Parodiando: O auto dos Compadecidos

“Sobre as inter-relações dos poderes democráticos, Estado e povo, predomina uma neorrealidade ambivalente, desavergonhadamente deletéria, escancarada e clientelista. Povo e governo vivem em mundos distintamente antagônicos, separados que estamos por muros altos de faces duplas. Somos parceiros distintos de nós mesmos no ambiente supostamente pátrio; a pátria é deles e, em nome da suposta “democracia plural”, negociam como commodities os princípios pétreos legados por Rousseau, pai da moderna democracia, claro, não isso que vige no Brasil”.

Por Mohammad Jamal.

Falar sobre as malfeitorias políticas já não dá mais audiência, ibope, leitura, público. Notícias estampadas sob o cunho apelativo em manchetes chamativas ou sensacionalistas já não despertam interesse algum nos leitores. Há um processo contínuo de erosão moral cronificado sobre as condutas das figuras públicas na política brasileira. Antigamente morria-se de rir das piadas e esquetes teatralizados em caráter cômico pastelão ou tórridos de ironias e críticas ferinas aos atos e condutas das aberrantes personagens do métieur político!  Imagino que o humorismo temático daquela época supunha-se singularmente ficcional; pode ser. Mas a corporificação do ficcionismo que se supunha preso e estacionário sob o abstracionismo do humor como tema, de fato, evoluiu e transmutou-se para um concretismo existencial amargo e intratável. A realidade superou em muito a ficção.

Quem poderia imaginar? A moça liberada, que arriscou fazer sexo antes do casamento, denominaram-na puta. E àquele que roubava; que tomava por empréstimo e não devolvia; que prometia e não cumpria com os compromissos assumidos, eram chamados de ladrões! Os pequenos delinquentes morais daquela época são hoje, condescendentemente imputados como simples e corriqueiros inadimplentes; mercê da reinterpretação semântica do adjetivo “ladrão”, que na atualidade é plenamente lavável, reciclável, reutilizável, reerguido como vestal e, portanto, plenamente reelegível por muitos com a ajuda implícita do texto da Constituição Brasileira de 1988 em seu artigo 5°, inciso LVII: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Por isso, reprimimos a ânsia do vômito quando somos obrigados a votar “nos mesmos”, tão sujos quanto esteio de poleiro de galináceos. A tanto desceu o padrão de tolerância que já há congressistas condenados e encarcerados, mas liberados extemporaneamente para o pleno exercício das atividades parlamentares inerentes aos seus mandatos na câmara, interagindo sabe-se lá, Allah, costurando remendos à Constituição Brasileira e ao vetusto Código Penal em causa própria pela manutenção das suas “conquistas” no decurso da “velha política” teimosa e resistente às fumigações antiparasitárias.

Sobre as inter-relações dos poderes democráticos, Estado e povo, predomina uma neorrealidade ambivalente, desavergonhadamente deletéria, escancarada e clientelista. Povo e governo vivem em mundos distintamente antagônicos, separados que estamos por muros altos de faces duplas. Somos parceiros distintos de nós mesmos no ambiente supostamente pátrio; a pátria é deles e, em nome da suposta “democracia plural”, negociam como commodities os princípios pétreos legados por Rousseau, pai da moderna democracia, claro, não isso que vige no Brasil. No lado de dentro, o lado “deles”, simbolicamente as ruas são seguras; acarpetadas para carruagens douradas na forma dos seus carros blindados, luxuosos importados; motorista particular e parrudos seguranças pessoais; jatinhos executivos e viagens em primeira classe dão o toque VIP à “autoridade” personificada pagos pelo nosso suado dinheirinho, extorquido em via impostas e taxas. Cartões corporativos dão acesso a bebedouros seletivos que vertem champanhe; vinhos caros… Água mineral Perrier. Jornais, revistas, sites e bancos estão sempre de portas escancaradas para recebê-los efusivamente; mulheres e Adônis, prontos para servi-los a tempo e a qualquer hora.

Do lado de lá, as urnas para coleta de envelopes de sugestões e possíveis reclamações com tapinhas nas costas, substituem as desconfortáveis Delegacias Circunscricionais de polícia, onde ralamos para registrar um B.O. Além disso, lá não há juízes, promotores, Ministério Público, Tribunais, etc. que perturbem seus doces farnientes. Um céu de mimos e privilégios… Até o SUS a que nos foi quase totalmente suprimido o acesso por sucateado; do lado de lá atende no Sírio e Libanês; Albert Einstein… Clínica Bambina, “tudo free”, com ouvi dizer lá em Serra Talhada: “De grátis”! Mas do lado de cá, nosso lado, nem é preciso falar; seria redundantemente tedioso repetir o que todos nós, povo, vivenciamos no dia-a-dia. No lado de cá, nosso lado, SUS é SUS mesmo, um SUSto apenas! E não adianta gritar, engula a dor; gritar e gemer piora o humor do apressado doutor com centenas de doentes para atender em quatro horas de plantão!

Recentemente, com a implantação do absolutismo político na gestão pública brasileira e a subsequente falência coletiva de todos os serviços públicos básicos outrora acessíveis ao povo, não nos surpreenderia a promulgação de um decreto impositivo e radical verticalizado sobre a massa. Relembram daquele promulgado em Antares – (Incidente em Antares), livro de Érico Veríssimo. O Incidente em Antares é, antes de tudo, um livro corajoso. Aborda a temática política de maneira aberta e direta em plena ditadura militar dos anos 1960-1970. Estou exemplificando figurativamente, a possibilidade de sermos surpreendidos por um decreto monocrático restritivo: “… No uso das atribuições legais, decreta: Art. 1º Fica terminantemente proibido adoecer ou acidentar-se em área territorial deste Município. Parágrafo Único – Concomitantemente à proibição terminativa de óbitos de qualquer natureza; a saber: por assassinato; doença; morte natural por falência múltiplas dos órgãos; natimortos e outros, sob as penas incidentes prevista neste Decreto…”.

Vou até relembrar um “causo” passado ha uns poucos anos lá na serra, em Urubici-PR, para exemplificar a ascensão meteórica que envolve as personagens do maravilhoso mundo político. Aldous Huxley, (Admirável Mundo Novo), foi quem sabiamente disse: A democracia permite que criaturas abomináveis conquistem o poder. ”. Mas voltemos à nossa personagem exemplar, o Raimundo, que era Guarda-Livros – contabilista, “notário” de antigamente – e alfaiate nas horas vagas. Ele morava num quartinho alugado na “avenida” de D. Pureza, uma tolerante e bondosa senhoria. Raimundo não tinha onde cair vivo, porque morto, cairia em qualquer lugar, numa “naice”, na maior, pra quem quiser reclamar de defunto! Pois é; com a emancipação da vila para o status de cidade, Raimundo, “uma reserva moral à época”, foi lançado vereador; e foi eleito! Desde essa data – não vou cansá-los com detalhes – Mundinho, como era conhecido, evoluiu na política à semelhança de outras “carreiras” meteóricas, coisa que já nos acostumamos testemunhar! Imaginem onde ele está ágora? R: Em Brasília gente! Tem mansão à beira do Lago Paranoá com lancha, mordomo, churrasqueiro e as porras! Fazendas de gado em Goiás, prédios em Sampa, Uma construtora, corretora de valores, consultoria, empreiteira… E lá vai ele em seu iate com destino às Bahamas! O mercado político é, de fato, o “Admirável Mundo Novo” descrito pelo Aldus ou não? Ah! A democracia… É linda, mas muito parecida com “Engraçadinha”, a ordinária “Lolita” de Nelson Rodrigues. Putinha de dar dó!

Quando o Estado se sobrepõe à vida das pessoas, certo grau de corrupção exerce um efeito benéfico sobre o caráter das populações. Mas, apenas quando até determinado ponto, é claro; uma vez que o estado se torne o todo-poderoso e a corrupção oficial também se torne total como assistimos, ambos sufocarão a criação de riquezas, e haverá um empobrecimento generalizado. No final desse processo, será constatada uma desmonetarização aguda da economia, tal como se deu no comunismo e socialismos. O Brasil está chegando a esse estágio, mas nossos políticos sempre se mostraram muito espertos o suficiente para não matar a galinha dos ovos de ouro. Quanto mais a sociedade enriquece, mais se pode extrair dela na forma de impostos. Nesse sentido, o que é bom para os negócios é bom para eles, os políticos corruptos. Nessas circunstâncias, o uso da influência pessoal e do suborno praticados por um ente público no balcão da corrupção para locupletamento pessoal e/ou do seu grupo político pode representar um incremento e eficiência no fortalecimento do capital político-eleitoral concomitantemente à discreta evolução nos negócios e meios circulantes financeiros do país. É claro, melhor seria se a corrupção política institucionalizada tanto quanto a coparticipação de grandes conglomerados empresariais simplesmente não existissem, mas existem e é improvável que venham a desaparecer sob o peso de um código penal criado pelo decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940, já tão ultrapassado e desfigurado por legislações em causa própria, beirando a mais absoluta inocuidade ao apenar criminosos. Estou me referindo àqueles que roubam muitos milhões, entretanto, gozam de imunidades, primazias e foro privilegiado. Dói, mas não posso deixar de dizer essas verdades: vocês terão que votar neles, até reeleger alguns famigerados e reconhecidos murídeos ladrões sujos, vestidos com os mesmos cueiros imundo dos últimos quatro mandatos.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.



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