Quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada

“O que temos agora, aos nossos olhos, se trata de uma sociedade quem tem, com boa vontade, Castro Alves como pouco mais que um fetiche de personagem heroico, que pouco ou nada o lê, ignora a intenção do local de memória dedicado a ele, mas também…fixou popularmente Dona Irene, mulher negra e seu trabalho familiar com o acarajé, alçada ou não pela elite cacaueira àquele espaço, o referencia como sua praça (deveras democratizada ao longo dos anos como um espaço permitido a outros estratos sociais), e em que as pessoas se alimentam, até hoje, do seu legado de trabalho”.

Por Elisabeth Zorgetz.

Esta semana, as páginas locais de Ilhéus nas redes sociais publicaram um Projeto de Lei, nº 044 de 2019, de autoria do Vereador Nerival Nascimento, que dispõe sobre a alteração do nome da Praça Castro Alves para Praça da Irene. Não tenho conhecimento sobre a votação do projeto. Um rebuliço tomou as redes, incitados por consultas informais à comunidade, menções de repúdio e outras discordâncias. Lugar-comum, embora nada injusto, comentários sobre o estado de ócio dos vereadores da cidade, ocupados com “frivolidades” como nomes de praças e logradouros vieram aos montes. Outros sugeriram reformar a praça, localizada na Avenida Soares Lopes, ao invés de se preocupar com seu nome. Muitos ficaram consternados ao perceber que o nome verdadeiro da praça seja Castro Alves e não Irene, mesmo com a presença silenciosa do busto daquele. Alguns pediram eventos que salvassem, às pressas, a memória do poeta Castro Alves, uma vez evidente a ignorância da juventude. Esses comentários se aproximam de onde quero chegar agora, embora ainda não completamente. Se avizinhava a pergunta: e quem é Irene, senão a velha baiana do acarajé? Outros ousavam: fiel serviçal das elites ilheenses, negra da casa, inexpressiva historicamente, talvez pela cultura…Quando então a completa negação: Fica Castro Alves, Irene não. Foi aí que eu, alheia a qualquer tipo de pensamento sobre fixar Irene num papel, vendo de onde surgiam tais discursos, levantei as orelhas e ativei o faro, como um desgraçado cão ao cheiro da carne podre.

Ainda que nem desde sempre, somos uma nação que abraça prontamente o bem do passado e descarta o mal, e de forma explícita quando o assunto é memória e espaços. Com isso quero dizer que não tivemos o inverso anteriormente, mas que contemporaneamente a memória em todos os espaços, tangíveis e intangíveis, ainda não honra seus verdadeiros lutadores nacionais. Lembremos Le Goff: “O monumento tem como características o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva)”. Os monumentos são importantes diante do seu papel na formação da memória histórica. Essa memória histórica consiste nas histórias que contamos sobre quem somos, de onde viemos e molda poderosamente as maneiras pelas quais concebemos nossas possibilidades e orientações políticas no presente e no futuro. Sendo assim, Castro Alves, como poucas figuras que ocupam bustos, estátuas e dão nome aos espaços públicos urbanos brasileiros, nos honra como baiano abolicionista, ferrenho intelectual antiescravista, artista primoroso, de reconhecimento internacional. Sua presença pétrea é quase um alívio, diante de tantos canalhas que ocupam tais espaços nas cidades deste país.

Castro Alves, jovem estudante de direito republicano, escreve, aos 17 anos, o poema O Povo ao Poder, cuja conhecida estrofe remete, coincidentemente, às praças. “A praça! A praça é do povo/ Como o céu é do condor/ É o antro onde a liberdade/ Cria águias em seu calor!/ Senhor!… pois quereis a praça?/ Desgraçada a populaça/ Só tem a rua seu…/Ninguém vos rouba os castelos/ Tendes palácios tão belos/ Deixai a terra ao Anteu”. Apesar da aparente tez morena, Alves era filho de um português e uma cigana espanhola, sua brasilidade se constrói no cotidiano, ao lado de figuras como Tobias Barreto e Rui Barbosa, cercados, como os jovens de boa condição em sua época, de pajens, escravos de família, etc. Homem de sua época, Alves foi uma voz artística/militante sensível e expressiva contra as penúrias da escravidão. Morre muito jovem, num tempo em que a brevidade da existência de um homem branco, jurista, boêmio e artista engajado e de qualidade bastavam para inscrever sua eternidade na história.

Agora pensemos o Brasil antes e depois dos vinte anos de Alves. Todo o continente americano, na verdade, foi um exemplo clássico de países com leis raciais complexas, duras e violentas (os nazistas, por exemplo, fizeram várias referências aos modelos e precedentes americanos no processo de elaboração das Leis de Nuremberg e suas aplicações anti-semitas, contra judeus, e outras parcelas da população na Europa). A dimensão torpe do racismo americano foi potencialmente e efetivamente semelhante ao emblemático horror racial que emerge na Alemanha de 30, voltada para outro tipo de vítima. Suas implicâncias, no Brasil, se traduzem no racismo estrutural sobre as relações de trabalho, condição econômica, segregação socioespacial das famílias negras, baixa escolaridade e difícil acesso ao ensino superior, violências e extermínios agudizados sobre a juventude negra, alto volume penitenciário, e muitos etc.

Embora os espaços educacionais e de produção de conhecimento ainda não tenham tido as oportunidades e estímulos necessários para discutir a questão racial no Brasil, todos, gostemos ou não, conhecemos o tema, em níveis distintos de apreensão. Quando o foco se volta para a questão do reparo, para a ação da sociedade no presente à luz do que agora entendem sobre seu passado, o consenso é quase impossível e o distanciamento do problema é abissal. Algumas formas de reparação em torno da memória (que contribuem ativamente à história pública e provocam estímulos coletivos e subjetivos às populações alvos da discriminação na sociedade, como autoestima, consciência de si como classe, reconhecimento da ancestralidade, cultura, protagonismos, prejuízos geracionais, etc.) se provaram relativamente aceitas, como centros de pesquisa, memoriais e marcadores históricos relacionados à escravidão, pedidos de desculpas institucionais formais, cotas sociais e raciais em universidades e concursos, etc.., embora não em todo lugar.

Uma forma de reconhecer a presença e as contribuições de pessoas de ascendência africana é honrar seus ícones, heróis/heroínas, personagens profissionais e políticos, através da construção ou nominação de locais tangíveis de memória. Esses locais representam o outro lado do patrimônio imaterial, como hoje é a capoeira, por exemplo, e ambas as dimensões do patrimônio cultural são importantes para a identidade das sociedades. Algumas perguntas são fundamentais: para quem são os monumentos existentes? Que mensagem ou mensagens devem enviar os monumentos? Que emoções pretendem invocar? Monumentos formam cenários em nossas vidas diárias. Ao transmitir deliberadamente mensagens simbólicas a indivíduos e grupos com base na criação e sustentação de narrativas do passado, elas comemoram o que valorizamos e instruímos em nossa herança a constante lembrança através de manifestações visíveis que oferecem sentido ao que aconteceu. Essa atividade da memória coletiva é um componente crítico do processo de construção de uma identidade nacional ou comunitária. Molda, também, as posturas sociais num longo prazo. A memória pública saudável, que acrescenta e enriquece as capacidades críticas da sociedade não é fixa, mas passa constantemente por novas e diversas leituras, novas e diversas apreciações, no contexto do atual momento político e social. Houve um tempo em nossa história em que a maioria das pessoas não pertencia à sua expressão formal, seja como personagem, grupo social, agentes históricos em geral. As mulheres não pertenciam, os negros não pertenciam, os índios não pertenciam, os pobres e trabalhadores não pertenciam e foi exatamente durante esse período que muitos monumentos foram erguidos e muitos locais nominados.

A criação desses locais e seus monumentos para heróis escravizados, antiescravistas e antiracistas é relativamente popular (embora não tanto como honrar seus algozes já foi), e mais presente em alguns países africanos. Em toda a diáspora africana, os seus descendentes buscaram maneiras criativas de expressar coletivamente a experiência negra e encontrar formas adequadas de honrar a memória dos lutadores pela liberdade. Na África do Sul, por exemplo, o Museu do Apartheid não é apenas um monumento a Nelson Mandela, Steve Biko e outros que lutaram contra o apartheid, mas também uma exposição da brutalidade deste regime. Esses monumentos da escravidão e da emancipação, como resultado dos esforços para inscrever o projeto de descolonização cultural na paisagem histórica, representam uma mudança em relação aos anteriores, em que as representações da liberdade o século XIX centralizaram a imagem do libertador com monumentos para os principais abolicionistas brancos. A tendência mais contemporânea seria descrever os escravizados, negros livres e ativistas antiracistas como propulsores da própria liberdade num sentido mais amplo, que inclui personagens nacionais, regionais e locais, histórias de vida e maior atenção à história dos trabalhadores. No Brasil, contudo, os locais de memória ainda são profundamente silenciosos sobre a escravidão, o racismo e a população negra no país. O foco contínuo nos líderes elencados pela história tradicional ou pela figura do libertador branco entre os ícones memorizados levou a uma crescente crítica ao projeto de descolonização iconográfica e simbólica e um apelo pela inclusão, sem ninguém perder espaço, de locais de memória para as massas, suas narrativas, elementos culturais e trajetórias profissionais, que poderiam expressar a experiência negra mais coletivamente.

Então, volto a perguntar: para quem é o monumento ou local da memória que estamos pensando em preservar, construir ou declarar um patrimônio? Aos vivos? Aos mortos? Ao visitante? Às elites? Aos oprimidos? Às agências turísticas? Às escolas? Como podemos alcançar consenso por uma lógica que inclua as pessoas que vivem nas proximidades dos locais e o frequentam ativamente? Não podemos apenas afirmar, retoricamente, que as pessoas devem perceber como o passado tem impacto no presente e futuro. Neste mundo em que vivemos, um mundo onde uma grande porcentagem dos povos já foi colonizada, um mundo onde muitos países têm uma história marcada pela brutalidade do imperialismo, um mundo em que as tensões interétnicas e de classe são aguçadas, um mundo onde até mesmo a validade da história está sendo questionada, devemos estar muito atentos às mensagens imediatas que passamos, inclusive para proteger a história enquanto interpretação crítica do passado coletivo. Isso, obviamente, deve se afastar dos apegos estéticos de poucos, do tradicionalismo rígido de alguns e muito menos ser confundido com uma vulgarização do patrimônio público e histórico. Admitir algo assim traz tantas mensagens aterradoras que nem valem a pena mencionar.

Locais de memória e seus monumentos refletem algo mais do que ferro e pedra: eles são a manifestação física da compreensão da comunidade em sua própria história. Eles também são refletores das histórias que contamos (ou não contamos) a nós mesmos e nossas gerações atuais e futuras. O que temos agora, aos nossos olhos, se trata de uma sociedade quem tem, com boa vontade, Castro Alves como pouco mais que um fetiche de personagem heroico, que pouco ou nada o lê, ignora a intenção do local de memória dedicado a ele, mas também…fixou popularmente Dona Irene, mulher negra e seu trabalho familiar com o acarajé, alçada ou não pela elite cacaueira àquele espaço, o referencia como sua praça (deveras democratizada ao longo dos anos como um espaço permitido a outros estratos sociais), e em que as pessoas se alimentam, até hoje, do seu legado de trabalho. Com projeto de lei ou sem projeto de lei, o busto de Castro Alves permanecerá, pacífico e cercado, na velha praça. Aprovada a mudança ou não, duvido totalmente que se faça qualquer esforço para materializar a imagem de Irene na praça, para além do próprio quiosque. Sobre essa matéria polêmica, portanto, tudo tende a permanecer exatamente como está: os jovens indo à tardinha para a praça da Irene, os mais velhos e os aplicativos de localização mencionando a praça Castro Alves. Deste efêmero e aparentemente supérfluo debate, só fica um lamento: uma cidade que pouco lê poesia, que submete seus artistas à humilhações, cujo passado escravocrata e explorador do povo negro é precariamente discutido e o presente reparado, e cujos espaços de memória são comumente desprezados, inclusive institucionalmente…se avilta, muito ofendida, em permitir que uma descendente de Lúcia, cativa na poesia de Alves com sonhos de emancipação, divida o espaço de memória com ele, apenas formalmente. Concretamente, a memória popular e do trabalho ri, serena, de todos nós.

Elisabeth é historiadora, mestranda em Economia Regional e Políticas Públicas, membro do Grupo de Trabalho de Teoria Marxista da Dependência e militante da União da Juventude Comunista, escola de quadros do PCB.



6 responses to “Quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada

  1. Nao cncordo, apagar a memoria da cidade para dar nome aos comerciantes ,por isso essa cidade está toda destruída e tudo que temos de história de reliquia deixa de existir … pelo amor de deus ,nao temos mais igreja da praça dos namorados , nem a casa dos artistas … todo o patrimônio histórico que da valor a nossa cidade será destruído em nome de comercios ? Burguer king ,rei do mate e agora baiana de acarajé

  2. Irene não era negra, incomum para uma baiana de acarajé, era branca e tinha os olhos claros. Muito parecida com a articulista. Pasmem

  3. Que tal tirar 02 de julho e colocar bataclan.???????…me poupe viu,,,,a crise da falta do que fazer,,consertar e dar um brilho maior a praça essa turma não questiona….

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