O crime de pensar não implica a morte

“A facilidade instantânea das comunicações pelo ciberespaço escancara o vácuo para o vazio do imediatismo, das banalidades coloquiais interativas, os modismos efêmeros, posturas supostamente pós-modernistas, não obstante haverem sido resgatadas e reconfiguradas dos próprios históricos predominantes nas populações em seus devidos estratos sociais.”

Por Mohammad Jamal

Ratoeiras para humanos. Humano, demasiado humano, disse Friedrich Nietzsche. Quando assistimos passivamente a sociedade moderna enveredar maciçamente pelos novos conceitos que a balizam irrecorríveis e que não permitem nem abrem espaços às tidas atualmente como obsoletas e arcaicas as antigas derivações politico-filosóficas no comportamento coletivo de alguns povos. Quando vemos as “tendências pré-programadas” propaladas por sábios influencers predominantes nos espaços voltados às comunicações e interações interpessoais, ficamos aterrorizados diante a antevisão da instintividade, ablação do intelecto e da razão reflexiva do consciente coletivo. E toda essa manipulação, produto de um jogo de cartas marcadas, invariavelmente, sempre em benefício de grupos sociais da elite financeira capitalista visando o predomínio dos poderes paralelizados no conluio entre o capital e a política.

Represento apenas o “um” nessa imensa gradiente estatística. A facilidade instantânea das comunicações pelo ciberespaço escancara o vácuo para o vazio do imediatismo, das banalidades coloquiais interativas, os modismos efêmeros, posturas supostamente pós-modernistas, não obstante haverem sido resgatadas e reconfiguradas dos próprios históricos predominantes nas populações em seus devidos estratos sociais.

Big Brother ou, o big bode – em “nordestinês”. Estamos dentro até o talo! E isso nos remete à antevisão do Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell; foi um escritor, jornalista e ensaísta político inglês, autor do livro 1984. Sua obra é marcada por uma inteligência perspicaz e bem-humorada, uma consciência profunda das injustiças sociais, uma intensa oposição ao totalitarismo e uma paixão pela clareza da escrita. Apontado como simpatizante da proposta anarquista, o escritor faz, em seu singular estilo, uma defesa da autogestão ou autonomismo, enquanto rebate inteligentemente irônico, o controle absoluto sobre o tecido social, inclusive do pensamento, onde o autor nos remete ao “crime do pensamento”, afora mínimas transgressões ao comportamento vigiado e controlado, a ponto de vetar inclusive, o crescimento das populações via reprodução exógena assistida, isenta de conjunção carnal. E tudo isso ainda ficou distante das aberrações que estamos habituados ver acontecerem contra as massas populacionais, manipuladas subliminar ou diretamente por agentes indutores irresistíveis via mídias do ciberespaço, uma guerra contra o pensar, o livre pensar racional e coerentemente. (*) “O essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas de produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar, ou de libertar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que de outra forma teriam de ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e, portanto, com o passar do tempo, inteligentes.”. (George Orwell). O homem do futuro pensara por inteligência artificial pré-assistida. Imagina?

Livro? Que bicho é esse? Tira não. Esse aí está escorando o pé quebrado do meu sofá! No livro QS – Inteligência Espiritual, lançado há uns cinco anos, a física e filósofa americana Dana Zohar aborda um tema ainda atualmente tão novo quanto polêmico: a existência de um terceiro tipo de inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, tornando-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida. O Quociente Espiritual. Coisa que o atual modelo existencial pré-elaborado abomina porquanto fere um princípio pétreo da matemática avançada das linguagens binárias, sintéticas, faladas impositivamente no quarto, nas salas, ao telefone, em shows ou digitadas graficamente nas dezenas de Apps de comunicação instantâneas gratuitos, liderados pelo Whatsapp, Telegram, Face book, Hangouts, Messenger, WeChat, Instagram, etc.

What? Uma imagem de São Francisco ou um bom disco do Noel? Os cientistas descobriram que temos um “Ponto de Deus” no cérebro, uma área nos lobos temporais que nos faz buscar um significado e valores para nossas vidas. É uma área ligada à experiência espiritual. Tudo que influencia a inteligência passa pelo cérebro e seus prolongamentos neurais. Um tipo de organização neural permite ao homem realizar um pensamento racional, lógico. Dá a ele seu QI, ou inteligência intelectual.

Pena, inúteis porque não servem para discursos programáticos ou base para campanhas políticas. Outro tipo de inteligência nos permite realizar o pensamento associativo, afetado por hábitos, reconhecedor de padrões, emotivo e sensitivo. É o responsável pelo QE, ou inteligência emocional. Um terceiro tipo permite o pensamento criativo, capaz de insights, formulador e revogador de regras. É o pensamento com que se formulam e se transformam os tipos anteriores de pensamento. Esse tipo lhe dá o QS, ou inteligência espiritual. A inteligência emocional me permite julgar em que situação eu me encontro e me comportar apropriadamente dentro dos limites da situação.

Caboclo Pena Branca atende todas as quintas feiras lá no Odé. A inteligência espiritual me permite perguntar se quero estar nessa situação particular. Implica trabalhar com os limites da situação. A pesquisadora identificou dez qualidades comuns às pessoas espiritualmente inteligentes. Segundo ela, essas pessoas: 1. Praticam e estimulam o autoconhecimento profundo 2. São levadas por valores. São idealistas 3. Têm capacidade de encarar e utilizar a adversidade 4. São holísticas 5. Celebram a diversidade 6. Têm independência 7. Perguntam sempre “por quê?”. 8. Têm capacidade de colocar as coisas num contexto mais amplo 9. Têm espontaneidade 10. Têm compaixão. Mas para tudo isso é preciso pensar racional e inteligentemente. Já pensou?

Só aprendi as três operações. Cálculos avançados? Estou fora. Entender o mundo existencial à nossa volta sem se permitir influenciar pelas cores fantasiosas do surrealismo do Mágico de Oz, investirmo-nos de um existencialismo pragmático, sentir os odores e as texturas contextuais de tudo que se nos impõe verticalmente, que nos impregnam e obnubilam o pensar e o existir humanos, assumir integralmente o protagonismo do nosso existencial, jamais o de mero figurante e, resguardar-nos no pensamento criativo, capaz de insights, formulador e revogador de regras que nos emparedam na mediocridade avessa à intelectualidade e autoconhecimento é uma luta de vida e morte na atualidade.

Sei que sou eu e estou lá só quando batem à porta do “quartinho” e eu respondo. Tem gente! Tem? A frase de René Descartes, “Penso, logo existo” nos remete ao pragmatismo de uma realidade implícita no ser racional: Se eu duvido de tudo, o meu pensamento existe e, se ele existe, eu também existo. Crendo nesse princípio inerente ser humano pensante e totó o seu potencial criativo, posso garantir não existir qualquer miasma contraditório ao que nos legou o filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português, (Fernando Pessoa). “Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente. Por isso pouco sentiam. Daí a sua perfeita execução da obra de arte.”. Concluo meu pensar acreditando que nós somos os artífices da nossa própria obra existencial seja qual for a nossa visão autocrítica. Um pouco de narcisismo nesse caso, não representara nenhum pecado. É ela nos reveste a alma, delineia nosso eu emocional e nos representa pensante nesse universo de múltiplas interações físicas e espirituais. Meus valores, minha sensibilidade e percepção, meu talento aplicado ao que sou e desejo continuar sendo, é algo inalienável.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.



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