Breve ensaio: o ponto de ruptura não é constitucional

“Estruturalmente a anatomia estética humana é bela, perfeita, mas a essência da sua personalidade, seu conteúdo abstrato, sua natureza, índole, ímpetos comportamentais ególatras, superam muitas vezes a monstruosidade voraz e instintiva da irracionalidade animal”.

 

Por Mohammad Jamal.

Não é a Inês de Castro.  Eu te perdoo. Perdoo porque tu não és a verdadeira ré neste senário inquisitório onde acólitos e prosélitos do futebol, membros ativos numa sociedade autofágica que prioriza o consumo, que subverte e deprecia os valores morais e te apedrejam até a morte. Perdoo-te porque sei que subsistem entre nós muitas mentes que provaram ser fortes e resilientes, no entanto, igualmente envolvidas pelas adversidades existenciais que magoam e ferem sentimentos, humilhadas, ao atingirem limites máximos do seu psiquismo, prorrompem em lágrimas e cedem ao desespero quando se lhes destroem o pouco que ainda resta da autoestima que baliza a razão. Os limites sensoriais da razão são tênues não obstante à flexibilidade incidente que relativiza e subverte valores da ética e da moral no âmbito do consciente coletivo.

Objeto imemorial. A coisificação do ser racional, sua despersonalização; a negação dos valores primordiais do ente humano, a banalização do pudor em paralelo à ablação de todos os limites constitutivos da personalidade social condizente, equivalem a um impositivo processo de monetarização de todo o contexto filosófico, ético e moral, valores primordiais que orientam o comportamento humano em sociedade, onde a moral são os costumes, regras, tabus e convenções estabelecidas por cada sociedade. Suprimir tais valores é como nos impedir de respirar. “A razão ou o juízo é a única coisa que nos faz homens e nos distingue dos animais.“ Está no livro Discurso do Método, de 1637. (René Descartes)

Levantamento do patrimônio abstrato. O inventário da sua sensibilidade e valores morais, se flexibilizados, poderão ser comercializados por preços acessíveis, para não dizer, irrisórios de mercadoria ordinária. Qual é o teu valor monetário? Tem desconto? É à vista ou pode parcelar? Cartão ou dinheiro? Nossos sentimentos, nossas condutas, nossas ações e nossos comportamentos são modelados pelas condições em que vivemos (família, classe e grupo social, escola, religião, trabalho, circunstâncias políticas, etc.). Somos formados pelos costumes da nossa sociedade que nos educa para respeitarmos e reproduzirmos os valores propostos por ela como bons e, portanto, como obrigações e deveres. Dessa forma, valores e maneiras parecem coexistir por si e em si mesmos, parecem ser naturais e intemporais, fatos ou dados com os quais nos relacionamos desde o nosso nascimento. Somos recompensados quando os respeitamos ou punidos quando os transgredimos.

A teoria das Incertezas imprecisas. Mas aí vem uma questão ambígua: A sociopolítica, a etnologia política, língua, costumes, práticas, cultura, são elementos evolutivos logo, mutagênicos. Velhos hábitos, costumes e práticas sociais são esquecidos no obsoletismo e assim, substituídos por modus vivendi “mais modernos”, ergonômicos; convenientes em forçosa adequação aos diferentes futuros, dada a perspectiva teórica segundo a qual os fenômenos sociais e culturais da vida humana estão sujeitos a leis gerais de transformação, sendo análogas e complementares às da evolução biológica darwiniana, e que determinam o surgimento de formas mais complexas ou, inversamente mais primitivas a partir de formas mais simples e a crescente diferenciação entre as várias sociedades e culturas em estágios sociais ditos “evolutivos”. Eu acrescentaria instintivo-estagnado.

Rei da cocada preta “tá se achano”. Conta-se que após terminar de esculpir a estátua de Moisés, Michelangelo passou por um momento de alucinação diante da beleza escultural da sua obra. Bateu então com um martelo na estátua e começou a gritar: Por que não falas? Ele estava unanimemente extasiado ante a beleza da sua arte, a corporificação em pedra de uma nova personalidade consciente de si mesma. Ou seria a corporificação conceitual cinzelada no academicismo estético da beleza em forma e contexto artístico que acabara de haver dimensionado em mármore? O que diria Rubens, admirando a beleza poética das mulheres nuas, retratadas com opulência curvilínea em suas telas que retratam anatomias harmoniosas de seios, glúteos e coxas em semblantes delicados de olhares distantes no recato das poses não sensualizadas? Óleo sobre tela As três graças (1639). Ninfas? Deusas míticas? Estruturalmente a anatomia estética humana é bela, perfeita, mas a essência da sua personalidade, seu conteúdo abstrato, sua natureza, índole, ímpetos comportamentais ególatras, superam muitas vezes a monstruosidade voraz e instintiva da irracionalidade animal. O Humano é antropofágico e às vezes até autofágico na sua ânsia de retroalimentação, um sentimento narcisista de ganância de si mesmo. Tal como Saturno que na mitologia grega devora o próprio filho. – O mito de Cronos, visível na pantagruélica tela de Goya (1823) – A mortalidade, o sofrimento e a finitude existencial atemorizam o homem moderno no topo da sociedade de consumo em pleno século XXI.

De médico e de louco, todos nós. Na década de 1920, Freud construiu um modelo estrutural e o dividiu em três partes: o ID está relacionado aos instintos e é totalmente inconsciente; o Ego é racional, controla os instintos; o Superego, a moral e os valores. Cada uma dessas estruturas é responsável por uma parte da personalidade e conduz como o indivíduo irá se relacionar com outras pessoas. Esse esquema esquece solenemente os perfis atávico recessivos, em si, refratários as elementaridades esquemáticas dos perfis padronizados acima. Seriam loucos os mitômanos sado-epicuristas antropofágicos presentes no topo da escala da atual sociedade de consumo humano? Sei não.

O Julgamento de Capitu (Machado de Assis). Julgada, condenada e apedrejada por uma coleção imensa de jurados radicais, fundamentalistas, parciais, tendenciosos, superficiais. Eis um corpo estirado no chão. À sua volta peritos e especialistas forenses tentam capturar as evidências de lesões traumáticas, equimoses, lacerações, hematomas, antes de eviscerá-lo numa autópsia ao vivo e a cores num show midiático mal ensaiado, um desempenho grotesco estandardizando escárnio e críticas entre gritos de júbilo da massa e o apupo de uns poucos contra a vivissecção íntima que revira pelo avesso a alma dessa indigente vítima, jovem, bela, sonhando felicidade. O frio ascetismo científico, sem dó, disseca o corpo e a alma em busca dos inexistentes tumores da maldade, da injúria, opróbios com que ela tentou infectar um mito dos suntuosos corredores da fama e da riqueza, imagina, um membro dourado do alto olimpo dessa podre sociedade de consumo!

Há algo apodrecido, um exsudato malcheiroso pairando sobre o consciente brasileiro. Tem uma jovenzinha com a alma destroçada, insepulta, à espera da vala comum. Seu atestado de óbito alguém inscreve a causa mortis: intoxicação aguda por pudor, autoestima e amor próprio, só.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.



One response to “Breve ensaio: o ponto de ruptura não é constitucional

  1. Nobre amigo Jamal: Até uma certa idade tinha uma consciência intransitiva! Não entendia que o homem se converteria em lobo do homem ( Homo homini lupus ). Depois cresci e hoje tenho certeza disso. Albert Einstein é mesmo um gênio: Observe o que ele disse:

    “DUAS COISAS SÃO INFINITAS: O UNIVERSO E A ESTUPIDEZ HUMANA. MAS EM RELAÇÃO AO UNIVERSO, AINDA NÃO TENHO CERTEZA ABSOLUTA”. RSS

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