras afiadas substituíam os civilizados recursos diplomáticos do diálogo civilizado, do entendimento humano mútuos, solenemente ignorados à época, em favor da truculência e sangue derramado entre as partes no contencioso! Isso não condiz com o nosso politizado e sorridente prefeito, reconhecidamente um panglossiano feliz, pacífico e sorridente! Devemos tomar ciência e pé, que vivemos um clima político de existencialismo moral claramente relativista no regime democrático, diga-se, exageradamente “democrático” pra uns, permissivo para outros, enquanto nem tanto para o povo, cansado de levar fumo grosso!

As galinhas quando põem ovos, parecem cantar seus cacarejos estridentes, mas se observarmos atentamente vai-se perceber que é um lamentoso cântico de dor e arrependimento com o ovopositor queimando e ardente. E olha que o ovopositor do eleitor está no bagaço, senão observem a trágica sequência dos últimos personagens que nos deram por garantia pelos não sabemos retirados de onde: Vardé, apeado; o matemático religioso Newton, tampão; Incrível, o mesmo reelege-se! Fala sério, vai. Jajá quatro vezes! É masoquismo eleitoral. Assim não tem Sul que aguente! Vamos cacarejar gente.

Hoje o fio do bigode de antigamente passou a ser apenas cabelo da venta! Faz um tempão que, negativado no Serasa e SPC, com vários títulos protestados em hasta pública, essa fibra queratinosa de pelo do rego deixou de avalizar e dar salvaguardas aos créditos ilimitados de antigamente. Hoje é só cabelo mesmo, seja pentelho ou de outras regiões pouco olorosas; não vale mais nada. As “letras”, notas promissórias, cheques endossados etc., são vistos hoje por todos com indisfarçável desconfiança; imaginem um chumaço de cabelo removido de alguma anatomia obscura da qual não se sabe a origem geográfica? Ora, se fios de cabelos; “letras”; precatórios; títulos públicos; notas promissórias; cheques; etc. são garantias em franca decadência de liquidez e conversibilidade; imaginem as “palavras”, mesmo que pronunciadas com solene eloquência disfarçando a falácia retórica?

“Palavras são palavras, nada mais que palavras!” dizia-o em todos seus discursos o saudoso deputado Justus Veríssimo, personagem do inesquecível Chico Anísio. Será que, fugindo à regra de um princípio irretocável, nós persistimos crédulos às palavras, independente de quem as proferiu, indiferentemente às “razões” e fatores motivacionais que se fizeram constitutivos das palavras promissórias? Palavras são apenas palavras; contextualidades fugazes como flatos em dias de intestinos tormentosos. Não deixam rastros que apontem suas origens! Impregnam o ar com gases sulfídricos inflamáveis, irrespiráveis. Tem alguém por aqui comendo muito ovo baratinho, daqueles de quatro dúzias por dez reais.

Frustrados, eleitores boquirrotos falam entre os dentes: Ausente; convincente; perseguidor; coronelzinho sistemático, monocrático, feliz demais, filhinho da mamãe… Inimigo de Ilhéus… Etc. e tal. E mais uma saraivada de epítetos semelhantes àqueles arroubos de desagravos proferidos por algumas mulheres quando rejeitadas ou traídas por seu homem. Feridas mortalmente em suas vaidades e autoestima, elas agem tal e qual o conteúdo moral da fábula “A Raposa e as uvas”. “Não as comi porque estavam verdes… Azedas… Impalatáveis!”. Fala sério vai? Não comeu porque não pôde. Aí ficam pelos cantos, rancorosas, remoendo uma intolerável dor de cotovelo, enquanto urinam amoníaco agachadas.

É claro que não podemos dizer que a cidade está entre o razoável ou o minimamente tolerável em matéria de serviços públicos, conservação urbana, bom IDH, etc. soariam como exagerado otimismo. Se nos ativermos às carências urbanas, saneamento básico, etc. seriam laudas e mais laudas listadas. Se relacionarmos as deficiências e inexistências absolutas ou aquelas consideradas em estado crítico, comuns à nossa combalida cidade, necessitaríamos resmas de papel para relacionar tudo que foi erodido pelo tempo e deixado à própria sorte. Mas nada disso nos impele à uníssona execração coletiva que o povo, frustrado, sucumbido ao canto promitente do “sereio”, impõe pesada sobre aquele que seria prefeito dos nossos sonhos! Mitou feio. Chutou pra fora. Duvido que seja reescalado titular na mesma posição em 2020. Se não melhorar vai para a quinta divisão como gandula.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *